Artes clássicas ainda são para elites brancas: o racismo no balé e na música clássica 
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Artes clássicas ainda são para elites brancas: o racismo no balé e na música clássica 

Artes clássicas ainda são para elites brancas: o racismo no balé e na música clássica 

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Antes de ser segmentado em estilos, o mercado das artes clássicas é dividido em classe e raça. Apesar da escassez de dados sobre o assunto no Brasil, a história e a percepção do público e dos profissionais não enganam: as artes clássicas são feitas por e para elites brancas e o racismo é um problema frequente nesse nicho.

Enquanto o país não reúne informações sobre o cenário das artes clássicas, a pesquisa Middle Class Artists, realizada nos Estados Unidos, revelou que em todos os 139 anos de história da Metropolitan Opera House, em Nova York, apenas 3% dos cantores regulares eram negros. A falta de representatividade se reflete também na plateia, frequentada por 3% de afrodescendentes, segundo dados do LaPlaca Cohen, instituto de pesquisa especializado em artes.

Entenda como o racismo está presente nas artes clássicas.

Artes clássicas
A falta de representatividade reflete o racismo presente nas artes clássicas. | Foto: Reprodução

Racismo na música e no balé clássico

Na música e no balé clássico, são raras as apresentações que dialogam com expectadores não-branco e pobres, ato que colabora para o afastamento dessas pessoas. “O público que frequentava há séculos continua sendo o mesmo que frequenta hoje”, aponta Gilbert Vilela, professor e violinista da Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro. 

Na dança, a bailarina Dandara Malvino lembra que “as próprias produções clássicas têm essas histórias. Ou são princesas ou são romances, pouquíssimos balés falam de revolução ou contam uma história que não seja uma história branca e isso também é efeito do racismo.” Mesmo quando as peças são sobre pessoas negras, a representação do grupo ocorre de maneira estereotipada e repleta de blackface.

Em 2019, o Teatro Bolshoi da Rússia, referência mundial de balé clássico, pintou duas bailarinas brancas de preto da cabeça aos pés para a apresentação de La Bayadere (A dançarina do templo). A peça se passa na Índia e conta a história do casal Nikiya e Solor, uma bailarina e um guerreiro, respectivamente. Na narrativa, o romance é atrapalhado pelo Rajá Dugmanta, que tenta casar sua filha, Gamzatti, com Solor. O Sacerdote Brâmane, apaixonado por Nikiya, também tenta desfazer a união do casal.

Por se tratar de uma história entre negros indianos, o ideal seria convidar dançarinos desse perfil. A companhia de balé, porém, preferiu selecionar pessoas brancas para o papel. Assim que uma das bailarinas publicou a foto da caracterização nas redes sociais, o ato ganhou uma repercussão gigantesca entre internautas, que criticaram a instituição por fazer blackface.

Racismo
Bailarinas do Teatro Bolshoi caracterizadas para apresentação da peça La Bayadere. | Foto: Reprodução/Instagram

Apesar da desaprovação, o Teatro Bolshoi foi a público defender a sua posição, justificando que ao longo dos mais de 140 anos de apresentação de La Bayadere, a instituição nunca sofreu críticas pela forma como conduzia o espetáculo e que, portanto, seguiria o mesmo modelo. “Quando uma grande companhia diz que não vai mudar, porque nunca teve problemas com isso, é uma violência. Então eu fico pensando o que a gente faz com isso? Lança um processo? E os direitos humanos? Como a Organização das Nações Unidas (ONU) vai lidar com isso? Como se trata essas questões na arte que são relacionadas à raça? Porque é um discurso que não dá para passar ileso”, pontua o bailarino e professor de dança Gleidison da Anunciação. Embora infeliz e totalmente desalinhada aos debates do século XXI, a prática é recorrente no balé. “Eles não têm coragem de chamar uma pessoa negra para fazer aquele papel”, afirma Dandara Malvino, bailarina clássica e estudante de direito.

O racismo nas artes não poupa nem as crianças. Em 2003, a dançarina negra Dana Nichols, na época com 11 anos, também foi pintada de preto para encenar La Bayadere, pois seu tom de pele “não era escuro o suficiente”. Para a Dance Magazine, ela contou que teve seus lábios pintados com um batom vermelho chamativo e que aquela caracterização a deixou muito mal. Ainda assim, a menina seguiu com o planejado, afinal, era o sonho de qualquer bailarina clássica dançar em uma companhia tão renomada, com grandes nomes do estilo. Apenas anos depois, Dana percebeu que havia encenado uma indiana primitiva.

