Conto: Carne de caju
Menu & Busca
Conto: Carne de caju

Conto: Carne de caju

Home > Lifestyle > Conto: Carne de caju

O sábado de Carnaval, ou de Zé pereira, como é popularmente conhecido, estava quente e seco. O vento que balançava as enormes palmeiras imperiais e o sol forte de verão brilhava soberano no eterno azul que abençoava a multidão fantasiada e enfeitada com as cores vermelha e amarela, descendo as ladeiras ao encontro do mar e do poderoso dragão que renasceria – mais um ano – das cinzas, atravessando o mar de gente que meandrava pelas ladeiras da velha cidade alta. Eu descia quase sozinho: minha companhia era o dourado das cúpulas das igrejas, as cores vivas dos sobrados seculares, paralelepípedos das ruas molhados de bebidas, muitas serpentinas e pessoas desconhecidas que desciam prontas para acompanhar mais um bloco ao som de muito frevo. Juro que não queria ter me perdido da minha doce “B”, ela estava comigo desde o início daquele dia.

Eu tinha planejado tantas coisas para aquele sábado de Carnaval. Queria apresentá-la a outro grande amigo para que eles se conhecessem melhor. Meu sonho era vê-los juntos, namorando. Medo de que mais um namorado me afastasse dela. Como todo mundo marcava presença obrigatória naquele bloco, eu alimentava uma inocente esperança de que um milagre aconteceria e eu pudesse reencontrá-la na tão esperada praça dos milagres. Contudo, talvez, isso tudo fosse um recado dos deuses para eu não tentar aproximar esses dois. Decidi não procurá-los mais. Seria meio triste passar todo o percurso do bloco sem estar acompanhado de bons amigos e sem álcool, parei de beber, pois já me sentia levemente embriagado e enjoado. Sentia-me meio melancólico com aquele crepúsculo se aproximando. Mais um dia de Carnaval indo embora.

A praça de onde saíra o bloco, à beira mar, estava, como sempre, repleta de pessoas pulsando amarelo e, sobretudo, vermelho. E eu estava à procura de milagres, como bom cristão que sou. O dragão descansava parado sobre o chão. Nos olhos dele conseguia sentir a ânsia em desbravar multidões e a paz do mar azul esverdeado penetrando minha alma me levava a refletir sobre a imensidão dos meus sonhos e delírios que nunca cessam, me chamava para um banho. Atravessei – de cabeça baixa sem querer encontrar conhecidos – por grupos de pessoas que bebiam, conversavam e se preparavam para seguir, tirei meu chapéu de palha, minha camisa e meus sapatos, dei um mergulho restaurador naquele mar quentinho de verão. Pedi às águas que levassem de mim tudo que estivesse pesando e trouxessem apenas o que fosse leve. Fiz um acordo comigo mesmo, com o mar e com os ventos.

Os clarins e trompetes anunciavam que a orquestra começaria sua jornada. Fiquei esperando o vento secar a água salgada em meu corpo e firmar aquele contrato em minha pele. Sentia-me mais que pronto para me jogar na multidão, no aperto, no calor, ao som de muito frevo, vendo muita gente feliz, sendo Carnaval. Esperei a banda de frevo dar a largada para poder me chegar perto da aglomeração. A rua, por onde seguíamos, já não comportava mais a quantidade de foliões. Cada vez mais nos tornávamos uma massa homogênea e impenetrável de pessoas. A cada sopro do trompete, eu ventilava meu coração, contemplava a beleza e alegria, tanta gente sendo leve e sendo guiada pelo som irreverente de canções que, por décadas, vêm marcando os nossos carnavais. Entretanto, aquilo tudo não me fazia esquecer a paixão que eu tinha desenvolvido por um casal que, na realidade, nem existia.

Esse sentimento de delírio foi me enchendo de uma agonia, um medo sufocante no meio daquela concentração de corpos suados em atrito. Tentava respirar e não conseguia. Tentava me manter em pé, porque se caísse seria pisoteado; sempre tentando manter a calma, mesmo sendo impossível. Estava me preparando para entregar meu corpo ali mesmo. Minhas pernas tremiam. Não havia mais saída. Os trompetes aceleravam, cada vez mais meu coração parecia não caber na minha caixa torácica, parecia não suportar tanta emoção. Seria uma mistura de felicidade, tristeza e ansiedade por estar tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante de quem eu amava? A doce B. estava por ali, em algum lugar, ela provavelmente me encontraria desmaiado em alguma calçada, coberto por serpentinas, glitters e marcas de sapatos. Ou talvez ela nem se lembrasse de mim naquele dia.

