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Batman: O Messias – problemas da ideologia e da religião política

Batman: O Messias – problemas da ideologia e da religião política


Por Leonardo Delatorre Leite – Reaviva MACK
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Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! (Jeremias 17:5) 

É apenas à ignorância que se devem debitar tais coisas, ou aliam-se a ela a má fé e segundas intenções? Será produto de uma deficiência do espírito, ou obedece a uma intencionalidade que não pode ser confessada? (Origem dos grandes problemas filosóficos p.4)

“- O Diácono me dobrou, Robin. Ele me esfomeou, drogou, torturou… Fez lavagem cerebral. Blackfire me convenceu que estava certo. Eu não fui forte para resistir. – disse Batman.
– Tem gente pensando que ele é um herói… Um messias. A cidade inteira está dividida entre os que são a favor e os contra o diácono. – Afirmou Robin” 

Batman: O Messias

Batman: O Messias é uma das grandes e clássicas aventuras do Homem-morcego, o famoso Cavaleiro das Trevas. Trata-se de uma Hq lançada inicialmente em 1988, em quatro edições especiais.

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Batman: O Messias.

Escrita por Jim Starlin, a trama retrata os conflitos de Batman com o diácono Joseph Blackfire, uma espécie de figura carismática que atrai um grande número de seguidores para uma “seita” que promete acabar com os crimes que assolam a cidade de Gotham.

A história faz questão de mostrar as fragilidades psicológicas de Bruce Wayne, tendo seu espírito quebrado e destruído pelas artimanhas e investidas de Blackfire. 

Não é a figura mitológica de Gotham City o enfoque da história, mas o homem por trás da máscara. Sobrepujado, faminto e enfraquecido pelo diácono Blackfire, o espírito de Bruce Wayne foi quebrado.

O personagem já sofreu derrocadas anteriores, mas nunca de forma centrada em sua psiquê interna. O roteiro de Jim Starlin nega o conceito de um herói quase inumano, fundamentado pelas décadas posteriores como um personagem indestrutível.
(Por Thiago Augusto Corrêa – Vortex Cultural) 

A trama se inicia com as alucinações de Bruce Wayne, que se encontra capturado pelos membros da seita do diácono. Com o passar da história, o Batman começa a questionar suas ações, seu propósito e até mesmo seus próprios valores; sofrendo uma espécie de “lavagem cerebral”.

Vale ressaltar que o homem-morcego, em uma parte da narrativa, torna-se adepto da Blackfire e realiza até mesmo algumas tarefas e missões em nome da organização religiosa; pois ele mesmo não se encontrava em capacidade de discernir a realidade do onírico ideológico. 

Responsável pela prisão do Morcego, o diácono Blackfire reúne nos esgotos de Gotham City os párias invisíveis da sociedade em uma seita que deseja erradicar o mal da cidade e dar poder aos menos favorecidos.

Uma parábola afirma que o messias surgiu em uma época próxima da colonização da América, e, desde então, sua palavra santa é propagada. O diácono representa o personagem carismático que domina, a favor de si próprio, seres desesperados.

Por intermédio de uma força maior, favorecida pelo uso de psicotrópicos, Blackfire induz uma seita devota pelo medo e .

No prefácio assinado por Starlin em 1990, o autor refere-se ao personagem como um reflexo de certo grupo de americanos que estiveram contra os quadrinhos desejando evitar que a violência, a morte e o horror estivessem presentes em obras de entretenimento.

A discussão foi passada para a história na figura do diácono, em suas palavras, “disfarçado como um líder religioso, se escondendo sob um falso moralismo enquanto age em nome de seus próprios interesses”.

A figura do vilão carrega o lado sinistro das seitas e de seus meios para conquistar fiéis, um sistema que, apertando os pontos certos de tensão, coloca o próprio herói em dúvida. (Por Thiago Augusto Corrêa – Vortex Cultural). 

O Batman até mesmo cogita abandonar Gotham, pois reconhece que o diácono Blackfire já possuía grande suporte da população e praticamente detinha o controle da cidade.

Contudo, com o suporte do comissário Jim Gordon e do Robin Jason Todd, o homem-morcego consegue derrotar o diácono e destruir a confiança messiânica dos fiéis da organização fanática. 

