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Tiago Iorc lança “Reconstrução”

Tiago Iorc lança “Reconstrução”

Por Luise Goulart Duarte e Maurício de Souza – Fala!PUC

Artista surpreende com 13 faixas acompanhadas de videoclipes

Capa do álbum 'Desconstrução', de Tiago Iorc
Capa do álbum ‘Reconstrução’, de Tiago Iorc

Tiago Iorc retorna após 1 ano e quatro meses com o novo álbum “Reconstrução”, para surpresa tanto dos fãs quanto da própria gravadora, que não participou do planejamento do disco. O álbum conta com 13 faixas – abrindo com “Desconstrução” e finalizando com “Sei” – e cada uma delas acompanhada de um videoclipe e a modelo Michele Alves, de 21 anos, foi a escolhida como protagonista de todos esses vídeos.

          A relação desse disco com o anterior, “Troco Likes”, é que – como o próprio título já sugere – em ambos é abordam a questão da internet, particularmente as redes sociais, porém na produção antiga foi abordada mais a submissão, enquanto a atual destaca a libertação. Isso é perceptível, inclusive, ao se comparar as duas capas, de modo que em “Troco Likes” o artista aparece com um sorriso forçado, mantido por meio de prendedores, e em “Reconstrução” ele é retratado mais naturalmente, com expressão mais séria.

          Para compreender a composição do álbum, confira abaixo a interpretação de cada música e vídeo acompanhados do link, e em seguida uma análise geral de sua representação.

Crítica de cada música do álbum Reconstrução

Desconstrução

De cara, a música que abre o álbum mostra uma característica totalmente nova, se tratando do trabalho de Tiago Iorc; um violão Nylon de som brilhante, com um quê de música flamenca – que nunca antes foi utilizado em sua obra –, marca a personalidade intimista do álbum.   

Em relação à temática, existe uma retomada do contexto do álbum anterior, Troco Likes, que aborda os reflexos da sociedade moderna. A história trata de uma moça que, ao tentar se encaixar em padrões estabelecidos no universo online, acabou se perdendo e caindo em depressão; a letra da música gira em torno de sua insegurança e solidão. Insegurança essa, que é retratada no clipe por um olhar vazio diante do espelho; enquanto a solidão é representada a partir de manequins, como se ela fosse só mais um em meio a tantos iguais, fazendo um paralelo com o mundo das redes sociais.         

Há uma contraposição entre a temática reincidente e uma ambientação pouco usada por Tiago. A orquestração ao fundo, composta de cordas e sopros; é uma herança de sua turnê anterior, com Milton Nascimento – reconhecido por sua simples complexidade nas canções.

A ideia da canção se conclui com o suicídio da personagem, fazendo um jogo de palavras; “celular” traz duplo sentido, podendo fazer referência às células corporais ou ao telefone celular, como na frase: “Estilhaçou seu corpo celular”.

Hoje Lembrei Do Teu Amor

Aqui voltamos a linha musical habitual; com acordes e cadências mais simples, batidas marcantes e mais rápidas. O violão de aço pulsante – marca registrada de Tiago – e efeitos eletrônicos também estão de volta.

Como o sugere título, o tema abordado são as lembranças de um amor marcante, intenso e inesquecível, que chegou ao fim. No vídeo, essa representação aparece de maneira criativa, mostrando a história de trás pra frente. São retratados dois momentos distintos no mesmo ambiente: começando com a personagem em foco na parte de fora de uma casa, passando por pratos de petiscos e taças de vinho pela metade, fotos e roupas espalhadas pelo chão, cama bagunçada e chuveiro ligado, não há ninguém; no segundo momento as cenas são revistas da perspectiva do casal, juntos, passando pelas imagens anteriores, como numa retrospectiva desse amor e seus momentos, voltando pra imagem inicial da personagem na varanda da casa; representando o fim dos momentos vividos pelos dois.