A elitização das artes clássicas

Os recursos para manter as artes clássicas sob o domínio de um pequeno grupo não se limitam a apresentações estereotipadas ou desconectas à vivência de negros e pobres. O recorte também é feito pelos custos para inserção e manutenção do grupo nesses estilos. Além das escolas de música e dança terem mensalidades altas, todos os gastos com figurino, equipamentos, deslocamento e alimentação saem por conta do profissional.

Dandara começou a estudar balé com cinco anos em um estúdio e, com a evolução da sua dança, ingressou no Conservatório Brasileiro de Dança. Moradora do Engenheiro Belford, em São João de Meriti, a estudante precisava se deslocar até a Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, para ter quatro horas de aulas de balé clássico e moderno.

No período em que ingressou na escola, a única fonte de renda da sua família era o programa de transferência de renda Bolsa Família. Com esse dinheiro, a mãe de Dandara custeava as necessidades da família e comprava o material da filha, como o collant e as sapatilhas. Nesse contexto de recursos limitados, a jovem bailarina chegou a assistir aulas com apenas um biscoito para comer.

“Foi um ambiente que nos destruiu muito psicologicamente pela pressão, pela questão da classe, dificuldades financeiras para tudo, deslocamento, comida, ficar ali fazendo mil horas de aula muitas vezes com fome e enjoada, porque não tinha dinheiro para comer entre as aulas… Pelas meninas que zombavam da gente, pelo rigor técnico muito alto”, conta Dandara, que era uma das únicas alunas não-brancas do conservatório. “Eu me sentia mal, me sentia oprimida porque só tinha eu e mais uma menina de bailarina negra”, lembra a meritiense.

Em outras áreas, as pessoas poderiam trabalhar para custear as despesas com a profissão, mas, no balé, isso não é possível. “Na própria atividade no Brasil, também temos a marcação de classe. As escolas de balé são feitas para você se tornar só um bailarino. A pessoa não tem a oportunidade de trabalhar porque as aulas são no meio da tarde e duram o dia inteiro, então para uma pessoa que não tem como viver do dinheiro dos pais, isso acaba se tornando praticamente impossível. Sem contar que as próprias escolas de balé são muito caras, mas graças a diversas ONGs e projetos sociais, existe a possibilidade de crianças começarem a fazer balé e irem para a filial do Bolshoi em Joinville, assim como ir para outros países.”

É inegável que as aulas de artes clássicas em ONGs e projetos sociais  contribuam para gerar novas perspectivas aos jovens negros e periféricos, mas a forma isso é feito suscita debates. “Eu entendo o valor dos projetos sociais na vida das pessoas. Tem pessoas que mudaram de vida, que estão vivas por conta de projetos sociais, mas a minha crítica é sobre a forma como esses projetos são feitos. Quem leva? A gente vê uma favela que tem 50 alunos negros e a professora é branca. Quais são as referências? Isso  perpetua o sonho da bailarina de caixinha de música, perpetua o sonho que não vai ser alcançado e depois vem a frustração. De 50, apenas uma alcança isso e a muito custo. Eu fico pensando em como essas iniciativas são necessárias, mas também em como elas acontecem a partir das narrativas outras”, pontua Gleidison.

Para promover a perspectiva negra no estilo das artes clássicas, ambos os dançarinos concordam que o Brasil precisa de escolas de balé clássico voltada para pretos e pardos, de maneira semelhante ao que acontece no Dance Theatre of Harlem, em Nova York. A maior parte do quadro de dançarinos  da companhia é formada por negros e as histórias contadas nas apresentações são sobre esse grupo. Enquanto a escola americana se mostra firmemente comprometida com as questões raciais, outras, porém, desejam apenas cumprir cotas, avalia Gleidison.

“Algumas companhias têm colocado pessoas negras por terem tido cobranças da comunidade muito forte, por achar que isso é uma vitrine, para falar que tem bailarinos negros, para diminuir as suas problemáticas perante o olhar da sociedade, para ganhar mais admiradores, tem um jogo que acontece da nossa entrada em alguns espaços que é puramente para dizer que a companhia está fazendo mudanças, está se atualizando, quando na verdade, não”, afirma o bailarino, que pontua: “Se a gente tem escolas de dança para pessoas pretas, mas que ainda tem um ponto de vista cartesiano, ocidental, branco, a mudança não vai acontecer.”

