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USP Fecha Vagas Para as Creches da Universidade. Mas Por Quê?

Desde o início de 2015, a Universidade de São Paulo impediu o ingresso de novas crianças nas cinco creches pertencentes à instituição. Hoje, pouco mais de um ano depois, inúmeras mães e pais permanecem sem uma vaga para seus filhos (as), sem uma resposta coerente da reitoria e sem uma previsão para a resolução do problema.

Assim que a informação do corte de vagas foi divulgada, poucos dias depois da data para a qual estava prevista a convocação das crianças, a reitoria justificou que, em função do PIVD (Plano de Incentivo a Demissão Voluntária), que demitiu mais de 10% dos funcionários da USP e desfaleceu inúmeros setores de serviço da universidade, não havia estrutura suficiente para receber novas crianças, já que o corpo de trabalhadores estava defasado.

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Foto: Comissão Creche Mobilizada.

 

Entretanto, logo depois dessa argumentação, a gestão e os funcionários de cada uma das cinco creches escreveram um documento dizendo qual o número de crianças que poderiam atender, mesmo com o desfalque ocasionado pelo PIVD. Atualmente, esse número corresponde a 140 – ou seja, há 140 vagas ociosas, que não foram ocupadas, disponíveis para receber os filhos de estudantes e funcionárias. Dessa forma, repensasse: qual o real interesse da universidade em não reabrir as vagas? Ou seria melhor dizer: ela tem interesse?

Enquanto essa situação, que configura uma falha na assistência social a ser fornecida por uma entidade pública para seus estudantes e um desrespeito aos direitos das mulheres que são mães, se estende, muitas alunas veem, como única alternativa, levar suas crianças para a sala de aula – o que não permite que elas tenham um pleno desempenho no aprendizado e está muito distante de ser uma situação ideal.

Uma dessas mães é Virginia Benatti, 23, mãe da pequena Maria Flor de dois anos e cinco meses, com quem conversamos para entender ao menos uma parcela das dificuldades que essas mulheres estão enfrentando frente ao descaso da reitoria. Virgínia cursa o sétimo período de Oceanografia, porém, como ela mesma ressalta: “Com certeza estaria me formando agora”, não fosse a precariedade estabelecida sobre a abertura de vagas.

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Foto: Comissão Creche Mobilizada.

 

A estudante de graduação ficou dois anos afastada das salas de aula por ter que cuidar de sua filha em tempo integral. Em 2014, em função de confusões na troca de informações com a SAS (Superintendência de Assistência Social), ela não conseguira inscrever Maria Flor. No ano seguinte, em 2015, depois de passar por todos os processos, inclusive pela entrevista com a assistente social, Virgínia recebeu a notícia de que 228 vagas seriam fechadas, e que assim, sua filha não entraria para a creche mais uma vez.

Nesse período, as únicas crianças que entraram foram aquelas que, sendo filhas de docentes, funcionárias ou alunas, já possuíam um irmão ou irmã dentro da creche. Em 2016, novamente, ingressaram somente irmãos e irmãs de crianças que já estavam na creche, mas, dessa vez, houve um corte adicional: filhos de alunas não entraram. Nas unidades da USP localizadas no interior, houve casos de crianças que entraram por meio de processos judiciais, o que não ocorreu na capital.

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Foto: Comissão Creche Mobilizada.

 

No início do ano, Virgínia resolveu que cursaria apenas três disciplinas – o que já tem se tornado inviável para uma aluna que teve que se ausentar por dois anos das aulas, esquecendo partes consideráveis dos conteúdos, e que tem de cuidar de sua filha mesmo enquanto estuda. O cotidiano está nitidamente difícil, mas ela é mais uma mulher de luta: “Não adianta eu ser infeliz e querer fazer minha filha lutar pelos sonhos dela”, diz a estudante. Substancial parte das complicações da vida dela decorre, evidentemente, do descaso para a abertura de vagas.

Famílias e funcionários das creches formaram uma comissão de mobilização que tem organizado ações e atos para reivindicar a abertura das vagas ociosas, porém, até agora, não receberam nenhum retorno da reitoria.

Essas mães e pais estão há mais de um ano sem vagas para suas crianças, e o silêncio da universidade indica que esse período se prolongará. Virgínia e outras mães permanecem sendo prejudicadas por uma grave indiferença da entidade pública.

O fechamento das vagas nas creches configura mais uma das precariedades pelas quais passa a instituição, além de mais um dos desrespeitos contra a mulher. Violência contra moradoras do CRUSP que não receberam a devida atenção, desvinculação do Hospital Universitário, proibição de festas no campus, terceirização dos bandejões, criminalização e repressão de estudantes e trabalhadores. Qual o modelo de universidade pelo qual se anseia?

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Foto: Comissão Creche Mobilizada.

 

Por: Mayara Paixão – Fala!USP

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