Como a ficção dos filmes de terror explica o medo da vida real
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Como a ficção dos filmes de terror explica o medo da vida real

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Capazes de despertar o lado mais primitivo e instintivo do ser humano, os filmes de terror fazem do medo o principal fator de imersão para conectar espectador e obra

Um vírus mortal com capacidade de se espalhar em escala mundial parece uma ótima premissa para um filme de terror, mas esse é, na verdade, o medo cotidiano da vida no ano de 2020. O termo “Quar-Horror”, segundo ferramenta de pesquisa do Google, teve o seu patamar de pesquisa mais alto durante a pandemia do coronavírus.

Filmes de infecção e quarentena não são novos, mas nunca pareceram tão reais. Neste novo contexto, apesar do pavor em que se encontra a sociedade, as pessoas parecem cada vez mais interessadas em produzir e consumir dessa vertente, para que possam recontar de diversas formas essa história.

Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE), o pesquisador, crítico e professor Carlos Primati explica que “a experiência do horror é um interesse em investigar e se sujeitar ao desconhecido, mas sempre de maneira controlada. Ninguém vive isso voluntariamente em vida real, mas na ficção”. A sétima arte utiliza essa técnica desde o seu princípio, mas para que o resultado seja efetivo, é preciso entender o seu público.

filmes de terror
Entenda como a ficção dos filmes de terror explica o medo da vida real. | Foto: Reprodução.

Ficção dos filmes de terror explica o medo da vida real

Para Primati, o gênero do horror é o que melhor retrata o contexto histórico de cada época. Retrocedendo quase 100 anos, foi na década de 1930 que os monstros clássicos pularam do papel para a película, dando origem ao gênero com Drácula e Frankenstein, por exemplo. Mas nos anos de 1940, os seres fantasiosos perdem espaço para um medo muito mais real: o horror da Segunda Guerra Mundial. O aspecto juvenil das criaturas horripilantes perde espaço para a sutileza, a tensão e o desconhecido.

Na década seguinte, a ficção científica surge com as mutações genéticas, os monstros gigantes e os alienígenas. Mas é nos anos 60 que o gênero ressurge com uma força maior. Com o rock’n’roll em alta, a psicodelia alucinante e a rebeldia do sexo e das drogas, os temas de rituais satânicos e demonologia invadem as telas de cinema. É uma sociedade ameaçada pelo pessimismo da Guerra do Vietnã e assassinatos de líderes importantes, como Martin Luther King.

“Tudo isso cria um clima muito pessimista de desesperança do futuro nos Estados Unidos. E os filmes nessa época representam muito isso: a ideia de um mal que não pode ser combatido”, pontua Primati. Dentre os clássicos do período estão Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, O Bebê de Rosemary (1968), de Polanski e, um pouco mais tarde, O Exorcista (1973), dirigido por William Friedkin, que marca o grande ressurgimento do Terror.

O gênero entra outra vez em um dos seus ciclos mais promissores e lucrativos, o que não acontecia desde o início do século, agora se aproveitando de astros conhecidos e um investimento maior em suas produções.

A geração de 1980 é marcada por uma política moralista e conservadora, representada principalmente pelos Republicanos. Dessa forma, popularizam-se os slashers, como Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980), A Hora do Pesadelo (1986) e Brinquedo Assassino (1989). Aqui, o jovem que quer fazer sexo e consumir drogas vai ser punido severamente. “Quem morre nos filmes da Sexta-Feira 13 é sempre o jovem que faz alguma transgressão. Crescia também o medo da Aids. Ou seja, é a ideia de que o sexo mata, de que consumir drogas mata, e assim por diante. Era o medo de morrer jovem”, explica o crítico. Com um conteúdo mais pop e juvenil, o gênero se desgasta em sua própria fórmula ao longo do tempo.

Mas a gente pode dizer que tem um grande crescimento dos filmes de terror depois de O Silêncio dos Inocentes (1991), que ganha os 5 principais Oscars e legitima um gênero que supostamente é visto por menos pessoas. É quando ele se torna novamente um gênero lucrativo e os estúdios começam a investir em produções mais caras.

Continua Primati.

No início dos anos 2000, Jogos Mortais traz o horror da extrema tortura, do sofrimento e seu prolongamento. É a época em que foi preso e executado o Saddam Hussein. É o momento em que é vista a dor da Guerra do Iraque, mostrando na televisão a brutalidade dos americanos e a morte dos civis. Também se revela o tratamento cruel que os norte-americanos davam aos prisioneiros em Guantánamo. Jogos Mortais se torna a franquia mais bem-sucedida de todos os tempos, mas outras tantas se destacam nesse período, como Pânico (1996), Premonição (2000), Atividade Paranormal (2007) e o universo de Invocação do Mal, que se inicia em 2013.

Alguns nomes brilham no cenário atual por sua inventividade, com filmes capazes de intrigar e amedrontar o seu público em uma mesma proporção. Jordan Peele, com Corra! (2017) e Nós (2019), Robert Eggers, com A Bruxa (2015) e O Farol (2019), James Wan com os universos de Sobrenatural (2011) e Invocação do Mal (2013) são alguns dos exemplos mais conhecidos.

Eu diria que o futuro incerto é o medo mais assustador na atualidade, porque não conseguimos ter qualquer certeza de como será o futuro, nem sequer imediato. Ninguém sabe como as coisas serão em 2021.

Conclui Carlos Primati.

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Por Carolina Gomes – Fala! Mack

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