A violência doméstica sob o olhar dos filhos
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A violência doméstica sob o olhar dos filhos

A violência doméstica sob o olhar dos filhos

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Sandra Regina Santana morou 17 anos em um lar de violência doméstica, onde presenciou a primeira agressão do seu pai contra sua mãe Josefa Carlos Celestino aos seis anos. “O meu normal era ver minha mãe sendo espancada violentamente” desabafa Sandra. Em um dos episódios de violência, Antônio da Silva jogou álcool em sua mulher, deu uma caixa de fosforo para a filha e a mandou acender. As sequências de violência que ela presenciou fez com que visse o pai como carrasco e conta que na infância desejava sua morte.

A violência doméstica sob o olhar dos filhos

Quando você é criança e sabe que o bicho papão vai chegar você quer que ele não chegue. Era assim. Quando meu pai saía pra trabalhar eu não queria que ele voltasse pra casa. Todo dia eu pedia nas minhas orações para ele não voltar.

Entre janeiro e novembro de 2018, a imprensa brasileira noticiou mais de 14.000 casos de violência doméstica no Brasil. Os dados do Mapa da Violência Contra a Mulher traz uma ideia do quadro de violência que persiste no país. Em 58% dos casos noticiados as agressões foram feitas pelos companheiros ou ex. Dentro dessa realidade há um ecossistema complexo de violência que envolve o agressor, a vítima e em muitos casos os filhos. Como é descobrir durante a infância ou adolescência, que são fases por si só de transformação e desenvolvimento, que você está inserido num ambiente de violência?

Para a psicóloga Gabriela Barros da Silva da plataforma Mapa do Acolhimento, que conecta vítimas de violência com atendimentos especializados, os impactados são muitos. “Crianças que vivenciam suas mães sendo violentadas têm o mesmo impacto mental e neurológico de soldados de guerra”.

No caso de Luísa Portella, a descoberta da violência veio aos 15 anos. A família estava fazendo uma viagem para comemorar seu aniversário em Orlando. “Eu não me lembro do motivo exato do meu pai ter batido nela, eu só ouvi os gritos da minha mãe. Quando cheguei no quarto, meu pai estava socando a cabeça dela para machucar, para deixá-la desacordada. Quando eu vi essa cena, entrei no meio e meu pai começou a bater em mim também. Meus irmãos conseguiram separar.”

Em 2018 houve 263 mil casos de lesão corporal contra a mulher no Brasil segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Apesar dos grandes avanços, como a Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, lei do feminicídio, de 2015 e as campanhas de conscientização, a violência doméstica continua sendo uma realidade em muitas casas brasileiras. De acordo com o Fórum de Segurança Pública há um registro a cada dois minutos. E ainda há muitos casos subnotificados e entende-se que o número seja ainda maior.

A psicóloga Gabriela Barros da Silva do Mapa de Acolhimento afirmou que grande parte das mulheres demoram em média dois anos, após sofrer violência, para fazer a denúncia. E que os principais fatores para a demora seria o medo de ser julgada, a falta de apoio e a culpabilização, principalmente quando são mães.

Mesmo quando não há agressão física direta, os filhos que crescem nesse ambiente, podem sofrer grandes sequelas psicológicas. Como lembra a psicóloga Bruna Fraga Provitina, o ambiente familiar é o nosso primeiro contato com o mundo e o primeiro exemplo de como conviver em sociedade. “Desta forma é natural absorver positiva ou negativamente as experiências vividas, principalmente na primeira infância. Ambientes tensos, de constantes brigas, discussões, sem muitas demonstrações de afeto podem sim formar pessoas adultas com questões importantes em suas relações”.

Sandra Regina conta que ver, durante anos, seu pai ser agressivo com sua mãe a tornou intolerante com homens. “Desde menina eu sabia que aquilo ali era o espelho do que eu não queria viver. Hoje eu não admito que nenhum homem fale alto comigo. Minha mãe passou por isso a vida toda, ela não podia nem abrir a boca. Eu me tornei uma pessoa muito intolerante e agressiva com homem. Eu achava que homem nenhum merecia que mulher nenhuma derramasse uma lágrima.”