Tentei me afastar da multidão que se concentrava próxima à orquestra. Só assim conseguiria obter êxito e sair vivo dali. E foi nesse momento de extremo desespero que ele surgiu como um relâmpago no meio de uma noite escura em um deserto de sentimentos perdidos. Com um chapéu de palha na cabeça para cobrir seus ombros descobertos, sem camisa, o corpo dele brilhava naquele crepúsculo existencial. Aqueles olhos claros me salvaram de toda aquela crise de existência. Meus olhos encheram de lágrima, pensei em me esconder dele, fingir que não tinha visto. Mas já era tarde demais, o sorriso dele vinha aberto pronto para me devorar ainda mais.

Eu fora resgatado de um medo profundo para um estado sublime de encanto e contemplação. Não falamos nada, apenas nos abraçamos no meio daquele aperto. Por alguns segundos em silêncio, sentir aquele abraço, a pele quente dele, em contato com a minha, poder tocar os largos ombros e repousar toda a minha existência ali fora uma das experiências mais restauradoras que tive em minha vida. Eu desejei ficar ali por horas. Toda a dor que eu sentia desaparecera em segundos, com nossos corpos abraçados, ele me perguntou com um sorriso de medusa:

– Cadê Beatriz, bicho?

– Ah, a gente se perdeu faz tempo! Acho que ela deve tá com o boyzinho dela…

– Boyzinho? Como assim?

– Esquece; você tá me devendo aulas de alemão…

A multidão veio muito densa e nos carregou sem deixar que eu respondesse sobre Beatriz. Ele me segurou forte, por trás, seguimos abraçados, é só desse jeito que se consegue ficar junto num bloco de Carnaval em Olinda. Os longos braços dele me envolviam tão intensamente que sentia uma terrível completude. Nada mais bastava a mim. Ele sussurrou em meu ouvido:

– Fica aqui comigo, eu também me perdi da minha irmã. Vamos virar na próxima rua à direita, pegar a ladeira de São Francisco porque aí a gente vai na frente do bloco e vê se encontra as meninas, beleza?

Eu não tinha entendido muito aquela lógica dele, mas eu estava sendo completamente petrificado por cada gesto dele. Embora toda aquela situação me deixasse extremamente desconfiado com tudo, a desconfiança cessava quando as pernas dele encostavam-se às minhas. Eu podia sentir a coxa dele no meio das minhas pernas, trocando suor de pele para pele; e, mesmo tudo muito estranho, olhava para o alto e enxergava seus cabelos dourados, caídos nos olhos, se unindo a algumas poucas estrelas que surgiam naquele início de noite.

– Caramba, que sufoco, hein, Canela? Agora, me explica que história é essa de Beatriz tá com namorado?

Enquanto subíamos pela rua deserta que levava ao mosteiro de São Francisco, eu comecei a explicar – com um pouco de raiva, porque sentia que ele estava me usando – que ela estava ficando com um menino fazia alguns meses e eu tinha criado essa história porque, na verdade, era apaixonado por ele. Mas apaixonado no sentido mais amplo que a palavra pode atingir. Quem nunca se apaixonou por um livro, um poema, um amigo? Era essa a paixão que eu sentia por ele e Beatriz. Um sentimento que não se resumia à espera de recompensas envolvendo o ato sexual, mas a relações que transcendiam alguns minutos de prazer. Um homem apaixonado procura preservar, conservar o “objeto” idealizado. Foi quando ele, em silêncio, me segurou forte na porta de uma antiga casa abandonada e me falou seriamente:

– Eu sempre soube que não aconteceria nada entre mim e Beatriz, mas, na real, eu tava curtindo essa invenção tua; eu gostava do jeito que tu dizias que Beatriz ia gostar de me conhecer. Eu gosto da forma como tu descobres coisas sobre mim que até eu mesmo não sabia…

Eu estava esperando alguma atitude violenta, me peguei mais uma vez com medo. Contudo, o olhar dele me penetrava dissolvendo qualquer insegurança. Eu sentia confiança, me sentia seguro naquela imensidão esverdeada. Nunca me senti tão íntimo de uma pessoa. Não íntimo sexualmente, mas íntimo-alma, íntimo olho no olho.