Essa é uma das canções do álbum que pode ser interpretada como música de trabalho, sendo acessível às rádios e ao grande público.

Deitada Nessa Cama

Essa é uma daquelas baladas românticas que já fazem parte do repertório de Iorc; introduzida por um piano, seguido por um violão de acordes soltos.

A letra é escrita sob a perspectiva do artista diante de uma mulher, exaltando o desejo e admiração por seus traços e curvas. E o clipe nos insere em um clima de romantismo e intimidade, mostrando a mulher deitada na cama, nua; uma manhã de amor, sem preocupações com o tempo.

Apesar da atmosfera criada, a canção trata de um romance que não existe mais, como na primeira estrofe: “Espero aqui pra ver o Sol nascer, e redesenhar cada curva tua […]”. Ou seja, indica que essas curvas já não estão mais diante dele, e o que resta, então, é a espera por uma luz – simbolizada pela figura do Sol, referindo-se a algo positivo, que seria a ter a mulher novamente.

A concepção geral é simples e utiliza elementos cotidianos. O refrão é tem um peso maior, com batidas marcantes e uma subida gradual da colocação de voz, chegando ao falsete como ápice – ao estilo Chris Martin, da inglesa Coldplay –; logo após, a música cai em um clima de repouso novamente.

Fuzuê

Repentinamente o clima muda, essa é uma música totalmente dançante e cheia de swing, antecipando a sensualidade que se estenderá pelas duas próximas faixas.

O tema central da canção é um amor inconstante, que ao mesmo tempo aborda o romance entre os amantes como algo inevitável, sendo a atração mais forte do que a tentativa de distanciamento, como é perceptível no quinto verso do refrão: “Ora fica, ora solta, ora, vem me ver! ”.     

No videoclipe é usado um jogo de imagens, onde em primeiro plano está ela, e no segundo plano (separados por um tecido branco translúcido) está ele. Os beijos e toques do casal nesse cenário representam um romance flutuante; pois, apesar de estarem se relacionando intensamente, existe um obstáculo entre eles, demonstrando impermanência.     

Tiago usa uma colocação de voz que beira o sensual, algo mais “largado” – o que tem tudo a ver com a letra –; acompanhado, principalmente, por um baixo e uma guitarra que marcam um pulso e convidam o ouvinte para uma dança – como em “Sex Machine” de James Brown.

Faz

Nessa faixa Tiago abusa de toda sensualidade, em todos os aspectos. Batidas marcantes e envolventes, uma melodia falada, elementos eletrônicos que acompanham a melodia.

Aqui não há nenhuma história elaborada a ser tratada; o objetivo claro é expor o desejo e a sexualidade do momento; e também a unidade desse sentimento: “O que tu faz comigo, ninguém mais faz”. O clipe segue a mesma linha, mostrando cenas quentes do casal no chuveiro, em câmera lenta, como se o prazer daquele momento de amor entre os dois fosse algo próximo do eterno.

Durante o refrão o falsete é usado a todo o momento – talvez esse seja mais um dos legados deixados por Bituca, dando a sensação de clímax. Toda essa ambiência é trazida por elementos dos Flashbacks dos anos 80, somados referências da música pop norte-americana.

Tangerina

O clima de balada ainda está presente aqui, batidas eletrônicas acompanhadas de um violão com uma levada pontual. Há ponte recitativa que leva até o último refrão, e a música por alguns instantes vai para outro ambiente – mudando inclusive de tonalidade.

A poesia e o vídeo da canção trabalham, a partir de sua criação, com opostos. A boca feminina pintada de batom laranja (fazendo alusão à fruta) recita a letra da canção, que é cantada por voz masculina (Tiago Iorc). Além disso, existe a presença de oxímoros (figura de linguagem que coloca palavras de significados opostos lado a lado, criando um paradoxo) como “morte divina” e “doce tangerina” – sendo a morte tida como algo bom e a tangerina tida como algo doce – citadas no refrão.