Além de ter que lidar com a metodologia das classes, os artistas ainda enfrentam outro contratempo, a falta de investimento em projetos sociais que inserem crianças e jovens nessas áreas. O violinista Gilbert Vilela, mais conhecido por Gil Vilela, teve seu primeiro contato com a música ainda na pré-adolescência em um projeto do Centro Cultural da Light. No entanto, a iniciativa foi interrompida por não haver recursos financeiros. “Até hoje, dói muito pensar que nós não temos incentivo à cultura, é muito fraco o nosso incentivo à cultura. Então para quem vive disso é muito difícil, tem que ser muito guerreiro.”

Diante de uma estrutura desigual de acesso às artes clássicas e da falta de financiamento do poder público, os profissionais dependem do apoio de suas famílias, como Gleidison, que morava em Periperi, periferia de Salvador, na Bahia, e tinha que passar por uma rotina exaustiva para seguir na dança. Aos 12 anos, acompanhado por seu pai, ele passava duas horas no ônibus até chegar a Pituba, bairro nobre da capital baiana. “Foi um dos piores aspectos”, afirma Gleidison​ que emenda: “A partir desse momento, eu comecei a abrir os olhos para quando eu olhava para os meus colegas do balé. Se o ensaio terminasse às 22h, eu chegava em casa às 23h30 ou 0h, meus amigos chegavam em 15 minutos.”

Para seguir seu sonho, ele contou com o apoio de seu pai que, além de levá-lo às aulas, custeava todas as despesas geradas pela dança. “Meu pai foi um patrocinador”, afirma o baiano  que lembra que nem todos têm a mesma oportunidade. “Muitos amigos desistiram da dança, foram trilhar caminhos em outras profissões, porque não tinham incentivo, nem incentivo financeiro, então chega um momento que isso fala muito mais alto, porque a gente precisa de grana para um lanche, para o transporte… Eu, por exemplo, não podia ir à pé. Eu seria louco se fizesse isso, porque era muito longe”, afirma o bailarino.

Tão importante quanto ajuda de custos é o incentivo moral. Gleidison lembra que seus pais estavam presentes em todas as suas apresentações, mas os responsáveis por seus colegas de turma, não. “Se meu pai não tivesse colaborado, isso não iria existir para mim”, lembra o dançarino. Assim como ele, Dandara também tinha o suporte de sua família. O pai nunca se opôs ao sonho da menina, e a mãe a apoiava em suas decisões. Além das famílias, os professores da jovem a incentivaram na trajetória de treinos.

Sem se sentir satisfeita com sua técnica, ela pensou em desistir várias vezes, mas seus professores a diziam para continuar. “Não desiste, você é boa, você é esforçada, você tem o físico”, afirmavam os mestres. No balé, o físico ideal é o que atende às expectativas de imagem do corpo europeu: branco, magro, alto e sem muitas curvas. Com exceção do seu tom de pele, a jovem bailarina se encaixava nesse perfil. Por outro lado, aquela que era a melhor dançarina da turma na avaliação de Dandara não estava dentro dos padrões, devido a sua pele escura, coxas grossas e glúteos grandes. Por isso, mesmo que brilhasse durante os ensaios, a garota não era reconhecida, lembra emocionada a meritiense.

Ainda assim, Dandara se inspirava nela. “Eu queria ser igual a ela”, mas toda essa admiração era interpretada como inveja pelas outras colegas de turma, que chegaram a afirmar que Dandara tinha “olho-gordo” sobre sua inspiração. “Como se eu quisesse fazer algum feitiço para ela, aí já me colocando também em um outro nível de racismo, o racismo religioso”, conta a jovem.

O racismo e o preconceito de classe pelo qual os artistas passam não se limitam aos espaços de trabalho, pois a origem deles está na própria estrutura social, como Gil sabe bem. Morador do Morro da Providência, favela na região Central do Rio, ele é questionado diversas vezes por policiais sobre a suposta incoerência de ser um músico negro e da favela. Além da revista arbitrária e do interrogatório pelo qual costuma passar, o violinista ainda precisa tomar cuidado para não ser confundido com um bandido.

“É um alto risco eu sair com o instrumento em dias de operação, porque pode facilmente ser confundido com um fuzil. Um case em formato de retângulo que eu carrego nas costas, como mochila, ou na mão, como maleta, pode virar uma arma, porque tudo é um fuzil para quem mora na favela. Essa confusão vem de pessoas que são treinadas”, aponta o músico. Além de impactar a saúde psicológica do artista, os episódios de preconceito também afetam o desempenho profissional.

