Brasilidade: entenda o significado do conceito com exemplos
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Brasilidade: entenda o significado do conceito com exemplos

Brasilidade: entenda o significado do conceito com exemplos

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Segundo o dicionário, brasilidade significa caráter ou qualidade peculiar do que ou de quem é brasileiro. O Brasil é composto pelas mais diversas formas de expressão, representadas por diferentes grupos culturais, que manifestam suas identidades através de diversas ações, como  arte, dança, ritos, músicas, culinária, símbolos e livros. Com um território de dimensões continentais, o país é riquíssimo em sua diversidade.

Essa realidade não poderia ser diferente, já que com um território de dimensões continentais, o país é riquíssimo em sua diversidade. Dessa maneira, todo esse conjunto identitário da população é chamado de brasilidades, formadas a partir da memória e preservação do conhecimento. 

Nossa brasilidade é formada ainda por elementos não só daqui, mas também por aqueles que vieram com os nativos estrangeiros e revelam bastante sobre a história do nosso País. Podemos dizer que temos vários países dentro de um só país, várias culturas que se misturam e formam uma brasilidade rica e diversa.

Neste artigo, vamos apresentar como foi a construção da identidade brasileira e como os elementos e os artistas nacionais ajudam a manter essa brasilidade viva. Confira.

Brasilidade
Entenda o que é brasilidade. | Foto: reprodução

Um pouco da construção da identidade brasileira

A identidade brasileira foi decorrente de um processo de construção histórica, como em diversos outros países. Apesar de ter se iniciado após a Independência, em 1822, o processo de constituição da identidade nacional ganhou um impulso maior após a década de 1930, quando Getúlio Vargas chegou ao poder. A partir disso, pôde-se perceber que a construção da identidade, para além de um processo cultural, era também um processo político.

Os esforços para se constituir a identidade brasileira, que também é chamada de brasilidade, estão ligados à necessidade de uma coesão social que acompanhe a existência de um Estado que administra todo o território nacional. Dessa forma, a manutenção de uma máquina administrativa comum a todo o território nacional foi um primeiro passo na construção da identidade.

Contribuiu ainda para a existência da identidade nacional o fato de a língua portuguesa ser comum a todo o território, apesar de suas particularidades regionais. A língua seria então um elemento no conjunto de elementos culturais comuns que são constitutivos da cultura nacional.

Anos depois, no âmbito da Literatura, o surgimento do Romantismo buscou também contribuir com a construção dessa identidade. As obras de José de Alencar foram um exemplo de aliar a imagem da nação brasileira às suas belezas naturais, como também a mitificação do indígena como componente principal da nação brasileira. Esse trabalho literário e cultural buscava criar uma interpretação genuinamente brasileira, afastada das influências estrangeiras.

Um esforço nacional estatal para a difusão de uma cultura brasileira comum iria se fortalecer após a Revolução de 1930. A chegada de Getúlio Vargas ao poder representou um novo momento de centralização política, auxiliado pela criação de instituições que pretendiam uniformizar práticas administrativas, como o Ministério do Trabalho e a política de oferecimento de uma educação básica comum. 

Vargas utilizou também os novos meios de comunicação, principalmente o rádio, para difundir essa cultura nacional uniformizada. Passaram a ganhar contornos de representação cultural nacional o samba, o futebol e pratos culinários. No exterior, existiu também uma tentativa de criar uma imagem da cultura nacional, da qual Carmem Miranda é a principal expressão.

Brasilidade na decoração

O estilo conhecido por “brasilidade” é bastante celebrado e está sempre em alta entre arquitetos e decoradores. Os aspectos desse estilo se tornaram ainda mais interessantes e atrativos para as pessoas diante do momento de pandemia e isolamento social que o mundo enfrentou e ainda segue lidando com seus resquícios. 

Baseada em aspectos da cultura nacional, essa linha trabalha com formas, tons e outros aspectos que remetem, sobretudo, ao conforto, mas também à natureza e à simplicidade. É fato que as pessoas, antes ou depois da pandemia, buscam o conforto, que está ligado principalmente a texturas, por exemplo. 

O conceito de brasilidade na decoração é amplo e vai desde as matérias primas e as texturas, que podem remeter à areia, terra, barro, argila, cerâmica e a outros aspectos associados à arte e ao artesanato brasileiro, até a maneira de enxergar a dinâmica do lar. 

Outro ponto é a maneira informal e alegre de o brasileiro se relacionar remete, quando se pensa em arquitetura, ao uso da varanda e de espaços de convívio. Esses espaços têm a ver, também, em alguma medida, com o contato com a natureza.

É interessante destacar que adotar a brasilidade na forma de pensar um espaço não significa, necessariamente, estar atrelado a matérias-primas como a madeira. Apesar de ser valorizada e os profissionais brasileiros do setor possuírem enormes expertise e criatividade em seu uso, é possível utilizar também, de materiais mais contemporâneos, mas não menos brasileiros, para pensar esse estilo. 

Brasilidade na Literatura: 10 obras sobre a cultura brasileira

Uma das melhores maneiras de compreender a cultura de um povo é se dedicando ao conhecimento de suas obras, como os livros. Algumas dessas obras são competentes registros das características únicas de suas épocas, trazendo olhares privilegiados sobre o que pensava a sociedade e como ela agia.

