Menu & Busca
Vidas Combalidas: Quatro Horas Dentro de um Pronto-Socorro Público

Vidas Combalidas: Quatro Horas Dentro de um Pronto-Socorro Público


Por Natanael Oliveira – Fala!PUC


Quanto vale a vida humana? O quanto o sistema público de saúde valoriza o bem mais precioso do ser humano? Essas foram apenas uma das indagações na qual me foram apresentadas em um trabalho que eu jamais esquecerei e levarei para sempre em meu imaginário. Não há surpresa alguma em como a nossa rede de saúde é precária e de baixíssima qualidade, mas enfrentando na “pele” como é sofrer com isso nos dá uma dimensão e visão ainda maiores sobre a situação deplorável que nosso país se encontra.

 

Essa vivência sem sombra de dúvidas foi uma das maiores experiências que tive em minha vida, e jamais poderia imaginar que um dia eu passaria, por livre e espontânea vontade, mais de quatro horas seguidas em um pronto-socorro público, no Hospital Municipal Artur Ribeiro de Saboya em Jabaquara. Assim que foi noticiado o que devíamos fazer, admito que me veio um sentimento de medo e receio, mas ao mesmo tempo, a ansiedade tomou conta de mim, já que eu não tinha ideia do que presenciaria dentro daquela ala de pronto-socorro.

[read more=”Leia Mais” less=””]

Quando chegou o grande e ansiosamente esperado dia, os mais diversos pensamentos e questionamentos passaram pelo meu imaginário, como se eu veria alguém em estado gravíssimo de saúde, ou se testemunharia atrocidades em relação ao atendimento. Assim que eu cheguei ao local, por volta das sete horas de um domingo, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a precariedade estrutural do hospital, como se ele estivesse completamente abandonado pela prefeitura. Chãos completamente sujos e deploráveis, além de cadeiras quebradas em estado de conservação extremamente comprometido.

Assim que achei uma cadeira no Hospital e que estava localizada bem no canto e de maneira estratégica para que eu não chamasse a atenção, eu sentei e passei a observar atentamente todas as situações e possíveis bizarrices que certamente não veria em nenhum outro local em toda a minha vida. Algumas particularidades me chamaram completamente a atenção, como uma presença exagerada de bebês doentes no local, em uma concentração tão grande que jamais tinha visto anteriormente.

No começo eu estava naturalmente nervoso, tenso, e com medo de ver algum acontecimento critico, mas com o passar das horas eu fui me ambientando ao Hospital, e quando menos percebi, eu já “fazia parte” do local. A cada minuto o cenário se tornava cada vez menos impactante e de alguma forma completamente estranha, amigável. Pensei, observei, analisei, imaginei e o único pensamento que se passava em minha mente era a história de vida de cada uma das pessoas que estava no local. Enquanto algumas pessoas vão ao hospital pensando na morte, eu só conseguia pensar na vida, nas histórias não noticiadas e que jamais saberemos, nas lutas que cada uma delas passa todos os dias e o quanto elas sofrem com isso.

Vi pessoas com as suas saúdes combalidas das mais diversas formas, vi acompanhantes extremamente preocupados com os seus conhecidos, vi moradores de ruas se aproveitando do já deplorável local para se acomodar, vi as bagunças e organizações caóticas que só faziam atrasar a vida de todos os impacientes pacientes, vi cachorros que contavam histórias apenas com os seus olhares, vi a quase-morte, vi o sofrimento e principalmente, vi a vida.

Almas

Apesar de todo o sofrimento e precariedade que presenciei, eu também pude ver claramente a humanidade em sua forma mais colorida e apaixonante. Todas aquelas pessoas unidas como nunca antes vista só reforçam o pensamento de que todos os seres humanos só se unem de maneira verdadeira quando estão sofrendo. Mães abraçando filhos, filhos abraçando mães, estranhos ajudando idosas que estavam de cadeira de rodas e uma união que não tratava de interesses, mas sim da pura solidariedade.

Chegou um determinado momento da minha observação na qual eu nem estava percebendo o tempo passar, tamanha a concentração em absorver toda a atmosfera do pronto-socorro, e a cada novidade, o cenário se tornava mais caoticamente poético.

Falência pública

Uma das minhas reflexões sobre essa experiência foi o quanto algumas pessoas, principalmente eu, vivem em uma “bolha” com todos os seus privilégios e facilidades, e acabam esquecendo o quanto a grande maioria da população sofre com governos péssimos, profissionais de qualidade duvidosa e infraestruturas de terceiro mundo. Tudo que eu pude ver lá foi importante para que eu tivesse consciência do quanto eu sou agraciado por ter ganho todas as oportunidades possíveis na minha vida.

Ao final das quatro horas, eu sai de lá com algumas certezas: o quanto eu devo ser grato pela vida que tenho, que a realidade da saúde brasileira é horrível, e principalmente, que em situações de sufoco, a união prevalece acima de todas as coisas.

A empatia humana venceu.

[/read]

Confira também:

– Fábrica de Sonhos – Uma ONG criada por universitários

– Conheça o Cataki, aplicativo que dá visibilidade aos catadores de lixo

Quer se tornar um colaborar e escrever para o fala?
Saiba como

0 Comentários

Tags mais acessadas