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O Ustracismo de Bolsonaro

Por Daniel Fabra – Fala!MACK

 

As controvérsias de Brilhante Ustra, primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador na ditadura

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

 

Nem só de símbolos agradáveis vive a política. No Roda Viva da última semana, o candidato à presidência, Jair Bolsonaro, em entrevista, compartilhou o nome de seu livro de cabeceira: “A verdade sufocada”, de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Com o subtítulo “A história que a esquerda não quer que você conheça”, o livro traz a perspectiva dos militares na ditadura, diante de atentados e retaliações de grupos de esquerda.

Bolsonaro expôs sua admiração pelo militar pela primeira vez em 15 de outubro de 2015, data da morte de Ustra.

“Um herói que desde jovem esteve na linha de frente do combate à guerrilha em nosso país. Enfrentou maus brasileiros, verdadeiros doentes mentais, que treinados por Fidel Castro e financiados pela União Soviética, tentaram aqui implantar a ditadura do proletariado.” – Bolsonaro, na câmara dos Deputados

Em 2016, o canditado afirmou, na votação do Impeachment, que o coronel era o “pavor” de Dilma Rousseff. Em resposta, o conselho de Ética da Câmara, através do PV, instaurou um processo por quebra de decoro parlamentar, mas foi arquivado em novembro do mesmo ano.

 “Conheci e fui amigo do Ustra. Sou amigo da esposa dele, sou uma testemunha viva de toda essa história do que queriam fazer com nosso país, o que o PT fez com as doutrinações nas escolas. Sou exemplo vivo da história brasileira. O coronel recebeu a mais alta comenda do Exército, é um herói brasileiro. Se não concordam, paciência” Bolsonaro em discurso na sessão do conselho de Ética.

Personagem polêmico no regime militar, Ustra foi, em São Paulo, chefe do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), órgão de repressão política durante a ditadura.

“O dever? Era impedir que a luta armada vencesse e introduzisse o comunismo no Brasil, conforme eles estavam programados para fazer. Sim, esse era o nosso dever” – Ustra, em depoimento à comissão da verdade

Foto: Reprodução/TV Globo

O coronel ainda explica as possíveis razões que levaram presos políticos a denunciá-lo na Justiça

“Os presos tiveram vários motivos para dizer que foram torturados: para negar as confissões, por medo de represálias, com fins eleitoreiros e até visando indenizações”

A Verdade sufocante

Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro (Reprodução: Facebook)

De acordo com o livro “Brasil: Nunca Mais”, 502 pessoas foram torturadas sob o comando de Ustra no DOI. Atualmente, a comissão da verdade reconhece, ao menos, 45 mortes e desaparecimentos com conexão direta ao coronel.

Após o período ditatorial, as denúncias vieram à tona. Em 1985, A atriz Bete Mendes, em carta ao ministro do exército, Leônidas Pires, compartilhou suas indignações:

“Fui seqüestrada. presa e torturada nas dependências do DOI-Codi do II Exército, onde o major Brilhante Ustra (dr. Tibiriçá) comandava sessões de choque elétrico, pau-de-arara, ‘afogamento’, além do tradicional “amaciamento” na base dos ‘simples’ tapas, alternado com tortura psicológica. Tive sorte, reconheço, senhor ministro: depois de tudo, fui julgada e considerada inocente em todas as instâncias da Justiça Militar, que, por isso, me absolveu; e aqueles inocentes, como eu, cujos corpos eu vi, e que estão nas listas de desaparecidos?”

                   14 de agosto de 1985 (O Estado de S.Paulo)

Outra suposta vítima do militar, Amelinha Teles, relatou, ao programa Viva Maria, que passou por diversas humilhações no regime do coronel:

“Eu fui espancada por ele [Coronel Ustra] ainda no pátio do Doi-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”.

A ex-militante do PCdoB revela as suas experiências com a “Cadeira do dragão”: (instrumento de tortura utilizado na ditadura militar onde o indivíduo era colocado sentado e, com os pulsos amarrados, sofria choques com fios elétricos atados em diversas partes do corpo)

“Ele levou meus filhos para uma sala, onde eu me encontrava na cadeira do dragão, nua, vomitada, urinada, e ele leva meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos tinham 5 e 4 anos. Foi a pior tortura que eu passei”

Condenações e indenizações

2008 – O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou Ustra como responsável pelas torturas sofridas por Maria Amélia de Almeida Teles, César Augusto Teles e Criméia de Almeida, em 1972, no Doi-Codi.

2012 – Foi condenado a pagar indenização a parentes de do jornalista Luiz Eduardo Merlino, vítima da repressão.

2015 – O Ministério Público denunciou Ustra pela morte de Carlos Nicolau Danielli, sequestrado e torturado no Doi-Codi, em 1972.

Em outubro de 2015, aos 83 anos, Ustra morreu em decorrência de um câncer. No caso do coronel, a ausência de um cumprimento da pena se deve ao cumprmento da Lei da Anistia, promulgada em 1979. A lei, que prevê o retorno de exilados políticos e libertação de opositores presos, acabou anistiando todos os militares envolvidos com acusações de tortura e assassinato.

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