Todos os versos dessa mesma estrofe sintetizam bem o que seria a representação do amor que está sendo descrito, uma vez que o compositor aborda sua sina como “gana suicida”, sendo que a morte causada é retratada positivamente como divindade representando a “doce tangerina”, no caso, a mulher.

Laços

Essa música foge um pouco do padrão que se percebia até então em “Reconstrução”, visto que deixa de lado a ênfase ao amor romântico, abordado na maior parte das outras canções. Sendo assim, a letra valoriza o autoconhecimento e a vida de forma geral.

A primeira cena do videoclipe é de uma moça em um ambiente fechado diante do espelho, porém no lugar do seu reflexo está um manequim (relembra a primeira produção do disco), como se ela estivesse se percebendo e conhecendo a si própria. Na medida que se avança a música, a mesma mulher troca de ambiente, agora mostrada em um campo aberto transmitindo uma sensação de libertação em contato consigo.

Já do ponto de vista técnico, “Laços” é uma concepção simplista. A canção caminha até o fim basicamente sob um violão dedilhado e com sobreposições de vozes; há trechos em que o caminho harmônico foge do habitual por alguns instantes, logo sendo retomado.

Nessa Paz Eu Vou

Nessa música é perceptível a mistura de alguns gêneros musicais, como o Indie, Folk e o atual cenário Reggae nacional. Sendo retomada a ideia de música de trabalho.         

Baseando-se na paz mencionada no título, a canção como um todo gira em torno de um amor fácil e duradouro que proporciona uma sensação de leveza que é retratada também através da melodia e da harmonia simples e constantes.

Além disso, o clipe em preto e branco deixa de lado as cores e chama atenção para a dança do casal no campo, explorando também a questão da plenitude.

Tua Caramassa

Trabalhando com o tema romântico que nega a superficialidade, o compositor baseia sua música na valorização de um amor profundo que vai além das relações carnais e racionais.

A essência de “Tua Caramassa” consiste em um jogo de palavras rápido, com rimas e refrão que grudam na cabeça, juntos de uma melodia que nos abraça.        

O jogo de palavras feito na música no primeiro e segundo verso a partir da palavra “cara” é representado no videoclipe, de modo que se explora o rosto da protagonista de forma descontraída.          

A característica sonora principal dessa canção é a junção de diferentes elementos que constituem um clima harmônico e dançante. Há um violão abafado, baixo e percussão marcantes e com movimento.

Me Tira Pra Dançar

Aqui o clima de balanço, sensualidade e paixão é retomado, sendo bem representado no videoclipe que acompanha tanto a  letra quanto a melodia da canção. O vídeo é em preto e branco, apelando visualmente para a dança com bambolês entre o casal.   

A música passeia por diferentes tonalidades de forma orgânica. Uma mistura de ritmos: Bossa, Samba, Rock; lembrando muito os mineiros do Skank em “balada do amor inabalável”. As sonoridades do órgão, baixo acústico e da percussão é suave e predominante. Tal sonoridade é explorada ao longo dos versos, de modo que mistura a ideia do ritmo e da dança com a relação amorosa.

A Vida Nunca Cansa

Chegando ao final do álbum, essa música abandona os ritmos mais agitados adotando uma certa melancolia e nas próximas duas que finalizam o álbum, o ambiente nostálgico e de reflexão também retornam. Tiago traz de volta a orquestração, junto de seu violão e uma climatização com efeitos eletrônicos. Aqui, a voz sussurrada, “largada”, busca passar outra mensagem.

A letra retoma uma série de temas já abordados anteriormente em outras canções – como a inconstância explorada em “Fuzuê”, a imagem do nascer do Sol de “Deitada Nessa Cama” (dessa vez, abandonando espera e apontando que ele nasceu), a questão da paz de “Nessa Paz Eu Vou” ou a dança de “Me Tira Pra Dançar” – perceptíveis principalmente no refrão.  

