Yoga e sua influência na vida acadêmica de jovens adultos
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Yoga e sua influência na vida acadêmica de jovens adultos

Yoga e sua influência na vida acadêmica de jovens adultos

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A prática da yoga abre o caminho para a  reconexão com o presente, ajuda na concentração, tornando-se aliada no controle da ansiedade vivida por estudantes

Drona Archarya foi o maior professor de arco e flecha que já existiu. Um dia, decidiu realizar uma competição entre seus alunos, para descobrir o melhor arqueiro. Então, colocou um pássaro de madeira no alto de uma árvore, a vários metros de distância, e orientou os alunos: “Veem aquele pássaro de madeira, no alto daquela árvore? Mirem em seu olho”. 

Então, o professor chamou o primeiro aluno a realizar o teste. Yudhistar escolheu sua melhor flecha, colocou no arco e puxou a corda. Antes de atirar, Drona perguntou: “O que você vê?”, “Eu vejo o sol, as nuvens e as árvores”. Após responder, soltou a corda de seu arco. A flecha saiu com bastante velocidade, mas tocou o solo a vários metros do alvo.

O próximo foi Ashwathama. Da mesma maneira que Yudhistar, escolheu sua melhor flecha, colocou em seu arco e puxou a corda. Antes de atirar, mais uma vez Drona perguntou: “O que você vê?”. “Eu consigo ver o pássaro de madeira, as folhas em sua volta e uma pequena lagarta em um ramo próximo ao galho”. Soltou a flecha, que saiu com velocidade em direção à árvore em que o pássaro de madeira estava. Apesar de sua visão fantástica, a flecha alcançou apenas as raízes da árvore. 

Por fim, foi a vez de Arjuna. De maneira semelhante a todos os concorrentes anteriores,  selecionou a melhor de suas flechas, colocou em seu arco e puxou a corda. “O que você vê, Arjuna?”. “O olho do pássaro”. “Você vê a árvore?”. “Não”. “Você vê o galho?”. “Não”. “Você vê o pássaro?”. “Não”. “Então, o que mais você consegue ver, Arjuna?”. “Nada. Eu só vejo o olho do pássaro.” Em seguida, Arjuna soltou sua flecha, que saiu com velocidade. Sua flecha acertou o olho do pássaro com enorme precisão.

Esta é uma história milenar usada por Diego Arenaza – professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e representante brasileiro da Pesquisa sobre Yoga na Educação (RYE) – para conduzir suas aulas de Yoga na Aprendizagem. Através dela, explica e exemplifica as etapas de uma metodologia de ensino que utiliza técnicas do yoga.

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A yoga influencia na vida acadêmica de jovens adultos. | Foto: Reprodução/Health.

Yoga e o auxílio na concentração

A dificuldade em mirar apenas o olho do pássaro é algo comum atualmente. Às vezes, focamos nos mínimos detalhes, sabemos tudo o que está acontecendo ao redor, mas não somos capazes de manter o foco no presente, no que precisa ser feito agora. 

Minha própria vida escolar foi assim. Estudando para uma prova, mas pensando nas outras que iriam ocorrer durante a semana. O medo de não corresponder às expectativas sociais e àquelas criadas por mim mesmo. Todos esses fantasmas rondando minha mente enquanto tentava me concentrar.

As consequências se faziam presentes, as dores de cabeça, o estresse aparente, a mão que tremia, a falta de autoconfiança, as noites mal – ou não – dormidas. “Você estava com ansiedade, dúvidas, baixa autoestima”, relata Rosane Ferrari, a minha mãe. No final do segundo ano do ensino médio, a pressão do vestibular começou a aparecer. Minha mãe me obrigou a praticar yoga.

Foi amor à primeira vista: a composição da sala, os sons, os movimentos, a respiração, a meia-luz. A filosofia por trás daquilo. Nunca mais parei, pratico há três anos. As mudanças não foram rápidas. O processo de autoconhecimento me permitiu naquele mesmo ano encontrar algumas respostas. Não estava feliz na instituição que estudava, não me identificava com o curso técnico. Terminei o ano letivo e pedi transferência para uma escola que condizia mais com meus objetivos. 