Ideologias

A história nos faz refletir acerca do surgimento das seitas, da fé messiânica em figuras carismáticas e dos perigos obscuros das “ideologias”; pois conforme exposto no quadrinho, Bruce Wayne quase chegou a perder seu intelecto, seu discernimento e sanidade; algo difícil de se ver nas outras aventuras do personagem.

A tarefa do Cavaleiro das Trevas era destruir uma espécie de crença cega na figura de Blackfire; a luta não era contra um vilão em si, mas sim contra uma ideologia, uma ideia mística. 

Para melhor compreensão do problema da ideologia, se faz necessário apresentar uma definição acerca do que ela significa e representa.

Para Eric Voegelin, a ideologia seria uma cosmovisão que procura estabelecer um “paraíso” na terra ou se propõe a oferecer os meios necessários para concretização desse paraíso na história do homem. 

Ideologia é um construto teórico ilusor que direciona seus fins à reforma da sociedade segundo sua imagem, excluindo qualquer transcendência ou verdade para além de seu próprio sistema e objetivo longínquo. O cerne das ideologias é a imanentização do eschaton, a redução dos fins a si mesma, o que normalmente desemboca em utopias. A felicidade do homem, ou qualquer outro fim, devem estar sempre englobados pelos ditames do sistema. Russel Kirk bem chamou a ideologia de religião invertida. (Por Vitor Matias- Contra os acadêmicos)

As ideologias são religiões políticas secularizadas, que levam consigo os símbolos e o vigor das religiões, mas se concentram, quase exclusivamente, nos aspectos materiais e humanos, não sobre os espirituais.

Russell Kirk

Voegelin utiliza a expressão “imanentização escatológica” para se referir aos processos ideológicos, pois toda ideologia procura em seu âmago estabelecer a “perfeição terrena”; uma alegoria ao paraíso descrito na Bíblia.

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Batman: O Messias. | Foto: Reprodução.

Em “Batman: O Messias”, o diácono Blackfire se valia de vários elementos simbólicos e até mesmo de psicotrópicos para fomentar a ideologia em torno de sua seita e de sua própria pessoa; ele reunia seus fiéis para combater o crime, reduzindo a insegurança na cidade e prometendo uma paz social.

As pessoas contaminadas pelas ideologias depositam sua fé em figuras carismáticas, em organizações políticas, em cosmovisões sociais e até mesmo em figuras patéticas ou claramente banais, mas que por suas promessas esperançosas acabam por cativar a atenção dos indivíduos. Voegelin atribuiu a essa falsa esperança o conceito de “fé metastática”. 

“Kenneth Minogue, no livro Alien Powers: The Pure Theory of Ideology [Poderes Estrangeiros: A Teoria Pura da Ideologia], utiliza o termo “ideologia” para “denotar qualquer doutrina que apresente a verdade salvífica e oculta do mundo sob a forma de análise social. É característica de todas essas doutrinas a incorporação de uma teoria geral dos erros de todas as outras.” Essa “verdade salvífica e oculta” é uma fraude – um complexo de “mitos” artificiais e falsos, disfarçado de história, sobre a sociedade por nós herdada.” ( A Política da Prudência- Russell Kirk) 

A ideologia é uma religião invertida, negando a doutrina cristã de salvação pela graça, após a morte, e pondo em seu lugar a salvação coletiva, aqui na Terra, por meio da revolução e da violência. A ideologia herda o fanatismo que, algumas vezes, afetou a fé religiosa e aplica essa crença intolerante a preocupações seculares. (A Política da Prudência p.95)

Quando depositamos nossas esperanças em coisas terrenas, acabamos por sacrificar valores importantes.

Acontece que hoje em dia as pessoas se deixam levar facilmente por messianismos toscos, sejam eles políticos ou religiosos e assim se tornam incapazes de refletirem de forma coerente acerca da realidade em si. 

A ideologia perverte a verdade e ignora a moralidade autêntica, instrumentalizando as pessoas e utilizando os indivíduos como meros artifícios para a concretização de um ideal.

Esse fenômeno explica a ascensão de líderes totalitários e o surgimento das seitas, das religiões políticas e dos mitos políticos.

Quando a sociedade se torna moralmente frágil e perde o senso ético do bem comum e da Verdade, o totalitarismo surge como uma resposta para as necessidades e urgências dos cidadãos.

