As relações entre Brasil e China no combate ao coronavírus
Menu & Busca
As relações entre Brasil e China no combate ao coronavírus

As relações entre Brasil e China no combate ao coronavírus

Home > Lifestyle > Saúde > As relações entre Brasil e China no combate ao coronavírus

No combate ao coronavírus, Brasil e China podem estabelecer importantes relações para atenuar a pandemia. Entretanto, para isso, o governo federal deve manter a diplomacia com o país e, mais do que isso, entender seu histórico e seu crescimento.

O crescimento econômico da China 

Se, no início da década de 50, alguém dissesse que a China ocuparia o posto de segunda maior economia do mundo, somente atrás dos Estados Unidos, essa pessoa provavelmente seria taxada como louca.

O contexto de então era de mudanças e conflitos. O país estava extremamente instável. Assim, mesmo que a China já houvesse ocupado altíssimas posições em relação à sua economia na década de 1900, o contexto da década de 50 não era favorável ao retorno dessa posição.

Em 1949, com o advento da Revolução Chinesa, Mao Tsé-Tung e os comunistas chegam ao poder, deixando para trás a dinastia Manchu e também o projeto liberal.  

De acordo com os dados divulgados pelo Banco Mundial (The World Bank Group), em 1960, cerca de 83,8% da população era rural – comparados aos 40,85% registrados em 2018. Ainda segundo a mesma organização, o PIB per capita da China (em dólares estadunidenses atuais) era de, aproximadamente, US$89,52 em 1960; em 2018, por sua vez, o dado saltou para US$9.770,85. Mao, em 1949, assume um país pobre e extrema e majoritariamente rural. 

A Colheita, 1952. | Foto: Hoover Institution Archives.

Em 1958, nove anos após a chegada de Mao ao poder, o Partido Comunista Chinês inicia seu programa intitulado como Grande Salto Adiante, pelo qual criaram grandes comunas agrícolas – de forma a fugir da instituição da propriedade privada – de modo a tentar industrializar o país.

A política, entretanto, de forma conjunta com outros desastres naturais, causou, posteriormente, a Grande Fome Chinesa, período em que vários camponeses, especialmente, beiraram ou se afundaram na pobreza. Dessa forma, mesmo após a Revolução, o país continuava sofrendo dificuldades na esfera econômica. 

Então, em 1966, observando o fracasso na esfera econômica e também sua perda de poder, Mao dá início à Revolução Cultural – que significaria a fortificação do culto à personalidade do líder e o rompimento dos ideais de revolução amparados na União Soviética.

Os revolucionários passavam a ter como base o Livro Vermelho, publicação constituídas de citações de Mao. Elementos e símbolos da burguesia passaram a ser rejeitados mais radicalmente. Aqueles que eram considerados traidores da revolução eram perseguidos. 

“Siga a instrução do presidente Mao para construir uma defesa nacional poderosa e uma forte economia”, 1951. | Foto: Hoover Institution Archives.

A Revolução Cultural dura até a morte de seu líder, em 1976, apesar de ser enfraquecida gradativamente. Com a saída de Mao do poder, dá-se lugar para a fortificação da figura de Deng Xiaoping que, entretanto, nunca ocupou o mais alto posto do Partido Comunista Chinês.

Xiaoping foi responsável por uma série de reformas econômicas que culminaram na abertura gradual do país. O investimento estrangeiro que pôde chegar ao país foi responsável pelo aumento da industrialização chinesa e, além disso, pela sua modernização.  

O líder reformista falece em 1997, mas deixa seu legado, em especial, na economia. Em 1990, cerca de 751,8 milhões (dados do Banco Mundial) viviam abaixo da linha da pobreza extrema no país, com menos de US$ 1,90 por dia. O número cai radicalmente, ano após ano. Em 2016, o dado chegaria a 7,2 milhões – dos 1,379 bilhões que viviam no país, isto é, aproximadamente 0,5% da população.

