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Tolkien e os Contos de Fadas

Tolkien e os Contos de Fadas

Nas últimas décadas, adaptações de obras fantásticas para o cinema e para a televisão, como O Senhor dos Anéis, Harry Potter e, mais atualmente, Game of Thrones, reavivaram a popularidade desse gênero narrativo.

Esse gênero conta com importantes nomes em seu hall de escritores, como George MacDonald, G.K. Chesterton, C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, além dos contemporâneos Neil Gaiman, J.K. Rowling e George Martin. Conhecido em outro momento como contos de fadas, esse tipo de narração possui peculiaridades especiais e muito ricas.

Atentarmo-nos às suas características nos possibilita desfrutar mais do que a fantasia pode nos oferecer. Para tal, neste texto, pretendo apresentar curtos apontamentos sobre o que são os contos de fadas, bem como expor parte de sua importância para nós, segundo o pensamento de J.R.R Tolkien.

Tolkien: Sobre Contos de Fadas

Em Sobre Contos de Fadas, J. R.R.Tolkien inicia sua exposição contrariando o senso comum sobre o referido gênero. Naturalmente, pensamos nos contos de fadas como histórias infantis que giram em torno de pequenas fadas brilhantes, segundo os moldes de Tinker Bell. Nada poderia ser mais equivocado para o autor de O Senhor dos Anéis.

Tolkien, então, nos mostra como erros de tradução e adaptação, somados à influência filosófica moderna, deturparam a estética e o peso primário deste gênero narrativo. Segundo ele, esses erros de tradução e adaptação se devem principalmente, respectivamente, ao Oxford English Dictionary e a Andrew Lang.

Enquanto o primeiro falhou na leitura e tradução de Confessio Amantis, poema de John Gower, o segundo, ao editar sua coletânea de contos, trouxe uma atmosfera infantilizada a histórias que, originalmente, assustavam boa parte dos adultos.

sobre historias de fadas Tolkien
Livro Tolkien

Uma primeira leitura nas versões tradicionais dos contos seria o suficiente para percebermos como essas histórias, definitivamente, não são infantis. A Chapeuzinho Vermelho não é resgatada pelo Lenhador, e o Sapo não se torna um príncipe, após beijado.

Uma segunda leitura nos permitiria perceber que a filosofia impregnada nesses contos podem ser tudo, menos infantis.

A corrupção filosófica se deve ao iluminismo. Uma vez que a razão supostamente daria conta de explicar e sustentar absolutamente todas as coisas, os aspectos imaginativos perderam seu valor público.

Como consequência, os grandes, importantes, belos e terríveis elfos das antigas histórias se tornaram pequenas fadas cintilantes, relegadas aos quartos infantis e sobrevivendo nas bocas das babás menos instruídas nas modas intelectuais de seu tempo

A essência dos contos de fadas para Tolkien

Tolkien defende que o primeiro elemento mais importante dos contos de fadas é o lugar mágico onde a história se passa, o Reino Encantado. A narrativa não se prende à espécie dos personagens, mas sim ao lugar, que seria belo, cativante, mágico e, simultaneamente, perigoso e cheio de desafios mortais.

chapeuzinho vermelho aquarela
chapeuzinho vermelho aquarela

A segunda grande característica dos contos de fadas para Tolkien é a eucatástrofe. O conceito, criado e sistematizado pelo próprio autor, se refere a uma virada narrativa, repentina e inesperada, que traz consigo a resolução de um problema possivelmente mortal.

Provavelmente, o exemplo mais contundente desse conceito se dá na destruição do Um Anel, em O Retorno do Rei. Frodo, responsável por jogar o Anel nas chamas da Montanha da Perdição, falha em sua demanda.

Gollum, que todos imaginavam estar morto, em uma tentativa de reaver o Anel, ressurge e, por acidente, cai com ele nas chamas da Montanha. A aparição de Gollum e o tropeço, que o leva a concluir a missão de Frodo, não foram acontecimentos esperados; porém, sem eles a história teria um final absolutamente infeliz.