Muitas mulheres com medo de expor os filhos a violência sofrida escondem as agressões da família. Além disso, os vínculos da mulher com o agressor pode ser um empecilho para que a mulher saia do silêncio. “O ciclo da violência envolve muitas coisas: medo, dependência afetiva, financeira, ameaça, falta de apoio. E quando essas mulheres estão nesse ciclo é muito delicado, pois como ela vai denunciar quem é o responsável financeiro, pode agravar mais a situação, portanto algumas decidem não sair do ciclo por conta da sobrevivência dela e dos filhos” conta a psicóloga Gabriela Barros da Silva articuladora do Mapa do Acolhimento. Além disso, “os filhos ou filhas são usados muitas vezes como instrumento de manipulação do agressor para permanecer propagando violência contra a mulher” conclui Gabriela.

Criar condições para que a mulher tenha amparo social ao denunciar a violência doméstica é de extrema necessidade nesses casos. Por isso, as casas-abrigo são essenciais para quebrar o ciclo da violência e receber essas mulheres e filhos. Entretanto, somente 2,4% dos municípios brasileiros contam com casas-abrigo de gestão municipal. Segundo dados do IBGE referentes a 2018, entre municípios menos populosos, que correspondem a cerca de 70% do total, praticamente não existe estrutura desse tipo de serviço, havendo apenas nove casas-abrigo para 3 808 municípios. Além disso, somente 8,3% municípios brasileiros possuíam Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.

A violência doméstica que geralmente ocorre em um ciclo, se caracteriza pelo aumento da tensão, o ato de violência e lua de mel, onde o agressor tenta a reconciliação. A tendência é que o intervalo de duração do ciclo diminua e vá se agravando. O pai de Sandra, em seus atos de violência, costumava utilizar o cinto para bater em sua mãe. Em uma dessas ocasiões acertou com a fivela no olho de Josefa que perdeu a visão do seu olho esquerdo. Antônio sempre prometeu que marcaria seu rosto, para que ela sempre se lembrasse dele, e cumpriu com sua palavra. Dona Josefa, foi casada durante quarenta anos com ele, entre idas e vindas. O final do ciclo de violência só se deu definitivamente depois da morte de Antônio, em 2009, mas em muitos casos o ciclo só acaba com morte da vítima. Em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil e em mais de 85% dos casos o autor foi o companheiro ou o ex-companheiro.

Hoje, Sandra fica aliviada em saber que sua mãe não se tornou estatística. Conta que sua relação com o pai sempre foi prejudicada pela violência que ela presenciou, mas que o perdoou. “Eu perdoei ele em vida. Beijei. Perdoei mesmo. Eu entendi que ele era doente quando ele ligou aqui pra casa e falou assim ‘você faz um favor pra mim? Sandra, sou eu seu pai. Dê um recado a seus irmãos, você diga pros seus irmãos que eu plantei um canteiro lindo de alface e de noite satanás veio arrancou e plantou cactos e espinheiras’. Ele quis dizer que ele queria uma família, mas que ele não teve. A gente não teve tempo de conversar sobre isso porque uns três meses depois ele morreu”.

O pai da Luísa, hoje separado de sua mãe, tenta retomar os laços com a filha. “Minha relação com o meu pai ainda guarda muitos resquícios daquela época. Nossa relação ficou muito ruim e parece algo irreversível. Eu ainda não tenho o peito aberto pra falar com ele. Preciso sempre ter umas respostas prontas na ponta da língua. Preciso sempre estar na defensiva. Ele tenta muito manter uma relação de amizade comigo. Chega a ser forçado. Parece que ele se arrepende até hoje das coisas que fez e quer se redimir. Eu o deixo entrar na minha vida até onde eu permitir, até porque ele é meu pai. Mas existe um limite até onde ele pode ir. E acho que nunca vai existir uma relação totalmente saudável igual era na infância”.

A violência doméstica tem como principal vítima a mulher, mas ela se enraíza e traz consequências para todos os envolvidos. Os filhos, as relações que esses filhos vão ter no futuro, e o próprio agressor. A psicóloga Bruna Provitina entende que todos os envolvidos deveriam ter acompanhamento psicológico. “O agressor e todos que de certa forma foram vítimas, direta ou indiretamente deveriam ser acompanhados. Através de um serviço sério de acompanhamento após a denúncia do caso. Uma mãe violentada, muito provavelmente, terá questões relacionadas aos filhos que também precisam ser vistos. Infelizmente ainda precisamos reconhecer que a violência contra a mulher é um problema. Só assim teremos o devido olhar global para as vítimas.”

*Alguns nomes foram alterados para evitar exposição da vítima

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Por Roberta de Souza – Fala! UFRJ

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