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Resenha: Infiltrado na Klan

Resenha: Infiltrado na Klan

Por Giovanna Stael – Jornalismo Jr. USP

 

Os sons da sala de cinema oscilavam entre risadas e um silêncio ensurdecedor do público que, no fim do filme, mal respirava. Num equilíbrio perfeito entre a diversão carregada pelo entretenimento do audiovisual, e o poder e dever do cinema em trazer discussões sobre temas importantes e às vezes nada agradáveis, Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) consegue mexer com o público.

Spike Lee, diretor de Malcolm X (1992) e conhecido por abordar o racismo em suas produções, nos conta uma história já muito conhecida: a ideologia da supremacia branca nos Estados Unidos. A temática é abordada a partir da história real de Ron Stallworth (John David Washington), um dos pouquíssimos policiais negros na corporação norte-americana em meados dos anos 1970, que consegue se infiltrar na Ku Klux Klan através de telefonemas. Com muita coragem, Ron consegue manter contato até com David Duke, líder da KKK, interpretado no filme por Topher Grace que está muito bem no papel. Com a ajuda de seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver), um policial branco judeu que comparece às reuniões presenciais da organização, a dupla conseguiu evitar diversos crimes de ódio e expor supremacistas brancos nas forças armadas.

A trilha sonora, recheada de R&B dos anos setenta, que toca o coração do espectador com suas melodias, e a direção de arte caprichada contribuem para o sucesso técnico do longa, que não se sustenta apenas na interessante trama, mas também no roteiro, na fotografia e no elenco de peso. Em um ponto deixa a desejar: apesar de sentirmos simpatia pelos personagens, falta um desenvolvimento mais profundo da personalidade dos que vemos na tela e não conseguimos estabelecer uma forte conexão emocional com eles. Um exemplo disso é a personagem Patrice Dumas (Laura Harrier), líder do centro acadêmico negro da faculdade, e que com certeza poderia ter mais desenvolvimento na trama.

Outro aspecto que pode incomodar no longa é a forma extremamente descontraída que aborda a temática tão pesada e importante. Por um lado, essa narrativa aproxima uma parcela maior de pessoas, democratiza e populariza a discussão, tornando-a mais acessível. Mas analisando por outra perspectiva, o excesso de comicidade pode cansar o público, além de afastar o significado memorável que o filme poderia ter dado à relevância da trama.

O grande trunfo do filme é a conexão que faz com a ascensão atual das mesmas ideias absurdas. Presentes, por exemplo, no discurso de líderes como Trump, que acabam dando força à extrema-direita, e legitima os ideais de supremacia racial. Essa relação com os tempos atuais traz reflexões sobre a história que estamos vivendo hoje, regida pela pós-verdade, em que os fatos importam menos que as crenças pessoais. Em síntese, o filme nos escancara uma triste realidade: o quão pouco progredimos mesmo depois de décadas de luta.

Infiltrado na Klan estreou dia 22 de novembro no Brasil.

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