Podemos viver no Reino Encantado dos contos de fada

J.R.R. Tolkien sugere algumas funções desempenhadas pela narrativa fantástica, entre elas a recuperação, o escape e o consolo. Veremos superficialmente cada um desses desdobramentos práticos a seguir.

Tolkien
J.R.R. Tolkien
  • Recuperação

Ao abordar a recuperação, Tolkien pontua que, com o passar do tempo, a vida torna-se monótona e enfadonha. Tudo acontece novamente como já aconteceu no passado; não há mais novidades a partir de um certo momento, e isso rouba o nosso senso de maravilhamento e contentamento com a vida.

Nestes casos, a fantasia é uma ótima aliada. Segundo o autor, este gênero literário nos ajuda a realizar a recuperação. Com esse termo, Tolkien se refere à retomada, isto é, voltar a ver o mundo da forma como deveríamos: como algo belo e prazeroso.

Ter contato com a narrativa fantástica seria como limpar os vidros de uma janela, a fim de vermos o mundo externo de forma mais clara e, assim, voltarmos a perceber o mundo como algo novo e maravilhoso.

Ao lermos sobre Pégaso, o cavalo alado de Belerofonte, os demais cavalos se tornam especiais. Ao lermos sobre o nôitibus em Harry Potter, os ônibus são elevados a uma nova categoria em nossas mentes.

Ao lermos sobre Gwaihir, o Rei das Águias de O Senhor dos Anéis, as águias do mundo real são dignificadas. Os contos de fadas, portanto, nos ajudam a nos apaixonarmos novamente e continuamente pelo mundo real.

  • Escape

Diante dos males físicos, emocionais e ambientais, abundantes em nossa experiência cotidiana de vida, os contos de fadas nos oferecem um rico recurso de escape. Entretanto, não podemos entender com isso que Tolkien era favorável à uma fuga covarde da realidade, mas, sim, defensor do desejo de transcendência da atual condição humana.

A proposta do autor não se assemelha à deserção de um soldado que covardemente foge de uma batalha. Ao contrário, a proposta se assemelha a um soldado, cativo pelo inimigo, que sonha com o mundo além das paredes e das grades que o cercam. Esses pensamentos o capacitam a suportar o sofrimento imediato e, em alguns casos, permitem até mesmo que supere esse estado.

Ao lermos os contos de fadas e sermos expostos a virtudes morais, atos de heroísmos, ao amor sacrificial, a vitórias que contrariam as expectativas, a beleza em meio ao caos e a tantas outras coisas, nós encontramos inspiração para sobreviver às dificuldades diárias que nos cercam, bem como encontramos força para superá-las.

  • Consolo

Retomando o conceito de eucatástrofe, Tolkien nos mostra que outra função dos contos de fadas é a de nos consolar de nossas dores, nos trazendo a esperança diária de que as coisas podem ser diferentes do que são. Essa não seria uma esperança tola e ilusória, pois, na perspectiva do autor, a eucatástrofe também se faz presente em nossas próprias vidas.

Quantas vezes nos vemos em situações desesperadoras e uma virada súbita e inesperada nos traz o auxílio necessário para vencermos o desafio em que nos encontramos? Assim, o contato com as narrativas fantásticas nos reavivam o senso de que nada é fatalmente ruim. Todas as coisas, de alguma forma, podem ser restauradas.

Por fim,

Ficaria muito grato, caso fosse possível, falar mais sobre o tema. Mas espero ter, ao menos, gerado o interesse no leitor de buscar conhecer mais sobre esse gênero tão rico.

Se eu puder sugerir, dediquem também um tempo para conhecer melhor a Tolkien e a Lewis, dois dos maiores responsáveis por manter a fantasia viva, contrariando os anseios técnicos, científicos e racionalistas dos séculos XIX e XX.

Gostaria de finalizar lembrando que o gênero fantástico se baseia em nossas vidas, em nossos desafios e nas nossas capacidades de perpetuar o bom e o belo. Isso quer dizer que, assim como nos livros, não importa o tamanho do dragão que enfrente, eles sempre podem ser vencidos.

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Por Lucas Gonçalves – Fala! Mackenzie

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