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Vamos Falar Sobre a Transfobia?

Vamos Falar Sobre a Transfobia?


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Eu sei que é um assunto delicado, mas precisamos falar sobre a transfobia.

Coloco-me, aqui, do lado de fora. Não tenho a propriedade da voz dos que vivenciam as dificuldades e os preconceitos ao longo de uma vida. Tampouco me considero isenta e acima de todos os preconceitos. Mesmo assim, proponho uma reflexão e – quem sabe – um processo de desconstrução – desse preconceito que permeia a sociedade e acaba se refletindo no ambiente universitário.

Que a população transgênera é marginalizada na sociedade, não é novidade. Mas talvez falte a compreensão mais profunda e empática dos direitos básicos que lhes são negados diariamente. O acesso à saúde, à educação e ao mercado de trabalho, por exemplo – que ainda criam enormes lacunas na sociedade em geral – são ainda mais ausentes e precários para as pessoas transgêneras.

O caso do universitário transexual – Samuel Silva – que foi veiculado na mídia recentemente trouxe novo fôlego à discussão da transfobia e possibilitou a exposição e a denúncia de preconceitos que se perpetuam nas universidades, estejam eles escancarados ou escondidos atrás de discursos silenciadores e até mesmo de falas bem-intencionadas.

Depois do que ocorreu na Cásper, inúmeras versões e comentários ofensivos foram disparados nas redes sociais, e é justamente por isso que vamos falar sobre transfobia, e não sobre um caso isolado que já está poluído com opiniões sem embasamento sobre a instituição ou sobre o aluno.

Muitos alunos e alunas trans, ao entrar na universidade, se deparam com o preconceito por parte de alguns colegas de sala e demais alunos das instituições, que, voluntariamente ou não, desrespeitam e silenciam sua identidade de gênero. Porém, mais preocupante que isso é a transfobia embutida no discurso de professores, coordenadores, diretores. Muitas instituições que dizem acolher e promover a diversidade não têm – e às vezes não fazem grandes esforços para isso – a empatia e o preparo necessários para oferecer à universitários trans um ambiente acolhedor e que respeite todas as diversidades, incluindo às de gênero.

Como havia falado antes sobre propriedade de fala, conversamos com algumas pessoas trans a fim de compreender um pouco mais sobre suas vivências no ambiente universitário:

Lorenze PazUniversidade Presbiteriana Mackenzie (ex- aluno)

“Eu sou um trans não binário. Não me considero nem homem, nem mulher, nem trans homem, nem trans mulher. Eu não posso falar sobre todas as faculdades, mas posso falar sobre o Mackenzie, que foi a que eu tive contato direto por ter feito três anos e meio de Publicidade. Tranquei a faculdade e um dos motivos foi pelo sentimento de que o valor de respeitar os direitos – pra mim muito importante – não era tão importante lá. Ocorreram várias situações em relação a transexualidade. Uma delas foi o pedido que eu fiz para mudarem meus documentos, usando meu nome social, que é Lorenze. O funcionário da instituição não conhecia o processo para mudar o nome social e mostrou total despreparo. Eu fiz um requerimento e nem voltei para ver o resultado porque tinha um amigo que estava nesse processo e estava sofrendo pra caramba. Não acho que eu deveria ter desistido como eu desisti. Mas acho que foi a gota d’água porque foi o momento em que tive certeza de que o Mackenzie não estava alinhado com os meus valores. Temos que saber diferenciar esse lance entre aceitar e respeitar. Mesmo que você não aceite a transexualidade, é preciso respeitar a liberdade e a diversidade de gênero. Enquanto um reitor ou um professor não tiver um filho ou uma filha que transcenda o gênero a que ele foi designado, dificilmente ele vai conseguir criar uma empatia. Eu gostaria de agradecer às pessoas que não criam resistência, aos professores e funcionários que respeitam a diversidade de gênero e que não ficam resistindo a essa mudança, que, independente se as pessoas achem que é boa ou ruim, é necessária, porque está totalmente ligada ao direito de existência de qualquer ser humano”.

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Lorenze Paz. Foto: Genders Brasil

Samuel Silva – Faculdade Cásper Líbero (ex-aluno)

“Bom, nunca foi segredo para ninguém que eu fosse transexual, já que eu não tenho nenhuma passabilidade (o quanto uma pessoa trans se parece fisicamente, se veste e se comporta de acordo com os estereótipos do gênero oposto ao que lhe foi consignado ao nascer).

 No primeiro dia de aula, eu já fui tratado diferente por ser do jeito que eu sou. Todos os meninos da sala perceberam que eu fui designado menina ao nascer, porém, me cumprimentaram como se eu fosse um homem. Mas isso não foi por perceberem que eu era transexual e queria ser tratado assim, e sim por zombaria, provocação. A partir do momento em que eu disse que era homem trans, começou a política de ‘boa vizinhança’ na minha classe. Eles sabiam que não poderiam ser vistos como transfóbicos, então tinham que ter cuidado ao lidar comigo. Eu era muito questionador nas aulas e qualquer pergunta que eu fazia, já achavam que era agressiva. Eu me sentia café com leite, entende? Estava sempre excluído das brincadeiras. Estava sempre excluído de quase tudo. Era como se eles sentissem que era uma obrigação fingir ser meus amigos”.

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Samuel Silva

Benjamin MartinhoFaculdades Metropolitanas Unidas (atual aluno)

“ Eu comecei a faculdade em 2011, bem antes de eu ter conhecimento sobre o que era um transexual, mas depois de um tempo eu fui pesquisar e fiz inclusive tratamentos psicológicos. No final de 2014 eu tomei a decisão e finalmente comecei o tratamento, tomando hormônios e tal. No começo de 2015 fui até a secretaria da minha faculdade para mudar o meu nome da lista de chamada, e não mais utilizar meu nome de registro (da identididade). Eu não tive problema algum com a reitoria, até falaram que era uma coisa muito nova pra eles, que eles não sabiam como proceder, mas que eu deveria conversar com todos os professores e pedir para que eles colocassem o meu nome social na lista de chamada. Nunca tive problemas com funcionários, professores ou colegas da instituição. Não sofri bullying, transfobia ou outro tipo de preconceito. Acho que isso depende muito de como a pessoa (trans) se comporta, se ele conversa com humildade sobre a situação, que vai de encontro com muita religião e ideologia de muita gente. Então, a princípio, acho que você deve entender que a sua readequação ainda é uma coisa muito nova e que se você bater de frente e quiser impor isso de uma forma agressiva, você vai receber uma resposta agressiva. Mas, embora essa seja a minha experiência, eu reconheço que essa realidade pode ser diferente em uma instituição X”.

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Benjamin Martinho

 

Por: Marcelo Gasperin e Yasmine Luna – Fala!Cásper

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