Você sabe o que é o colorismo? Saiba tudo sobre essa política
Menu & Busca
Você sabe o que é o colorismo? Saiba tudo sobre essa política

Você sabe o que é o colorismo? Saiba tudo sobre essa política

Home > Entretenimento > Cultura > Você sabe o que é o colorismo? Saiba tudo sobre essa política

“O colorismo é uma política de embranquecimento do Estado que por muito tempo fez com que eu odiasse os traços genéticos do meu pai herdados. Me odiasse. Me mutilasse. Meu cabelo alisasse”. – trecho retirado do vídeo, “Eu sou a menina que nasceu sem cor…”, disponível no YouTube.

É mais fácil vislumbrar a problemática do colorismo quando utilizamos o outro termo existente para denominá-lo: a pigmentocracia, trata-se das diferentes maneiras de exclusão social que considera diversas tonalidades de pele, segregando mais fácil, cruel e claramente aqueles de pele mais escura. Essa teoria pretende mostrar que, mesmo com e entre pessoas declaradas negras, a pigmentação ainda é decisiva no que tange à variação no tratamento social.  

A principal arma do colorismo é o mimetismo, ou seja, a camuflagem social como estratégia de sobrevivência. Visto isso, os indivíduos com a negritude “disfarçável” incorporam essa conduta que incentiva as práticas de apagamento da identidade negra, o exemplo mais popular no Brasil são os alisamentos capilares. Buscando gerar uma nova maneira de como o sujeito negro é lido em sociedade. 

Outrossim, em todas as partes do mundo, o colorismo trabalha com “privilégios” e recompensas rasas para pessoas negras com pele mais clara, na prática, elas são alimentadas com a sua passabilidade – por meio de sua aparência menos marcada, elas conseguem ocupar alguns espaços e mesmo serem melhor ouvidas, assim sofrerem “menos racismo”.

Entretanto, a supremacia branca ainda é um fato, e faz questão de fazer-se presente constantemente em todas as camadas do corpo social, e se fortalece através da opressão do sistema racista em que os países foram construídos. De forma sucinta, pessoas pardas são escuras demais para terem o privilégio branco, mas são claras o bastante para que nem todos percebam sua negritude, ou seja, tornam-se mais “agradáveis” ao olhar branco.

Desse modo, a branquitute permite a presença de sujeitos negros com identificação de traços físicos mais próximos do europeu, ela tolera esses indivíduos, pois consegue reconhecer-se em parte.

Essa questão aguça a sensação de despertencimento. Em um contexto social colorista, ainda que negros de pele clara sejam negros tal qual um de pele escura, o racismo vivenciado por esse grupo não é passível de comparação. A própria terminologia “parda” é uma maneira de retirar a consciência racial, já que é mais um mecanismo estatal de embranquecimento social e diluição da negritude. 

colorismo
Entenda as consequências do colorismo. | Foto: Revista Raça Brasil.

As consequências do colorismo

A autobiografia Nascido do Crime, do comediante Trevor Noah, narra sua infância e adolescência na África do Sul como mestiço durante o Apartheid e a conturbada democracia que instaurou-se depois disso. Durante a história, somos apresentados a uma forte questão identitária presente na vida do protagonista: a maneira que o colorismo afetou a sua construção como sujeito:

A maldição que os coloured (expressão usada para denominar os mestiços na África do Sul durante o Apartheid, e ainda utilizado hoje em dia) carregam é de não ter uma origem claramente definida à qual recorrer. Se analisássemos a origem dessa linhagem, em determinado momento, ela se dividiria em brancos, nativos e uma rede intricada de ‘outros’ (…) A história da população coloured da África do Sul é, desse ponto de vista, pior que a história da população negra. Apesar de todo o sofrimento, pelo menos os negros sabem quem não. Os coloured, não.

Vale ressaltar que a pigmentocracia é muito comum em países que sofreram a colonização europeia. 

Discutindo nossa própria realidade, a formação da sociedade brasileira composta por uma enorme diversidade de tons de pele têm sua origem no encontro, por vezes violento, de inúmeros grupos raciais. O constante ciclo, em sua maioria, de abusos sexuais oriundos da exploração dos brancos sobre os nativos e os negros escravizados no período de colonização brasileira iniciou o processo de miscigenação dos povos. 

Esse fator – a miscigenação – é um dos maiores argumentos para reafirmar a narrativa fantasiosa da democracia racial – a utopia da convivência pacífica e justa entre as raças – e fortalecer a política do colorismo do nosso país. 

Ao contrário do que se pode pensar, o Brasil não se configura como um paraíso racial, na verdade, se faz latente os preconceitos raciais construídos e retroalimentados historicamente e, ainda, social, politica e culturalmente, elaboram-se novas formas de discriminação, assentes nos mais variados critérios, em busca de reforçar o racismo á brasileira. É observável na sociedade que a miscigenação não gerou uma convivência harmoniosa entre as raças, mas sim, uma hierarquização social, utilizando-se fortemente a prática do colorismo.

De maneira geral, os sujeitos negros com os traços fenotípicos menos evidentes não chegam a passar como brancos, mas simplesmente como “não-negros”. Eles ocupam esse limbo complexo e intencionalmente confuso, já que são o resultado de uma eugenia que branqueou, inclusive, nosso pensamento. O período de Eugenia foi o processo de embranquecimento social brasileiro incentivado pelo governo da época através da facilitação da imigração.

Uma das maneiras de exemplificar a pigmentocracia enraizada no Brasil é através do mito da mulata exportação, que é uma das narrativas fantasiosas que acompanham o colorismo brasileiro. Ele é o exemplo da poderosa junção entre o machismo e o racismo. No imaginário popular, ela representa a mulher da satisfação dos prazeres carnais, como a personagem Rita Baiana apresentada na obra literária O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

O ideal que por décadas foi difundido, social e culturalmente, para o exterior. Ele fomenta a visão de que as mulheres brasileiras são sensuais e da “cor do pecado”. A própria expressão – da cor do pecado – está fortemente associada à negação da ancestralidade negra. 

Por que é importante entender o colorismo?

É de suma importância entender a construção desse processo de contraste entre as próprias tonalidades, que resulta na diferenciação social. Além disso, através do entendimento de como o colorismo se dá no cotidiano, é possível compreender como o racismo penetra nossas vidas nas mais diversas facetas.

O racismo estrutural faz com que as pessoas tendam a associar que racismo é ser retirado de um espaço a força ou ser parado e tratado violentamente por um policial. Racismo é, indiscutivelmente, isso, mas ele também se faz presente em atitudes muito menores, como o simples olhar e a maneira de conversar. De maneira intrínseca, está diretamente ligado com a política, a educação e a linguagem. Ele finca-se nas bases da sociedade e só é perceptível por um olhar apurado que veja a discrepância de renda, de empregabilidade e de marginalização, por exemplo. 

É irreal pensar que as teorias deterministas biológicas não deixaram cicatrizes no corpo social atual, elas apenas continuam existindo com uma nova roupagem. Se antes elas eram utilizadas para justificar a escravidão por meio da afirmação da supremacia branca frente à inferioridade negra, hoje, suas influências reafirmam a continuidade da discriminação racial em suas mais variadas formas, como pelo colorismo. Reconhecer-se como negro ainda apresenta uma carga social negativa, e é isso que precisamos debater. 

_____________________________
Por Vitória Prates – Fala! Cásper

Tags mais acessadas