No terceiro ano do ensino médio, minha rotina era caótica. Estudava em um colégio integral e fazia um pré-vestibular on-line. Basicamente, me dedicava aos  livros de manhã, tarde e noite e manter o foco por tanto tempo não era uma tarefa simples. Mas esperava ansioso pela sexta-feira à tarde, quando fazia uma hora de yoga. Depois da sessão, sentia-me mais leve, continuava com as atividades diárias. É claro que também tinha outros espaços de lazer: correr, assistir a algum episódio de série e ver os amigos. Eram momentos que deixavam minha mente dispersa. Tinha consciência da necessidade de cada um deles assim como sabia quando devia voltar aos estudos. 

Apesar de minha consciência quanto à rotina e o auxílio do yoga, ainda vivia momentos de insegurança em relação ao vestibular. Assim como boa parte dos estudantes, meu coração batia mais rápido. Porém, sabia que aquele era um momento passageiro. 

Nas cinco provas que prestei, a yoga me acompanhou. Inspirava por uma narina, expirava pela outra. Sentava reto, uma perna sobre a outra. Trazia minha mente para as questões e minhas respostas. Eu encontrei o olho do pássaro. Passei em todas as universidades que desejei. 

A yoga continuou sendo parte da minha rotina. De uma a duas sessões por semana e cinco minutos de meditação diária. As mudanças se tornaram perceptíveis. Eu sei que sou capaz de controlar a ansiedade, de executar minhas tarefas diárias, trazer minha mente para o presente. Mas esta luta não é só minha, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2017, 9,3% dos brasileiros tinham algum transtorno de ansiedade. Já a depressão afetava 5,8% da população.

Relato de Gabriela Alencar Sinkoc

Gabriela Alencar Sinkoc terminou o ensino médio em 2015. No ano seguinte entrou no cursinho. Como muitos estudantes que querem estudar Medicina, não conseguiu na primeira tentativa. Na Universidade Federal de Santa Catarina, no Vestibular 2019, eram mais de 200 candidatos por vaga, na classificação geral. “Eu no cursinho foi desesperador. Não conseguia fazer nada sem ser estudar. Só estudar. Aí vieram as crises de estresse”, conta a estudante.

O ano seguinte no cursinho foi ainda mais difícil. Ela enfrentou uma Crise de Mania – uma elevação de humor, que a deixava eufórica. “Eu fiquei um tempo de cama, não conseguia dormir, porque a minha cabeça parecia que tinha um zilhão de sinapses acontecendo”. Ela resolveu deixar o pré-vestibular e continuar estudando por conta própria. Como já havia praticado quando era mais nova, voltou para a yoga e começou a se dedicar a outros esportes – natação e corrida.

As provas chegaram no final do ano. “Eu usei as técnicas no meu último vestibular. E por acaso foi o que eu passei em tudo”. Passou em Medicina em diversas universidades – em Campinas, Jundiaí e Santos, por exemplo. Por fim, decidiu cursar Nutrição na Universidade Federal de Santa Catarina. Sua postura diante da prova mudou graças ao yoga. “Nesse ano, eu fui fazer a prova tipo ‘tudo bem se eu não passar, mas vou dar meu máximo, estarei presente na prova’”. 

Gabriela presenciou casos semelhantes ao seu no cursinho. “[…] teve umas quatro pessoas que tiveram algum tipo de crise de estresse muito grave na minha unidade”. Porém, estes quadros de ansiedade e estresse não são exclusivos dos vestibulandos. Na UFSC, o Serviço de Atenção Psicológica (SAPSI) é oferecido a alunos, a servidores e à comunidade. São ofertados acolhimentos, consultas psicoterápicas, terapia em grupos e um plantão psicológico. “O que leva muitas pessoas a procurar o plantão [psicológico] são crises de ansiedade”, relata Carla Schubert Sengl, psicóloga e técnica-administrativa do SAPSI. Em 2018, foram mais de 1700 pessoas atendidas e 3000 atendimentos. No primeiro semestre de 2019, até maio, já foram mais de 600 acolhimentos (em que o paciente faz duas sessões).

Conforme dados divulgados em 2016, pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), cerca de 30% dos estudantes da rede federal pediram ajuda psicológica, em 2014, e 10% utilizaram algum medicamento psiquiátrico. “[…] nós estamos inseridos em uma sociedade rápida, urgente, ansiosa, com excesso de informação, excesso de estímulos e a maioria das pessoas não estão conseguindo processar tudo isso”, afirma Maristela Montovani, Mestre em Educação e Instrutora de Yoga. 