Para efeitos de comparação, em 2016, no Brasil, 8 milhões viviam na pobreza extrema, algo que representava 3,9% da população brasileira. Mesmo sendo menos populoso, o Brasil tinha mais pessoas que a China vivendo na extrema pobreza. 

As reformas econômicas de Deng Xiaoping colaboram na retirada de milhões da pobreza, assim como na industrialização do país – ainda que a entrada de capital estrangeiro continue concentrada em zonas economicamente especiais (ZEEs), uma forma de abertura do país ao exterior instituída por Xiaoping. Dois exemplos de ZEEs são Xangai e a província de Hebei (arredores de Pequim).

Possibilitada pela industrialização, a produção em larga escala favoreceria o barateamento dos produtos chineses e, portanto, a exportação deles. Levando em consideração os últimos dados divulgados de cada país em relação à exportação de bens e serviços, a China é o país que mais exporta (2,656 trilhões de dólares estadunidenses atuais, em 2018), deixando para trás os Estados Unidos, com seus 2,510 trilhões de dólares, também em 2018.

Dessa forma, gradativamente, após a Revolução de 1949, a China toma de volta o seu posto de segunda maior economia do mundo, vide seu PIB de 13,6 trilhões de dólares (2018) – mesma colocação da década de 1900. O país cresce e torna-se o gigante que é hoje. 

China e Brasil no combate ao coronavírus 

Pode até ser que o ministro da educação Abraham Weintraub caçoe preconceituosamente dos chineses. No entanto, queira ele, ou não, as relações diplomáticas entre Brasil e China podem colaborar – e muito – no combate ao Covid-19, levando em conta sua produção em larga escala e sua alta exportação.

A China, atualmente, é o maior parceiro comercial dos brasileiros – investe, diretamente, nas áreas de infraestrutura, óleo e gás, em especial. Possui, também, participação nos negócios de inovação, de serviço e do setor financeiro, como aponta a Agência Brasil (Empresa Brasileira de Comunicação – EBC). Bancos chineses se instalam no Brasil, e o inverso também ocorre, com destaque para o Banco do Brasil, o qual mantém uma agência em Xangai desde 2014. 

relação entre brasil e china
Ministro da Educação caçoa preconceituosamente dos chineses em rede social. | Foto: Reprodução/Twitter.

Os negacionistas ainda poderiam tentar refutar, contudo: como os negócios entre os dois países se relacionariam ao combate contra o coronavírus?

Segundo Huang Libin, porta-voz do Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação (MIIT) da China, o país aumentou, em fevereiro deste ano, 60% de sua capacidade de produção de máscaras, sendo capaz de produzir 10 milhões de máscaras por dia. Um outro oficial do MIIT, Cao Xuejun, ainda anunciou que a produção de máscaras N95 se manteve em 600 mil peças por dia – como mostra o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. Não é somente a produção e exportação de máscaras que atingiram números altíssimos.  

As informações liberadas pela AFP e por Jin Hai, encarregada pelas alfândegas chinesas, mostram que, desde o começo de março, a China já exportou quase 4 bilhões de máscaras, 37,5 milhões de trajes de proteção, 16 mil respiradores e quase 3 milhões de testes para o coronavírus.

Romper as relações diplomáticas com os chineses ou tomar atitudes que propiciem um possível rompimento se revela, portanto, conduta ingênua e despreocupada com o contexto pandêmico causado pelo Covid-19 – um dos maiores produtores de equipamentos de proteção, diagnóstico e tratamento é a China.

O Brasil pode – e vai – ter de recorrer às exportações chinesas, como já o fez o estado do Maranhão, por exemplo. Arriscar as relações diplomáticas com a China é também colocar em risco a saúde dos milhares de infectados pelo coronavírus no Brasil – e, obviamente, não queremos isso.

_____________________________________________
Por Leonardo Sarvas Cunha – Fala! Cásper

Tags mais acessadas