Resenha: 'Quarto de Despejo: Diário de uma favelada'
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Resenha: ‘Quarto de Despejo: Diário de uma favelada’

Resenha: ‘Quarto de Despejo: Diário de uma favelada’

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Foi em 1955, aos 41 anos, que a autora Carolina Maria de Jesus — munida de cadernos velhos, agulha e tinta — deu início ao manuscrito que viria a se tornar o livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. A obra, contendo 200 páginas e publicada originalmente em 1960, foi lançada em primeiro lugar pela Revista Cruzeiro e, anos mais tarde, pela Editora Ática, onde chega a sua 10ª edição. 

Maria (espero que, assim, ela me permitia chamá-la), nasceu em Minas Gerais, onde estudou até a segunda série do primário. Mais tarde, ela se mudou para São Paulo e se alocou na favela do Canindé, na zona norte às margens do Rio Tietê, principal cenário de seus relatos.

Na época, Carolina Maria, semianalfabeta, era catadora de papéis e outros materiais, função que exerceu durante a maior parte de sua vida para sustentar a si mesma e aos três filhos: Vera, João e José Carlos. Através de Quarto de Despejo, a autora conta suas experiências, frustrações, ideias e críticas sobre a vivência na favela junto às relações ali estabelecidas, enquanto mulher negra e mãe solteira. 

Quarto de Despejo: Diário de uma favelada
Livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. | Foto: Reprodução.

Resenha do livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada

Como uma biografia, o diário de Carolina Maria é tecido por uma linguagem simples que muito se assemelha à oralidade, com gírias e erros ortográficos que dão tom ainda mais sincero à obra. Aliás, a escrita é um dos pontos contundentes de Quarto de Despejo, grande parte dos acontecimentos é narrada com o período do dia que se segue. 

Apesar da modéstia na produção, o livro é perspicaz no conteúdo. As palavras soam de maneira estridente. É como se cada sentença emitisse um som inquietante e tivesse gosto de xarope, tornando a experiência difícil, porém, necessária. A realidade grita por entre as páginas. O diferencial é como a autora conta os fatos: parece que estamos em sua frente, tomando um copo de leite e comendo o pão adormecido que costumava comprar por seis cruzeiros, enquanto ela nos despeja verdades que não queremos escutar. Truque de gênio.

Genialidade que, a propósito, tem começo na elaboração da metáfora que dá nome à obra. Carolina Maria pensou na cidade de São Paulo como uma grande casa: o Palácio é a sala de visita, a Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. A favela é entendida, então, como um quarto de despejo, no qual ficam os objetos fora de uso que vão para o lixo ou são queimados. É desse modo que a autora se sente: um farrapo que fora deixado de lado pela sociedade e jogado no inferno. Assim, sem eufemismos, a premissa do Diário de uma favelada é subjetivamente feita. Cabe aqui, então, lembrar que em momento algum ela dita o tema da obra. Você sabe!

Em seus relatos, além dos filhos, outros personagens são recorrentes: os vizinhos do barraco 15×15 em que mora, principalmente aqueles com quem possui desavenças. Os moradores da favela do Canindé são descritos de modo bruto, constantemente remetidos a animais por suas ações quase primitivas. Não é difícil encontrá-los rolando no chão em brigas ocasionadas por fatos ordinários ou mantendo relações sexuais para todo mundo ver.

Durante a leitura é persistente perceber que tais características aproximam Quarto de Despejo de outro livro: O Cortiço, de Aluísio Azevedo. O romance naturalista realista encontra, aqui, paralelo por também transformar a maioria dos personagens em bestas que agem por impulso.

E se estamos falando de personagens, não se pode deixar de lado um que é, praticamente, o elo que une todos os “núcleos”: a Fome. Dizer que a Fome é apenas um personagem abstrato seria pura tolice. Em Quarto de Despejo ela toma forma — mesmo que ironicamente impalpável — de um carrasco sanguinário. Tal carrasco corrói, gera inimizades, destrói laços, provoca suicídios e assassinatos.

Carolina Maria de Jesus não hesitou em transcrever uma dura realidade do Brasil do modo que deve ser feito. Não “colocou açúcar” naquilo que, muitas vezes, é suavizado para não chocar. Precisamos ficar chocados, pois só assim nos questionamos. Aliás, Quarto de Despejo proporciona isso: reflexão. Somos levados a pensar nos maniqueísmos cotidianos e na falha deles. Acima de tudo, essa é uma obra que mais do que livro de cabeceira, deveria ser bibliografia recomendada em grades curriculares da educação.

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Por Jarleson Lima – Fala! Centro Universitário Fametro – AM

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