Separamos uma lista com 10 obras literárias que retratam com riqueza a cultura brasileira. Confira a seguir. 

Obras brasileiras
Obras literárias são elementos da brasilidade. | Foto: Reprodução

1) O Cortiço – Aluísio de Azevedo, um livro que traz a brasilidade

O grande protagonista de “O Cortiço” é ele próprio, o local onde se agrega toda a série de personagens que compõem a narrativa. Isto é, tendo como cenário uma habitação coletiva, o romance difunde as teses naturalistas, que explicam o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico. 

O autor Aluísio de Azevedo faz um retrato fiel de quem vive à margem da sociedade, geralmente esquecido pelos grandes romances, ao mesmo tempo em que oferece um olhar particular sobre as curiosidades e obsessões de brasileiros comuns da época.

2) Dom Casmurro – Machado de Assis

Publicado pela primeira vez em 1899, “Dom Casmurro” é uma das grandes obras de Machado de Assis e confirma o olhar certeiro e crítico que o autor estendia sobre toda a sociedade brasileira. Também a temática do ciúme, abordada com brilhantismo nesse livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira: Capitu.

Dessa forma, Dom Casmurro mostra os limites frágeis da condição humana a partir da sociedade brasileira, mostrando como os conflitos particulares de personagens genuinamente brasileiros podem conduzir toda uma narrativa. Seu retrato da elite patriarcal serve de registro sobre como era esta parcela da sociedade na época.

3) Macunaíma – Mário de Andrade

“Macunaíma”, de Mário de Andrade, é considerada a maior obra do Modernismo. Publicado, pela primeira vez, em 1928, o livro Conta a história de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, oferecendo uma verdadeira radiografia da cultura brasileira em sua história.

Na trajetória do herói, elementos da cultura indígena e afro-brasileira são mostrados ao leitor. Assim,a obra se configura em uma narrativa nacionalista, mas de caráter crítico, já que os personagens são apresentados sem nenhuma idealização. Além disso, a língua portuguesa é mostrada em sua rica variedade.

4) Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

O romance “Grande Sertão: Veredas” é considerado uma das mais significativas obras da literatura brasileira publicada em 1956. Guimarães Rosa fundiu nesse romance elementos do experimentalismo linguístico da primeira fase do modernismo e a temática regionalista da segunda fase do movimento, para criar uma obra única e inovadora. 

Além de retratar uma paisagem tipicamente brasileira, o sertão mineiro, também faz uso de uma linguagem característica, com neologismos e invenções que somente fazem sentido em seu universo particular.

5) ) Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto

“Triste Fim de Policarpo Quaresma” é um romance do pré-modernismo brasileiro e considerado por alguns o principal representante desse movimento. Policarpo Quaresma é um dos personagens mais importantes da literatura e certamente um dos mais autênticos. O autor usa o protagonista para mostrar um momento de transição em relação ao sentimento nacionalista: ele começa a trama como defensor nacional para depois descobrir que a vida do trabalhador brasileiro não é tão boa assim.

6) O Guarani – José de Alencar

O autor José de Alencar era um indianista, entusiasta da mais pura forma de registro da cultura e nacionalidade. Afinal, não existe nenhuma sociedade mais legitimamente brasileira do que a indígena. Por isso, em “O Guarani” ele decide contar sobre o amor entre o índio Peri e a moça branca. 

O romance tem sua ação desenvolvida na primeira metade do século XVII, iniciando-se no ano de 1604. A história serve de ponto de partida para um retrato autêntico sobre os conflitos que ocorrem quando estes mundos colidem.

7) Navalha na Carne – Plínio Marcos

“A Navalha na Carne”, principal criação de Plínio Marcos, foi concebida originalmente como uma peça teatral. Seu sucesso foi quase que imediato. O sucesso do espetáculo chamou a atenção dos censores da ditadura militar.

Os palavrões, cenas de violência doméstica e também o retrato de uma realidade crua do Brasil protagonizada por personagens marginalizados – uma prostituta, seu cafetão e um homossexual – não agradou os militares. Como consequência, a exibição do espetáculo foi proibida pela censura. 

Para a história criada por Plínio Marcos não ser esquecida pelo público ou ficar perdida nas gavetas dos dramaturgos, a alternativa encontrada foi transformá-la em livro.

8) Os Sermões – Padre Antônio Vieira

“Os Sermões” é uma coletânea dos sermões mais célebres do Padre Antônio Vieira (1608-1697). Durante o período colonial brasileiro, os sermões religiosos eram autênticos canais de comunicação para a sociedade, algo bem próximo de veículos de massa. Portanto, uma leitura dos Sermões de Padre Antônio Vieira oferece um retrato precioso sobre como era a sociedade brasileira na época, suas aspirações e maneiras de encarar a própria vida.