“Nesta sociedade ansiosa, o conhecimento que chega de forma fragmentada, vai criando uma concepção de mundo totalmente fragmentada”, explica Maristela. Apontamos nossas melhores flechas para múltiplos alvos ao mesmo tempo. A expansão das tecnologias de informação pode estar relacionada à falta de concentração. O boom das redes sociais alteraram o nosso modo de viver – e conviver – em sociedade. “As redes sociais interferem significativamente na qualidade da concentração. Elas estão desenvolvendo um tipo de vício nas pessoas, um vício pela informação nova”, alerta a Instrutora de Yoga.

Desde 2000, por exemplo, passamos a falar de FoMO – fear of missing out, que em português significa medo da perda. Este transtorno revela a aflição de que as pessoas estejam fazendo algo mais interessante que você. O que acarreta o uso excessivo de meios digitais de interação, seja para divulgar seu cotidiano ou assistir à vida de outros, o que tira o foco do presente e da rotina. 

Como estudar e aprender quando sua mente não está em um único lugar? Quando há tantos atrativos fora? “A nossa educação é muito mental, parece que o estudante só tem uma cabeça, um dedinho que levanta, parece que não tem emoções”, relata Diego Arenaza. Dentro das escolas, é difícil alguém te ensinar a se concentrar. Entretanto, a exigência pelo foco é constante. “[…] o yoga trabalha com o holístico, com os outros sentidos: corpo, mente e coração”, relata.

Yoga e sua influência na vida acadêmica

As situações que a Gabriela, eu e muitos outros estudantes passaram – e passam – poderiam ter sido evitadas caso tivéssemos entrado em contato com o yoga na infância. Nesse caso, a prática não seria usada para remediar, mas para prevenir. O que não está longe de se tornar uma realidade.

Desde 2004, Diego ministra aulas de “Yoga na Aprendizagem” para os graduandos da UFSC. Ele trabalha com a metodologia do RYE – linha de pesquisa de yoga na educação francesa. São seis etapas para ajudar o aluno a estar consciente e controlar seu foco: viver juntos, purificação e eliminação de toxinas, boa postura, respiração, relaxamento e, por fim, a concentração. “A concentração é como um músculo, você trabalha e melhora”, destaca.

Durante seus 15 anos de existência, a disciplina formou mais de 400 alunos aptos a aplicar a metodologia em salas de aula de todos os níveis de ensino. Dentre eles, Vanessa Barbosa Sander, Terapeuta Transpessoal e estudante de Educação Física UFSC, que já colocou os conhecimentos em prática. Na Cooperativa de Pais do Campeche, desenvolveu dinâmicas utilizando técnicas de yoga com crianças de um a dois anos, através de exercícios lúdicos, relacionando posturas a animais e focados em respiração. “Era um momento que a gente conseguia manter eles juntos e calmos”, constata.

 Os alunos de Vanessa não foram os únicos beneficiados. “Eu consigo acompanhar aulas sem perder a linha de raciocínio, porque a gente aprende a voltar a mente para o momento presente”, relata. As técnicas não são úteis somente para a concentração. Vanessa já as aplicou para desenvolver um melhor desempenho na apresentação de trabalhos. Autorizada pelo professor, a estudante de Educação Física conduziu um exercício de ativação da atenção com os colegas, o que influenciou também na postura de confiança frente à sala.

“Se o yoga não chegar na sociedade através das crianças, na escola, para chegar nos pais fica bem mais difícil”, afirma Vanessa. É dentro da sala de aula que as técnicas vão ser aplicadas. Para isso, ali deve ser um ambiente de troca saudável e respeitosa. O que é possível através de um dos princípios da prática do yoga – a boa convivência. Resolver os conflitos existentes no espaço e criar laços de afeto e cuidado com o outro.

Os estudantes começam a perceber que o professor não está apenas se preocupando com a disciplina, mas também com ele, que ele esteja bem, que esteja aprendendo bem.

Destaca Diego. 

Pensar no yoga como prática holística é também considerar que atingir o olho do pássaro não é tudo. “Um dos aspectos fundamentais do yoga é a reconexão com você mesmo, saber quem você é”, enfatiza Maristela. Quando você se conhece, começa a ser mais gentil consigo mesmo. A flecha pode mudar de alvo. Podemos encontrar outro olho de pássaro. A concentração para atingir os objetivos não é o fim por si só do yoga, é uma consequência necessária e fundamental para o processo de ensino-aprendizagem.

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Por Leon Ferrari – Fala! UFSC

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