Estávamos com o rosto muito próximo um do outro e ele não parava de me apertar. Sobre nós, a luz das estrelas e de alguns postes muito fracas. Ele me soltou, olhou para os pés, passou a mão nos cabelos e nesse silêncio adoravelmente secreto, eu pertencia a ele e ele a mim. Ele foi se aproximando e encostou seu rosto no meu, segurou meus braços fortemente e eu não conseguia sentir meus próprios batimentos cardíacos, os dele se misturavam ao meu, numa intensidade sobrenatural. Fomos tomados pelo silêncio que sucede o encontro sacro de dois olhares apaixonados.

Eu sentia que ele tremia e temia mais que meus próprios medos. Ele me soltou, mas ainda repousava a cabeça sobre meus ombros. Fora a minha vez de segurá-lo forte e pressionar meu corpo contra o dele. Não poderia deixar que aquele momento escorresse pelas minhas mãos. Fui passando meus lábios sobre o pescoço dele, beijando suavemente as bochechas, enquanto a sua respiração forte e acelerada demonstravam que éramos um do outro naquela noite. Ele apertava minhas mãos e, num surto de desejo e paixão, ele me beijou com muita voracidade e ânsia. Era fome de algo que eu jamais entenderia. Fome de alguém que nunca tinha se alimentado de verdade dessa surpresa chamada desejo.

Minha cabeça se encontrava num loop paradoxal entre a minha paixão por ele, que era a maior verdade que fazia parte de cada célula de meu corpo e o que ele realmente estava sentindo por mim naquele momento. Provavelmente ele estava bêbado para abrir mão da tão sólida posição heterossexual que ele sustentava (com tanta força), ao se agarrar com um homem no meio de uma rua escura no Carnaval. Minhas dúvidas não se sustentavam por segundos: a cada mordida que ele dava em meus lábios, eu sentia a rigidez de seu corpo me pressionar contra o muro da casa. Recebia seus lábios avermelhados e grandes, prontos para me devorar, manancial que em mim desaguava.

Ele segurava minha cabeça com as duas mãos grandes dele, olhava fundo nos meus olhos, e lambia meus lábios, minhas bochechas, meu rosto, me bagunçando todo. Estávamos todos bagunçados, cabelos desarrumados, chapéus no chão. Minha mão passeava por todo o corpo suado dele, cada toque uma descoberta daquela pele rígida, músculos bem trabalhados, pulsando sangue e desejo. Ele me suspendera na mureta, se colocando entre as minhas pernas com muita força querendo me invadir e não havia nenhum segredo entre nós naquele momento, nossos corpos se comunicavam perfeitamente num diálogo íntimo.

– João, talvez fosse melhor a gente voltar e procurar as meninas, tá muito escuro aqui e tá ficando tarde…

Eu não queria ter sido o primeiro a desistir, aquele momento só nosso, talvez, nunca mais fosse existir. Na quarta-feira de cinzas, todas as máscaras voltariam para os seus devidos rostos. E meu J. Neto voltaria para sua bolha. Eu precisava aproveitar aquele momento como se não fosse existir amanhã. Tudo teria que acontecer ali, naquela rua escura, na frente daquele velho casario, quase perto do Convento de São Francisco, da Capela de São Roque. Consumiríamos um ao outro ali mesmo ou nada feito. Rezava para que Nossa Senhora nos protegesse dos perigos que nos fazem passar por amar o semelhante num país que mais violentam LGBTS.

– Tu acha mesmo que a gente vai encontrar alguém ainda, bicho? Vamos lá para casa, é aqui perto na beira mar; minha mãe tá viajando e minha irmã não deve dormir por lá hoje, a gente toma mais umas, come umas coisas, troca umas ideias e descansa para amanhã…

Seguimos andando, descendo becos, ladeiras, escadarias. Ele sorria muito. Eu nunca o vira tão autenticamente feliz. Não queria confiar naquela felicidade, talvez fosse fruto apenas do clima de Carnaval. Ao descermos por uma escadaria mais escura que o normal, ele mais uma vez me empurrou contra a parede e, lambendo minha orelha, falou sussurrando: “Eu nunca provei uma canela salgada”. Continuou descendo enquanto eu explicava a ele que tinha tomado um banho de mar mais cedo, por isso estava com aquele sal na minha pele ainda.

