TikTok e WeChat: próximo capítulo da novela entre EUA e China
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TikTok e WeChat: próximo capítulo da novela entre EUA e China

TikTok e WeChat: próximo capítulo da novela entre EUA e China

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Donald Trump está tentando proibir o uso dos aplicativos chineses nos EUA

O aplicativo TikTok é a quarta mídia social mais popular do mundo, com mais de um bilhão de usuários ativos. Recentemente, o nome da plataforma circulou entre as principais manchetes por um motivo incomum: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está tentando banir a mídia social do seu território, junto com o aplicativo de mensagens WeChat. 

A decisão tem motivações diplomáticas: as mídias sociais TikTok e WeChat nasceram na China, principal rival econômico e político dos EUA. Segundo o governo norte-americano, há o risco de que os dados dos usuários estejam sendo compartilhados com o Partido Comunista da China (PCC), o que ameaçaria a segurança nacional. 

TikTok
TikTok salienta briga entre EUA e China. | Foto: Reprodução.

Quem são os personagens?

Antes de entender o desenrolar da história, é preciso conhecer os personagens principais. O TikTok é um aplicativo onde os usuários gravam, editam e compartilham vídeos curtos em seus perfis. De acordo com a Senso Tower, a mídia social desenvolvida pela ByteDance atingiu 2 bilhões de downloads em abril de 2020, tornando-se a primeira plataforma não pertencente ao Facebook a atingir essa marca nos últimos seis anos.

O WeChat, aplicativo de mensagens criado pela chinesa Tencent, também está na mira de Trump. A mídia social é a maior da China, com mais de 1 bilhão de contas ativas, segundo relatório da Financial Times, divulgado em 2018. A plataforma é vista como um super aplicativo, onde os usuários podem não só enviar mensagens, mas também realizar pesquisas, recomendações e até pagamentos.

Quando tudo começou?

A Guerra Fria da era digital entre EUA e China não é nenhuma novidade. As tentativas americanas de banir os aplicativos são apenas mais um elemento na complicada relação entre as duas potências mundiais, que competem pela hegemonia tecnológica do século XXI. 

Alessandra Libretti é professora de comércio exterior na Universidade Anhembi Morumbi. Ela comenta a situação entre os dois países: “O conflito entre EUA e China vem se agravando desde a elevação das tarifas de importação imposta pelo governo Trump à China em 2018. A pandemia acirrou ainda mais essa batalha, que ocorre tanto no âmbito econômico, quanto geopolítico”.

Uma vez que os dois países são os maiores players do comércio mundial, respondendo por cerca de 20% do total de bens e serviços comercializados no mundo, o conflito entre eles gera um prejuízo para o fluxo comercial global, impactando todos os países.

Completa Libretti. 

A primeira declaração sobre as intenções do governo norte-americano veio do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo. No dia 7 de julho, em entrevista concedida à Fox News, o responsável pela diplomacia americana afirmou que existia uma possibilidade de banir as mídias sociais chinesas do país: “Não quero passar na frente do presidente, mas é algo que estamos considerando”. 

No dia 1º de agosto, Donald Trump declarou a intenção de banir o aplicativo da ByteDance. “No que se refere ao TikTok, vamos proibi-lo nos Estados Unidos”, disse o presidente em uma declaração antes de embarcar no avião presidencial. Segundo ele, autoridades norte-americanas mostraram-se preocupadas com a possibilidade de que essa plataforma fosse utilizada pelos serviços de inteligência da China. 

Claudir Segura é doutor em Processos Cognitivos e Ambientes Digitais pela PUC-SP, universidade onde ministra aula sobre Jornalismo de Dados. Ele explica o posicionamento do governo norte-americano: “Uma das razões para o Trump tentar banir os aplicativos é a falta de controle dos EUA sobre as informações dos usuários. Como eles não têm acesso aos códigos do TikTok e WeChat, eles não podem consultar os dados ali presentes”.

Com base nos conteúdos acessados nas mídias sociais, é possível traçar o perfil das pessoas, e com essas informações, manipular suas opiniões. Esse tipo de ação já foi utilizado nas eleições de 2016 e muito provavelmente já está sendo utilizado novamente.

Completa Claudir.

No dia 6 de agosto, Trump assinou duas ordens executivas para banir do território americano não só o TikTok, mas também o WeChat, em 45 dias. Os textos afirmavam que estaria proibida “qualquer transação por qualquer pessoa, ou com relação a qualquer propriedade, sujeita à jurisdição dos Estados Unidos”, com a ByteDance e a Tencent.

