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Violência em São Paulo – Os Extremos da cidade

Violência em São Paulo – Os Extremos da cidade

Às margens da Represa de Guarapiranga, Zona Sul de São Paulo, está localizado o Jardim Ângela, um distrito da capital paulista. Antes uma área verde que circundava o manancial de água, a região passou por um processo da urbanização e ficou marcada pelas habitações populares e os altos níveis de violência.

O bairro já foi considerado o mais perigoso do mundo pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1996. Na época, a taxa de homicídios era de 98 para cada 100 mil habitantes. Hoje, o Jardim Ângela superou esse título, mas os problemas não acabaram.

A população de 295 mil habitantes continua enfrentando desafios, principalmente o crime organizado. “Antes a gente sabia onde estava a violência, agora a gente não sabe o que esperar. Tem muito de menor fazendo besteira e ninguém faz nada”, relata Anderson Godói, morador do Jardim Ângela.

Clóvis Neris, dono de um bar, conta que foi assaltado no Réveillon. “A gente não fica preparado por que a violência acontece toda hora e a gente nem vê”, afirma o comerciante.

Violência em São Paulo
Os jovens que vivem no Jardim Ângela – Foto: Reprodução/Folha de S.Paulo

O Instituto Sou da Paz analisou os dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo e constatou que dos dez bairros mais perigosos da capital, quatro são da Zona Sul.

Além disso, de acordo com o Mapa da Desigualdade encomendado pela Rede Nossa São Paulo, a expectativa de vida para um morador da periferia gira em torno de 55 anos, enquanto no Jardim Paulista, área nobre de São Paulo, vive-se em média 24 anos a mais.

Isso revela um problema concentrado. “Mesmo quando a cidade é violenta, é perceptível as diferenças territoriais”, declara o jornalista e cientista político Bruno Paes Manso, pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.

Entre 1993 e 1998, ele acompanhou uma série de assassinatos que ocorreram no Jardim Ângela. “Foram 156 mortes nesse período, em um território muito pequeno”, diz.

Violência em São Paulo
O Monitor de Violência do G1 foi uma proposta apresentada por Bruno Paes Manso para mensurar as informações reportadas pelas redações do portal de notícias em todos os Estados brasileiros – Foto: Reprodução/G1

Apesar de não vivermos em situação de guerra declarada, o Brasil é um dos dez países mais violentos do mundo, como aponta o Atlas da Violência de 2018 organizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número de homicídios chegou a 50 mil no ano passado.

Paes Manso conversou com homicidas para entender porque se mata tanto no Brasil. Em um caso, um jovem cometeu um assassinato depois que a pessoa havia o encarado com ‘maus olhares’ por três dias seguidos.

Quando você é um homem jovem e vê um amigo morto, testemunha corpos na rua, vai a enterros com frequência, ouve tiroteios, você sabe que está vivendo em um ambiente tenso. Um olhar torto é o suficiente para te informar que você está sendo ameaçado de morte.

Em sua pesquisa, Paes Manso aponta também para a questão de gênero. “Os homicídios são majoritariamente praticados por homens. Esses meninos são pressionados a agir assim, para se mostrarem duros, fortes. Isso tem relação com uma masculinidade tóxica”, afirma o especialista.

Os homens são responsáveis por 95% dos homicídios no mundo, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Bruno Paes Manso é autor dos livros “O homem X: uma reportagem sobre a alma do assassino em São Paulo” e “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” – Foto: Augusto Oliveira/OBORÉ

A desordem social instaurada pela violência costuma ser respondida com força e repressão. O policiamento no Jardim Ângela, por exemplo, se intensificou desde a década de 1990, mas isso não inibiu a criminalidade. “Na realidade, isso cria uma dinâmica de conflitos, um ciclo de vingança que gera um efeito multiplicador de assassinatos”, descreve o pesquisador.

Marcelo Silva Rocha, conhecido como DJ Bola, nascido e criado no Jardim Ângela, aponta outros caminhos para resolver esses conflitos. “A quebrada se transformou em um espaço potente de ideias.

lugar mais violento do mundo é hoje uma das maiores potências do mundo que utiliza a economia criativa, negócios sociais, a cultura, a música, a arte para sobreviver e impactar as pessoas”, assegura o DJ em entrevista ao Periferia em Movimento.

Paes Manso também acredita nessa força transformadora. “O Estado tem a função de dar alternativas a esse caminho. É preciso construir sonhos e acabar com a ilusão do crime. E podemos conseguir isso através de cultura, família e cidadania – e não pela guerra”, conclui.

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Por Matheus Menezes – Fala! Anhembi

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