O vídeo é simples, mantém o foco da câmera no rosto do casal, de modo que ambos estão de perfil virados de costas um para o outro e o cenário é o mesmo de “Desconstrução”, incluindo os manequins que permanecem fora do enquadramento até o fim do vídeo.

Bilhetes

A ideia de desconstrução de elementos continua presente; essa canção segue de forma simples e linear com uma harmonia que gira em torno de si, trazendo essa sensação de recomeço que o título propõe.

“Bilhetes” também retrata o amor como tema, mas não da mesma maneira que na maioria das outras músicas, sendo uma representação da dor, de modo que o compositor cita a presença de uma cicatriz e o aperto em seu peito.

A letra em conjunto com o vídeo permite a conclusão de que o amor chegou ao fim, uma vez que o casal aparece chorando e ambos isolados um do outro (sensação de que estão de frente, possivelmente em referência ao término) no clipe, enquanto o refrão sugere um momento perturbado no romance, representado pela chuva, mas o compositor diz que pode haver um recomeço quando a chuva passar.       

Além disso há a questão da memória dos momentos vividos pelos amantes como algo do passado em “Lembrar que o que me fere / Também me faz sorrir” e no clipe isso é representado através da cena de uma série de fotos reveladas, que mostram imagens dos vídeos anteriores.

Sei

O videoclipe da última faixa se passa na praia, mostrando inicialmente a areia e o caminhar da moça com pouca iluminação, mas depois a câmera muda a direção e aponta para a mulher diante do nascer do Sol, representando uma sensação de leveza, contemplação e plenitude.       

Aqui o título do álbum é levado às últimas consequências, restando apenas a voz de Tiago junto de um piano; a melodia é guiada por acordes densos que trazem uma sensação de divagação. Talvez haja referência no clima basto de algumas obras de Debussy, como em “Clair de Lune”. Enquanto isso, a letra que finaliza a composição do disco baseia-se no encontro do caminho certo, na libertação e na paz.

Considerações finais

No álbum “Reconstrução”, Tiago Iorc trouxe referências de seu cotidiano e se alimentou do trabalho de artistas que manteve contato – soube distribuir muito bem esses elementos por treze faixas exclusivas, minunciosamente pensadas.   

A concepção do álbum foi tão bem constituída, que é possível traçar paralelos a obras de outros artistas – mesmo que em suposição –, como no álbum de Chico Buarque “Construção”, de 1971. A temática amorosa, retratando as questões existenciais de seu tempo e utilizando de personagens femininas centrais nas composições, é o fio condutor em comum aos dois trabalhos.       

Não há como negar também, a influência de Milton Nascimento nesse “renascer” do artista. Milton, que junto de Lô Borges e companhia de outros músicos incríveis, lançavam o disco “Clube da Esquina” em 1972. A ideia de reclusão para idealização e produção de um projeto musical, de forma autônoma, foi uma novidade da época, sendo retomada agora, em 2019.

Comparando com seus trabalhos anteriores, Tiago ousou mais, sem deixar de lado o bom gosto e o preciosismo musical. Ideias que se entrelaçam, desde fotografias que passeiam entre os clipes; até a condução do arranjo, se utilizando das palavras para dar sentido a cada instrumento e a cada efeito presente. O ambiente íntimo criado coloca o ouvinte/espectador como parte da história contada, como se fosse partilhasse dos mesmos anseios, alegrias e lembranças, dos personagens.

“Reconstrução” obteve um resultado positivo imediato, sendo aclamado por fãs e também pela crítica musical. Prova disso, é a confirmação de um show exclusivo para convidados, marcado para o dia 30 de Maio, em São Paulo. Trata-se do retorno do “Acústico MTV”, após sete anos de pausa no projeto. Tiago foi o primeiro artista convidado, e o repertório será formado, em sua maioria, por música desse último trabalho.

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