As negociações entre empresas dos EUA e a ByteDance

A medida abriria uma exceção para os aplicativos caso eles fossem vendidos a empresas norte-americanas. A Microsoft foi a primeira empresa a demonstrar interesse na compra das operações do TikTok nos EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. No dia 13 de setembro, após mais de um mês de negociações, a organização veio a público confirmar que a ByteDance havia rejeitado a proposta.

Durante o mês de agosto, a responsável pelo TikTok passou a negociar um acordo com a Oracle, referência em inovações de bancos de dados: as duas empresas selariam uma parceria e a companhia norte-americana assumiria o gerenciamento dos dados de usuários do aplicativo nos EUA. Com essa colaboração, a Oracle teria acesso aos códigos da ByteDance para realizar auditorias. 

A rede de lojas de departamento Walmart seria a terceira envolvida no acordo, responsável por cuidar da parte comercial do aplicativo. A empresa não tem experiência no gerenciamento de mídias sociais, mas procura por uma chance para ampliar sua presença digital, e enxergou no TikTok uma grande oportunidade. 

A data limite para a finalização das negociações sofreu diversas alterações. No primeiro momento, quando Trump assinou a primeira ordem executiva, o prazo era 20 de setembro. Depois, durante uma declaração do dia 11 de setembro, o presidente afirmou que o limite seria o dia 15 daquele mês. Entretanto, um documento emitido em 14 de agosto pelo CFIUS (Comitê de Investimentos Estrangeiros dos Estados Unidos) estipula que a venda deva ser concluída em 90 dias, ou seja, até 12 de novembro. 

A maior divergência entre as organizações está relacionada à participação de cada uma. No último dia 21, os chineses da ByteDance afirmaram que terão 85% do novo empreendimento, enquanto a Oracle ficaria com 12,5% e o Walmart, com 7,5%. Nesse ponto, todos concordam. Mas os norte-americanos afirmam que 41% da ByteDance pertence a investidores dos EUA, o que tornaria a participação americana superior a chinesa. No dia 21 de setembro, a ByteDance emitiu um comunicado alegando que tal afirmação é simplesmente um boato. 

A única unanimidade entre os envolvidos no negócio é a criação de uma nova empresa para representar o aplicativo, chamada TikTok Global, com sede nos EUA.

Libretti explica: “A formação de uma joint point entre a empresa chinesa ByteDance e as americanas Oracle e Walmart seria positivo para a empresa chinesa, uma vez que o mercado americano é o segundo maior em que ela opera”. 

Para os EUA, o acordo também seria benéfico. “As empresas americanas seriam beneficiadas, pois a utilização conjunta da tecnologia usada no aplicativo poderia levar a novos desenvolvimentos em solo americano, com potencial para suplantar a tecnologia chinesa”, completa a professora.  

O que dizem os acusados?

A ByteDance não ficou em silêncio após as constantes acusações do governo norte-americano sobre a segurança dos dados de seus usuários: “O TikTok não está disponível na China. Os dados dos usuários dos EUA são armazenados na Virgínia com um backup em Cingapura. O TikTok nunca forneceu quaisquer dados dos Estados Unidos ao governo chinês e não o faria se solicitada”, disse a empresa.

“Continuaremos a desafiar essa ordem executiva injusta, que foi promulgada sem o devido processo legal e ameaça privar o povo americano e as pequenas empresas de uma plataforma que lhes dê voz”, afirmaram os representantes da ByteDance em comunicado emitido no mesmo dia em que Trump assinou as duas ordens executivas. 

Qual será o fim da novela?

No dia 28 de setembro, o juiz federal do Distrito de Columbia acatou o pedido dos advogados da ByteDance e proibiu o banimento do aplicativo enquanto as duas partes se enfrentam em tribunal. A Casa Branca prometeu respeitar a ordem, mas afirmou que irá recorrer à decisão. 

Após três meses de acusações e defesas, o embate entre Donald Trump e as mídias sociais chinesas não parece estar próximo do fim. O clima entre as duas potências envolvidas está cada vez mais desagradável, o que torna o desfecho dos próximos episódios um grande mistério. 

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Por Bruna Janz, Geovanna Hora, Giovanna Montagner e Maiara Flor – Fala! PUC

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