Caminhando, ele me explicava que queria passar o dia de seu aniversário (na quarta-feira de cinzas) afastado da família, comigo, numa praia onde ele gostava de surfar. Era exatamente na praia onde eu passava o verão em família. Eu não permitiria que tantas emoções boas da minha infância se misturassem as de alguém que, provavelmente, devia estar completamente embriagado, jogando ao vento (e em meu coração) palavras soltas. Eu estaria preparado para ser alguém mais especial do que tinha sido até ontem? Talvez eu não acreditasse muito nessa programação que as pessoas insistem em planejar para que tudo aconteça de forma plenamente especial. O especial é o acaso. É ser surpreendido com o sorriso de alguém e aquele sorriso penetrar a sua alma, marcando-a por décadas. Eu não me entregaria assim tão facilmente, mesmo estando tão perto de embarcar.

– A gente pode pegar o barco do meu pai e ficar umas horas no mar, tou meio sem saco para festas esse ano…

– Muita Calma, Seu João apressadinho, é teu aniversário de vinte anos. Com certeza, teus pais vão querer comemorar com uma festona…

Na sua casa, entramos no escuro e ele me segurando forte. Na cozinha, ele correra pegando um caju na geladeira e logo dera uma mordida naquela carnosidade tropical, vermelha e amarela. Eu, parado, fiquei na porta. Cada passo que ele dava naquele piso, me deixava apaixonado. Os dedos dele não se moviam da mesma forma que os de um humano qualquer.

– Queres suco de caju? Vitamina C é bom pra ajudar na ressaca.. 

– Eu adoro caju, caramba! 

– Eu também, gosto de morder aquela parte macia e ao mesmo tempo rançosa…

– Tá certo, senhor dos cajus. Vou te chamar de CAjuao agora… 

– Vem cá, quero provar caju com canela!

Ele me puxara, empurrando o caju na minha boca. Estávamos ambos mordendo e saboreando o caju e a boca um do outro. O gosto da boca dele, se adequou perfeitamente àquele ranço do adocicado do caju. Eu nunca mais comeria um caju sem me lembrar do meu “Cajuao” e isso já estava ficando grave.

As carícias só continuavam, ele nos guiava até o banheiro onde tomávamos banhos juntos e ele não conseguia largar meu corpo um segundo. A cada descida que meus lábios fazia pelo seu corpo, sentia suas carnes tremerem de êxtase. Deitamo-nos ainda molhados na sua cama e continuamos a nos acariciar intensamente até que, decidimos parar por ali, estávamos cansados da longa maratona de caminhadas. Ele sugeriu assistir a um filme e comer pipoca. Passamos um bom tempo, abraçados, assistindo a um filme que eu não estava gostando muito. Em meus pensamentos, eu tentava me desligar dos rótulos “hetero” e “homo”, eu não queria entrar numa discussão que quebrasse nossa comunhão de sentimentos que pareciam tão sinceros. Ele podia muito bem ser bissexual, mas não estava pronto para assumir a si mesmo.

– Ei, bicho, to aprendendo a tocar violão, queres escutar uma música?

– Que massa, Jão! Manda vê!

Ele começou dedilhando lentamente as primeiras notas e, em minha mente, eu já conseguia escutar os primeiros sinais da anunciação. As ondas do mar quebrando forte na praia, janelas abertas e a brisa salgada brincando com nossas sensações mais puras. Com essas notas, adormeci deitado em sua coxa. Pude perceber quando ele parou de tocar e cuidadosamente me ajeitou em sua cama, acariciando meus ombros com sua mão, dedos longos e delgados. Adormeci com esse sentimento de segurança que perduraria por anos, a partir daquela noite. Ali nos entregávamos. Flutuando um sobre o outro, se enxergando além do tangível. Aquele sorriso dele devorando minhas sensações mais profundas permanece presente em mim. Ele permanece em mim na ausência, na espuma do mar da praia de Casa Caiada; no vento, nas ondas de Maracaípe, na guitarra de Alceu, nos bares da cidade Alta, nessa ausência-presente que insiste em ser saudade. E, todo amanhecer nasce raro, como a flor do mandacaru, trazendo a esperança de te ver.

____________________________
Por Leidson Antonio Gonçalves Canel Junior

Tags mais acessadas