Certa vez, Gil se dirigia a uma apresentação na Sala Cecília Meireles, na Lapa, trajado a rigor, com roupa social e seu violino nas costas. Junto com ele, estava seu cunhado, um homem branco, que usava bermuda, chinelo e camisa. Ao passarem perto de um policial, o agente começou a gritar com o músico, enquanto apontava um fuzil na direção do violinista, que foi o único revistado da situação. “Foi um péssimo dia para mim. Estávamos nos preparando há bastante tempo, com dois ensaios por semana, para, no momento da apresentação, eu estar com o psicológico abalado e não conseguir dar tudo de mim.”

Além das barreiras que encontram na sociedade, os artistas negros e periféricos ainda precisam lidar com a desconfiança dos colegas de trabalho sobre suas competências. “Antes da pessoa ver o violinista, ela vê um negro na sua frente e ai já vem todos os preconceitos dela em cima de mim. Quando vem a informação de que eu vou estar ali prestando serviço, ou seja, fazendo a mesma função que ela, há uma dúvida sobre a minha capacidade”, conta Gil.

Situação semelhante é experimentada pelo violinista negro Rafael Almeida. “Por eu ter vindo de um projeto social, a Orquestra de Cordas da Grota, na comunidade da Grota, em Niterói, muitas vezes, algumas pessoas duvidavam que eu tocasse um instrumento clássico”, relata o músico, que revela que já chegou a se sentir um impostor por estar em um ambiente que não costuma ser frequentado pela sua classe social.

Rafael, no entanto, não pensa que a música clássica seja uma arte marcada pelo racismo. “Acho que o contexto histórico da música clássica nos faz acreditar nisso, pois, no passado, essa arte era ou muito cara ou somente para a elite. Embora essa situação ainda esteja sendo mudada, a música clássica já é bem mais acessível que no passado, graças a projetos sociais, concertos didáticos e até mesmo a plataformas de música.”

Além da dúvida sobre a competência dos artistas, os profissionais ainda enfrentam dificuldades para conseguir trabalho. No Rio de Janeiro, um músico clássico que queira fazer parte de grandes instituições têm apenas três opções de emprego: a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Petrobras Sinfônica e a Orquestra Sinfônica Municipal, do Theatro Municipal. No entanto, as vagas nesses espaços são quase inexistentes, conta Gilbert. “O mesmo músico ocupa o cargo nas três orquestras. Tem violinista que toca na Petrobras, na Sinfônica Brasileira e no Theatro Municipal. Então fica muito difícil ter acesso a esses lugares, que não têm concursos há muito tempo e acabam tendo caras escolhidas para compor aquilo”, relata Gil.

Na dança, o cenário não é diferente. “É você por você, muitas vezes sem conseguir trabalhar com aquilo, porque as oportunidades para bailarinos negros são muito pequenas e, mesmo quando tem grandes oportunidades, a remuneração de bailarinos no Brasil não é justa”, afirma Dandara. Apesar de todo o esforço envolvido, aqueles que conseguem superar as barreiras do mundo das artes​ clássicas, porém, não necessariamente são reconhecidos.

“A gente tem muitos talentos, muitas pessoas que se formaram em balé clássico e tentaram ingressar no mercado, mas tiveram suas carreiras enterradas, porque o sistema não é feito para nós, não é feito para que daqui a vinte anos as pessoas saibam quem eu sou, mas meu amigo branco talvez vocês saibam quem ele foi mesmo que ele não tenha feito metade do eu fiz”, destaca Gleidison.

Em sentido oposto a esse padrão, Gil Vilela teve sua trajetória reconhecida em um mini documentário exibido no Museu da História e da Cultura Afro-brasileira (MUNCAB), exibido na Gamboa, região Central do Rio, em janeiro deste ano. Além de ser uma homenagem ao músico, a produção é uma inspiração para jovens negros e periféricos que, assim como ele, encontram a felicidade trabalhando com as artes clássicas. “É muito importante pela questão da representatividade, para mostrar a essas pessoas que tem alguém que passou pelas mesmas dificuldades que elas e continuou no objetivo”, pontua Gil, que lembra: “As entrevistas de materiais que saem sobre mim têm sempre impactos positivo nesse pessoal, e eu fico muito feliz com esse retorno.”

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Por Rosamaria Santos – Fala! UFRJ 

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