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Padaria na Baixada Fluminense abre “biblioteca” gratuita

Padaria na Baixada Fluminense abre “biblioteca” gratuita


“Um país se faz com homens e livros”. Essa é a frase estampada no interior da padaria Skill, localizada na Vila Tiradentes, em São João de Meriti.

A citação de Monteiro Lobato compõe o banner que divulga o projeto de doação de livros “A Troca do Saber”, implementado pela dona da padaria, Edilene Boechat.

padaria com biblioteca
Edilene Boechat, dona da padaria Skill e criadora do projeto “A Troca do Saber”. | Foto: Reprodução.

Segundo ela, a Baixada Fluminense carece de muitos serviços, inclusive de programas de incentivo à leitura. Pensando nisso, ela disponibilizou algumas prateleiras no interior da loja, que funcionam como uma biblioteca aberta e gratuita. 

O projeto funciona de maneira bem simples, qualquer pessoa pode participar e não é necessário se cadastrar ou pagar qualquer taxa para retirar os exemplares. Dona Lene, como prefere ser chamada, busca estimular os clientes a levarem os livros e também trazerem outros.

Nas prateleiras do interior da padaria e na caixa que fica na porta da loja pode-se encontrar títulos como “Lolita”, do escritor russo Vladimir Nabokov, romances de Agatha Christie, clássicos de José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, além de livros infantis, didáticos e quadrinhos.

“Aqui [na Baixada] a gente tem que inserir cultura de alguma forma. Muitas pessoas aqui não têm acesso a esse tipo de coisa, então a ideia é trazer isso para dentro dos nossos espaços”.

disse Edilene Boechat.
padaria com biblioteca
Na estante de livros da “biblioteca” é possível encontrar títulos de autores famosos. | Foto: Reprodução.

Edilene conta que sempre buscou manter o hábito de leitura, e já chegou a ler de 2 a 3 livros por semana quando trabalhava no Centro e tinha tempo de ler na condução. Agora, com a padaria, ela quase não tem tempo de sobra, mas tenta ler, pelo menos, um livro a cada 15 dias. 

Mas dona Edilene é uma exceção. A última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, em 2015, mostra que o brasileiro lê, em média, 2,43 livros por ano.

Essa mesma pesquisa mostra que apenas um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Esse dado sugere, por exemplo, que apesar de um aumento no número de pessoas alfabetizadas, não houve um crescimento qualitativo das práticas de leitura.

O quadro se mostra ainda mais grave em lugares que não oferecem espaços para o desenvolvimento da leitura. Esse é o caso de São João de Meriti, como explicou Daniela, cliente da padaria Skill.

“Eu não tenho a leitura como rotina, mas sempre tento buscar algo para ler. A gente tem muita dificuldade de ter acesso a essas coisas. A única biblioteca que tinha aqui por perto era no CIEP [Centro Integrado de Educação Pública] na Caixa-D’água [morro da Caixa-D’água, na Vila Tiradentes] e ela não funciona mais. Antigamente eu até pegava livros lá, mas como fechou, eu não tenho mais onde procurar. E se tem algum lugar eu não fico sabendo, ninguém divulga. Assim fica difícil porque qualquer coisa que você quiser, tem que ir lá para baixo, [em referência ao Centro e Zona Sul, partes mais desenvolvidas da cidade do Rio de Janeiro].”

disse a cliente.

Uma amiga que estava com Daniela completou, dizendo: “Aqui não tem nada, nem uma praça decente, quem dirá lugar para livros”.

Mesmo enfrentando dificuldades no acesso a programas culturais, iniciativas como a da Dona Edilene mostram que ainda há esperança para que os moradores da Baixada possam superar essa difícil realidade. É o que contou Dona Maria Conceição, de 70 anos, enquanto folheava um exemplar de “Dom Quixote”: 

“Aqui na Baixada a gente tem falta de muitas coisas, principalmente nos bairros afastados. Tudo a gente tem que buscar lá fora, inclusive esses projetos culturais. E com esse medo de violência, eu não saio mais para buscar. Por isso eu gosto dessa biblioteca que eles montaram aqui. Sempre que eu passo e vejo livros diferentes eu pego. Antigamente era só uma prateleira lá dentro, agora aumentou e tem aqui fora também. Eu acho interessante porque nem sempre a gente encontra livros antigos. Esse aqui, por exemplo, do Dom Quixote. Eu conheço a história por filme e de ouvir falar. Mas nunca li, e agora estou levando”.