9) Inocência – Visconde de Taunay

O livro “Inocência”, publicado em 1872, de Visconde de Taunay é um romance construído a partir de impressões e lembranças da realidade natural e sociocultural do sertão mato-grossense. Além disso, analisa os valores comportamentais do sertanejo, fazendo com que esta obra, mesmo se tratando de uma história sentimental, apresente um “toque” naturalista, um realismo descritivo e um tom documental. 

O autor foi um dos principais nomes do chamado regionalismo romântico, que trazia retratos fiéis de costumes locais para tornar suas obras o mais autênticas possível. É a história de um farmacêutico que anda pelo sertão e acaba se apaixonando pela filha de um sertanejo cruel. Possui um final emblemático que é considerado inovador por investir no trágico, enquanto outros registros eram famosos pelo otimismo.

10) Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato

“Reinações de Narizinho” é um livro de fantasia e infantil de autoria do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Publicado em 1931, é o livro que serve de propulsor à série que seria protagonizada no Sítio do Picapau Amarelo, trazendo personagens como Narizinho, Pedrinho, a boneca Emília, Dona Benta e vários outros. 

Considerado um clássico da literatura infantil nacional, proporciona a leitores de todas as idades uma viagem por um mundo mágico que tem tudo a ver com as características do Brasil.

Brasilidade no meio artístico: artistas brasileiros importantes para a cultura do país

Grandes nomes na música, cinema, literatura, dramaturgia e artes plásticas. Algumas destas personalidades brasileiras ganharam reconhecimento internacional e elevaram o nome do País no exterior. Conheça 4 dos nomes mais importantes em diferentes segmentos culturais.

Brasilidade
Artistas que levaram o Brasil para o mundo. | Foto: Reprodução

Tarsila do Amaral, uma artista que trouxe brasilidade

Tarsila de Aguiar do Amaral, internacionalmente conhecida como Tarsila do Amaral ou simplesmente Tarsila, é considerada uma das principais artistas modernistas da América Latina, descrita como “a pintora brasileira que melhor atingiu as aspirações brasileiras de expressão nacionalista em um estilo moderno.” 

Nascida em 1886, Tarsila foi um dos pilares do Modernismo, ao lado dos escritores Mário e Oswald de Andrade. Pintora talentosa, precisou enfrentar o empedernido machismo da sociedade brasileira para mostrar seu valor. 

Sua primeira fase artística foi o “Pau Brasil”, onde se especializou em retratar as cores fortes e vivas da natureza. Sua grande obra é o quadro Abaporu, que inaugurou o movimento antropofágico, idealizado por Oswald de Andrade. Morreu em São Paulo, em 1973, como uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos.

Cartola

Um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, Angenor de Oliveira, o Cartola, é o samba em pessoa. Foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Sambista de categoria incomparável, se consagrou como compositor de músicas belas e ritmadas, aliadas a letras floreadas. 

Suas primeiras composições ganharam a voz de grandes intérpretes já na década de 1930. Após anos de ostracismo, voltou a gravar programas de rádio e compor novos sambas. A partir de 1974 gravou seus primeiros discos solo, que revelaram a uma nova geração canções como “O Mundo é Um Moinho”, “As Rosas Não Falam”, e “Cordas de Aço”. Morreu em 1980, no mesmo Rio de Janeiro onde havia nascido 72 anos antes.

Cazuza

Transformar o rock em poesia, o tédio em melodia. Essa foi a missão artística de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. Nascido no Rio de Janeiro em 1958, criou a banda Barão Vermelho, com o guitarrista Roberto Frejat , no início dos anos 1980. São deles canções como “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço” e “Maior Abandonado”. 

Em carreira solo, emplacou sucessos como “Exagerado” e “Codinome Beija-Flor”. Portador do vírus HIV, causador da AIDS, assumiu sua condição de soropositivo, ao mesmo tempo que suas canções ganharam teor mais político, como em “Brasil”, “Ideologia” e “Burguesia”. Ele morreu em 1990 no Rio de Janeiro.

Jorge Amado e sua importância para a brasilidade

Um dos autores brasileiros mais traduzidos e publicados em todo o mundo, vencedor de vários prêmios internacionais e cotado para receber o Nobel de Literatura: este foi Jorge Leal Amado de Faria. Nascido em Itabuna (BA), em 1912, retratou com um talento ímpar os tipos humanos que povoam a cidade de Salvador, o Recôncavo e a região cacaueira. Ele morreu em 2001 em Salvador.

Jorge Amado é considerado um representante da segunda fase do Modernismo no Brasil, voltada aos romances regionalistas. No entanto, sua obra é dividida pelos críticos literários em:

  • Romances da Bahia ou proletários: retratam a vida na cidade de Salvador, como é o caso de Suor, O país do Carnaval e Capitães da areia.
  • Romances ligados ao ciclo do cacau: correspondem aos livros Cacau e Terras do sem fim.
  • Crônicas de costumes: começa com Jubiabá e Mar Morto e estende-se por Gabriela, cravo e canela.

Podemos afirmar, portanto, que diversos elementos, obras literárias e musicais, questões históricas e sociais, recursos da natureza e os próprios artistas brasileiros, são responsáveis por criar e manter a brasilidade viva e perpetuar a cultura do nosso País. 

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Maria Eduarda Viera – Fala Universidade Federal Fluminense

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