A representação do íntimo feminino na arte de Polly Nor
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A representação do íntimo feminino na arte de Polly Nor

A representação do íntimo feminino na arte de Polly Nor

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Conheça a arte da ilustradora londrina que cativou milhares de mulheres através da representação do que elas têm em comum: seus demônios internos

O distanciamento social nos tempos de pandemia é essencial, porém, ele fez com que as pessoas se aproximassem de algo, muitas vezes, distante: elas mesmas. A necessidade de lidar com os próprios problemas e ser a própria companhia vem sendo angustiante para muitos “quarenteners”, e é exatamente essa angústia que a artista londrina de 30 anos, Polly Nor, representa – desde muito antes da pandemia – em suas expressivas ilustrações surrealistas.

Com o foco em experiências femininas, Polly Nor ilustra “mulheres e seus demônios”, como a própria artista diz na bio do seu perfil do Instagram. E as representações são fiéis e literais à descrição, de modo que suas obras são protagonizadas por mulheres e demônios que atuam como seres de vontade própria, em relações intimistas entre as duas personagens. 

Mulheres e seus demônios

Polly Nor
Babe you’re going to be fine – Polly Nor, novembro de 2015. | Ilustração: Polly Nor.
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Nor, cujas obras têm como temas centrais a identidade, sexualidade feminina e instabilidade emocional, afirma que baseia suas ilustrações em suas experiências de vida. Em entrevista para a revista americana Juxtapoz, em 2018, a artista diz que se sentia deslocada durante sua adolescência em Londres, por achar que todos estavam lidando bem com suas respectivas vidas, enquanto ela passava noites em claro em seu quarto, lidando com seus demônios.

Os demônios mencionados são diversos e podem assumir diferentes identidades. Nor faz questão de representá-los ora como seres malignos, ora como criaturas vulneráveis e familiares. Isso diz respeito à relação que as personagens criam com o subconsciente.

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Long days and short nights ♨️

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Eu desenho os demônios como parte do subconsciente das minhas personagens, uma manifestação de suas inseguranças, frustrações e estado emocional.

Polly Nor, para a Gurls Talk

Nor também afirma que a Internet teve um papel essencial em seu processo, uma vez que as redes sociais estão constantemente ditando padrões inalcançáveis para as mulheres. Em entrevista para a Gurls Talk, a projeção da perfeição e o modo como as pessoas se comportam on-line, escondendo suas inseguranças e ansiedades, são fatores que a artista diz se interessar, e é evidente que ela traz essa abordagem para o seu trabalho.

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A vivência na era digital

ilustrações Polly Nor.
That Gut Feeling – Polly Nor, maio de 2020. | Ilustração: Polly Nor.

Por outro lado, a Internet foi a plataforma em que Polly compartilhou sua arte e ganhou reconhecimento internacional. No momento, seu perfil no Instagram possui mais de 1 milhão de seguidores, os quais mantêm uma interação constante com a artista. Foi através desse contato com seus fãs que ela percebeu que aquela sensação de deslocamento que a ocorria durante a juventude era apenas ilusão. Ela, agora, percebe que milhares de pessoas, na maioria mulheres, se identificam com suas obras e, consequentemente, com os seus demônios internos.

Nos comentários das postagens da artista no Instagram, milhares de usuários dão diversos sentidos e interpretações para as obras. Dentre eles, estão muitas afirmações de como a pessoa se identificou e estava precisando ver aquilo. São comuns também frases de cooperação feminina, principalmente em obras que representam relacionamentos abusivos, e sororidade.

Uma das obras de maior destaque da artista traduz as fases de um relacionamento tóxico. A série de 39 ilustrações produz uma narrativa que diz respeito à libertação, ao autoconhecimento e, principalmente, sororidade. Nela, o demônio é como um parceiro amoroso e infiel da personagem. O nome da obra, Você não o conhece como eu o conheço, em tradução livre, é uma clara referência à frase dita pela mulher que está entrando em um relacionamento abusivo, quando alguma amiga tenta alertar.

A arte em tempo de pandemia

Em um projeto da revista inglesa Dazed, 35 artistas se uniram para criar pôsteres artísticos imaginando um futuro pós-pandemia. A ação tem como objetivo unir os artistas e o público, disseminando arte em tempos tão conturbados. Polly Nor está entre os 35 e, indo no sentido contrário das suas obras convencionais, a mensagem que ela passa é de calma.

Eu costumo desenhar para expressar raiva ou confusão, mas nesses tempos estranhos pareceu necessário criar algo inspirador.

Polly Nor
instagram Polly Nor
The Landscapes inside you – Polly Nor. | Ilustração: Polly Nor.

Junto à ilustração, Nor adicionou as palavras de uma das suas escritoras preferidas, Yrsa Daley-Ward, “existem paisagens dentro de você, se alastrando, verdes e completas”. A ilustradora destaca como a escritora consegue a acalmar e confortar com suas palavras.

Além desse projeto, Polly está trabalhando em um novo e até então misterioso para o próximo mês (junho). A artista já realizou três exposições de sucesso em sua terra natal e, além das ilustrações, ela vem trabalhando com diferentes materiais, como cerâmica e látex. Suas exposições contam com instalações interativas para que o público entre na experiência íntima de vivenciar as mulheres e seus demônios na pele.

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Por Elisa Rabelo – Fala! UFMG

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