Segundo o mesmo estudo realizado pelo Instituto Pró-Livro, a principal razão apresentada como um impedimento à leitura é a falta de tempo. Essa questão é relevante principalmente entre os adultos, que passam a maior parte do dia trabalhando, e se agrava quando a pessoa trabalha longe de casa.

É o caso da maioria dos moradores da Baixada, como o Glauber, de 31 anos. Ele trabalha como técnico em uma empresa de internet e o tempo que passa em casa é exclusivamente para descanso. Glauber contou que reconhece a importância da leitura, mas não se lembra quando foi a última vez que leu um livro.

Seu sobrinho, de 14 anos, que estava conhecendo o projeto da padaria Skill pela primeira vez, disse que gosta de ler, mas não tem acesso a muitos livros. Segundo ele, a escola pública onde estuda, também em São João de Meriti, não oferece muita variedade. “Os livros que eu leio são os que minha mãe compra, às vezes, quando vem do trabalho”, disse ele.

O hábito de leitura é uma construção que vem da infância e é geralmente influenciado por outras pessoas, mais frequentemente pelos pais. A pesquisa realizada em 2015 mostrou que essa influência tem impacto no fato do indivíduo ser ou não leitor.

É o que pontuou Milena, de 28 anos, enquanto tomava café da manhã na padaria Skill: “Eu não tenho lido. A minha rotina é bem pesada, eu tenho um filho pequeno, então não tenho tempo. Mas eu vou tentar criar esse hábito nele para ser um exemplo. Eu não tive isso quando era pequena, esse incentivo. Vou tentar fazer diferente”.

Já Tamires, de 31 anos, sempre foi incentivada a ler pela mãe, que é professora. Mas apesar de ter tido esse apoio em casa, ela afirma que o incentivo por parte do poder público é praticamente inexistente.

“Sou nascida e criada em São João e tudo que eu tive que fazer em termos de estrutura, de ter uma base para produzir algo foi fora daqui. Eu não conhecia esse projeto da padaria Skill, mas achei muito interessante. Se as escolas dessem esse incentivo em termos de dedicação e educação, muitas pessoas poderiam ter uma vida diferente. Não haveria tanta gente nos presídios”.

disse ela.

Tamires acabou de se formar em Direito e participa de um projeto de remição de pena pela leitura em algumas unidades prisionais. Segundo o site da OAB/RJ, cada obra lida possibilita remição de 4 dias de pena, com o limite de 12 livros por ano.

A Subsecretaria de Inserção Social da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) escolhe os títulos, que vão desde Machado de Assis e Ariano Suassuna a George Orwell e Albert Camus. 

“Eu participo desse projeto nas carceragens do Rio de Janeiro e lá pedimos doação de livros. Alguns presídios dão oportunidade aos presos de lerem esses livros e produzirem resumos sobre as obras. Isso diminui o tempo de pena. Antes eu falei que os livros podem evitar que as pessoas entrem num sistema prisional e lá [no projeto de remição de pena] a gente dá os livros para que essas pessoas sejam ressocializadas. A maioria das unidades onde atuamos são presídios masculinos do complexo de Bangu. A nossa esperança é que as pessoas saiam de lá seres humanos melhores”.

disse Tamires.

O impacto do hábito de leitura na vida das pessoas é incalculável. O fato é que a leitura é base fundamental para qualquer projeto educativo, e não tem como pensar no futuro ou em desenvolvimento sem projetos concretos para a Educação.

Nesse sentido, iniciativas como a da Skill Panificação são muito importantes em lugares onde o poder público falha. Dona Edilene, idealizadora do projeto, espera que esse pequeno gesto colocado em prática na sua padaria possa mudar a vida de algumas pessoas.

Enquanto apoiava os braços no balcão, ao lado da frase de Monteiro Lobato na parede, ela concluiu: “Meu desejo é que as pessoas leiam muitos livros. Eu sempre faço questão que as crianças levem. O pouquinho que eu consigo já é muito”.

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Por Camille Lichotti – Fala! UFRJ

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