Assim dizia Eric Voegelin acerca do sucesso do nazismo de Hitler na Alemanha: 

O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente (…) Figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira.

Voegelin utilizou a expressão “religiões políticas” para designar a ideologia política que se encontra amalgamada com uma perspectiva gnóstica da fé metastática, uma vez que o chamado “gnóstico” alega possuir um conhecimento especial que o permite dirigir a construção do paraíso terrestre; reformulando a realidade a seu bel-prazer e instrumentalizando as pessoas conforme um plano ou agenda teórica pré-estabelecida para a imanentização escatológica. 

É fácil verificar a existência das religiões políticas em meio ao contexto de polarização, pois os lados antagônicos enxergam o opositor como um inimigo e abandonam completamente uma análise prudente da realidade e da necessidade do bem comum. 

Ernst Cassirer, um famoso teórico alemão, explica os mecanismos dos mitos políticos e como se transformam em instrumentos de manipulação e dominação.

Para Cassirer, “O mito sempre foi descrito como o resultado de uma atividade inconsciente e como produto da livre imaginação (…), mas aqui encontramos o mito feito de acordo com um plano. Os novos mitos políticos não crescem livremente; eles não são frutos selvagens de uma imaginação exuberante. Eles são coisas artificiais fabricadas por artesãos muito hábeis e astutos”.

Reflexão atual

Em comparativo com a Hq, fica claro a existência de um “mito político” criado por Blackfire para que ele se torne uma figura social que pudesse exercer o controle da cidade de Gotham. Na narrativa do Cavaleiro das trevas, o diácono era claramente uma farsa, uma figura que se preocupava apenas em dominar e controlar. 

O diácono sabe exatamente que palavras proferir. Ele estimula os desejos mais vis; convencendo a todos de que o que almejam é justificado. Um talento singular, mesmo com pessoas tão pobres e decadentes. Enquanto estão ocupados gritando, ninguém vai se opor a que eu faça uma investigação (…) acho bom começar pelo santuário do diácono, não sei o que esperava encontrar aqui. Se eu tivesse uma lista de possibilidades, esta seria a última. Luxo ostensivo. Um ambiente requintado demais para um messias. O diácono é um falsário, enganou todo mundo. Não há nada de místico em sua pessoa. É pura balela. Ele consegue tudo com drogas, psicologia e desabrigados. Transformou inocentes em assassinos… dividiu a cidade em facções polarizadas.

Comentários de Batman acerca do diácono Blackfire.

Sobre os mitos políticos, Cassirer continua: “em certo sentido, ele é completamente racionalizado. Ele é irracional em seu conteúdo, mas é muito claro e consciente em seus objetivos”. Tal esclarecimento de Cassirer resume a estratégia do diácono Blackfire para controlar Gotham. 

A criação dos mitos políticos deve-se então, segundo Cassirer, a uma descoberta puramente técnica, a de que é mais fácil governar os homens pela imaginação do que pela razão (…) Em outras palavras, a decisão de governar pelo uso da força da imaginação é a decisão de romper com qualquer ideal ou expectativa de esclarecimento da população: trata-se de confina-la à menoridade do juízo cativo das emoções em lugar de elevá-la à capacidade de julgar racional e eticamente o que se deve fazer. (Rafael Garcia em O princípio do totalitarismo em Ernst Cassirer) 

Portanto, “Batman: O messias”, além de uma ótima história do Cavaleiro das trevas, representa uma ótima oportunidade de reflexão acerca dos perigos da ideologia, dos mitos políticos e do messianismo; além de retratar o quanto estamos vulneráveis as tentativas e artimanhas de dominação psicológica e intelectual por parte de falsas religiões e cosmovisões pautadas numa espécie de fé metastática.

Até mesmo o Batman é apresentado com suas fraquezas humanas diante desse cenário.

Batman: O Messias nos traz uma interessante desconstrução do Homem-morcego e uma abordagem mais humana ao herói, ao passo que sua maior arma, o intelecto, é colocada em xeque.

Uma história que progride forma orgânica e um carismático vilão, Jim Starlin constrói uma excelente história do vigilante mascarado, que merece ser lida e relida tanto por sua narrativa quanto pelas fortes imagens que a ilustram. (Por Guilherme Coral– Plano Crítico) 

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