Chimamanda Ngozi Adichie: A necessidade de difusão da literatura africana
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Chimamanda Ngozi Adichie: A necessidade de difusão da literatura africana

Chimamanda Ngozi Adichie: A necessidade de difusão da literatura africana

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A retomada da valorização da leitura, principalmente por grupos mais jovens que nasceram em um mundo digital, é um movimento defendido por muitos, mas a campanha a favor de um número maior de leitores por prazer peca em diversidade.

A maioria da literatura consumida no Brasil segue o eixo América-Europa, existindo pouquíssimas obras africanas e asiáticas publicadas e populares no país. No caso da cultura asiática, mesmo que com elementos diversos, ela vem sendo difundida mais facilmente no território nacional por conta da popularização do Kpop – gênero musical sul-coreano. Mas e a cultura africana, como fica?

Apesar de ser um país com grande parcela da população sendo afrodescendente, o Brasil não tem como praxe o consumo de conteúdo literário vindo da África em si, havendo pouquíssimos livros africanos publicados em território brasileiro. Tal fato demonstra mais uma vez as raízes do racismo estrutural nessa nação. 

Essa carência de interesse da população em material advindo do continente berço da humanidade acarreta que muitos não conheçam figuras tão importantes do cenário atual mundial, como a autora Chimamanda Ngozi Adichie.

Foto da autora Chimamanda
Chimamanda Ngozi Adichie. | Foto: Mamadi Doumbouya/Vulture.                                 

Chimamanda é uma autora nigeriana que se destaca na contemporaneidade pelos seus livros de escrita muito bem desenvolvida e histórias que não só trazem o cenário histórico-cultural nigeriano para as páginas como também traduz o cotidiano de seu povo em histórias magníficas sobre crescimento pessoal, amor e a luta contra preconceitos. 

A autora desenvolve muitos debates, sejam eles explícitos ou implícitos, sobre as raízes coloniais da Nigéria, o preconceito em países como Estados Unidos e Inglaterra contra pessoas africanas, entre outros assuntos, seja em seus livros, ou seja em discursos, como o seu famoso Ted Talk sobre o perigo de uma única história.

Foto da autora, Chimamanda, discursando em um TED TALK
Chimamanda Ngozi Adichie. | Foto: Divulgação Ted Talk.

O que a torna tão especial é sua desenvoltura para desenvolver desde temas banais a estruturas complexas do cenário mundial atual, geralmente interligando esses dois assuntos e criando argumentações e discursos extremamente motivadores, como é mostrado em seu segundo Ted Talk, em que fala sobre feminismo, demonstrando  a necessidade de toda a humanidade apoiar o movimento. 

Seus livros são uma ótima forma de sair da bolha ocidental, em que vive a comunidade literária brasileira atual, já que desenvolve histórias sobre a vida cotidiana da classe média nigeriana, mostrando sua história, tradições e observando a população não como exóticos – que é como muitos de nós observamos os países africanos -, mas como uma sociedade igual a todas as outras.

Melhores livros da autora para se aprofundar

1. Americanah

Capa do livro "Americanah" em que há a ilustração da sombra de uma mulher de cabelo crespo
Americanah. | Foto: Reprodução.

Americanah conta a história de amor entre Ifemelu e Obinze, um casal, inicialmente, adolescente separados pela vida. Os jovens passam por muitas descobertas e preconceitos ao longo dos anos e possuem seus caminhos cruzados novamente.

Essa história perpassa por 3 continentes diferentes em momentos diferentes e mostra a cultura nigeriana, os preconceitos contra pessoas africanas em outros países e muitos dramas sociais existentes em todo o mundo, como racismo e machismo.

A história não tem medo de trazer temas pesados à tona, mas desenvolve relações de uma maneira única, com relacionamentos e sentimentos tratados de maneira muito realista, porém nem um pouco menos comoventes.

A história de Ifemelu e Obinze vale muito à pena ser lida, seja pelo romance, os dramas, as conquistas ou a escrita da autora, todos os aspectos desse livro são muito bem desenvolvidos e maravilhosos.

2. Meio Sol Amarelo

Capa do livro "Meio Sol Amarelo" em que há a ilustração da sombra de uma mulher com cabelo crespo olhando para cima para um objeto que representa um sol
Meio Sol Amarelo. | Foto: Reprodução.

Esse livro pode ser considerado um romance histórico que relata sobre o período da Guerra do Biafra, quando o grupo étnico Igbo se separou do resto da Nigéria, após o massacre de diversas pessoas da etnia pelos Hauçás, outro grupo étnico presente na Nigéria, depois que os mesmos tomaram o poder em 1966.

Porém, a história não fica apenas focada nesse conflito, desenvolvendo romances e dramas psicológicos entre os indivíduos que devem continuar suas vidas enquanto todo o conflito ocorre.

A história se passa por diversos pontos de vista, desenvolvendo um enredo muito pesado, com cenas chocantes de violência e estupro, mas com personagens cativantes e que lutam a todo tempo pelos seus ideais durante uma guerra brutal.

Vale muito à pena a leitura, não só por tratar sobre uma guerra pouco comentada no ocidente, mas também por construir uma história que nos faz repensar muito sobre nós e como não somos gratos pelos nossos privilégios.

3. Hibisco Roxo

Capa do livro "Hibisco Roxo" que mostra a ilustração da sombra de uma garota com o cabelo enrolado em um turbante
Hibisco Roxo. | Foto: Reprodução.

Primeiro livro da autora, Hibisco Roxo conta a história de Kambili, uma adolescente que vive em uma família altamente religiosa e rica da Nigéria, em que o pai cultiva uma vida “branca” para sua família, tendo pavor da cultura “pagã” de seu povo. O enredo se desenrola quando, ao passar uma temporada na casa de sua tia, ela se apaixona por um padre.

A história critica as raízes coloniais que é muito cultivada pela elite nigeriana, de valorização do que é europeu e branco, relata as questões políticas e ditatoriais vividas na Nigéria do período, além de trazer o machismo para a conversa.

Hibisco Roxo é uma história de luta pelos direitos, pela fuga de todas as opressões existentes nos olhos de uma jovem adolescente assustada. É uma leitura que traz poesia para o amadurecimento e para a resistência.

Por fim, fica claro que é necessária a descoberta de novas histórias sobre a África, para que, como diz Chimamanda, não haja uma única história sobre um território tão diverso e rico.

Conheça autores africanos que exploram e exploraram a linguagem, seja os mais clássicos como Mia Couto, ou autores da atualidade como Scholastique Mukasonga, o importante é sair desse eixo tão comum em que vivemos e dar mais voz para a literatura africana no mercado editorial brasileiro.

É preciso mais visibilidade porque a  desconstrução vem da convivência com a diversidade e o conhecimento da cultura africana, através da leitura, consolida, e muito, nesse processo. Vamos fazer nossa parte.

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Por Cynara Maíra – Fala! UFPE

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