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Resenha: Uma Temporada na França


Por Bianca Quartiero – Fala!Cásper

Em tempos de discursos de ódio, pós-verdade e intolerância generalizada, o filme do diretor Mahamat-Saleh Haroun mostra-se extremamente necessário.

A obra conta historia de Abbas, (Eriq Ebouaney) um homem, negro, viúvo, pai de dois filhos e refugiado. A família é da região da República Centro Africana que se encontrava em Guerra Civil e vai até a França em busca de algo que não existia mais em seu país de origem (Bangui): segurança e condições básicas para se viver.

O que mais chama a atenção no filme é a abordagem escolhida pelo diretor. Em nenhum momento se exibe aquelas típicas cenas de guerra, barcos cheios de refugiados, crianças mortas nem nada que possa de alguma forma parecer apelativo. A abordagem é delicada, o diretor consegue ser leve e ao mesmo tempo duro para cumprir o papel social de chamar atenção para a causa.

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Os desejos das crianças chegam a parecer banais se não avaliarmos no contexto. Elas dizem sonhar com um lar em algum país onde poderão se estabelecer, possuir um quarto próprio e seguir os estudos. Outro recorte que ajuda no toque de leveza é o relacionamento amoroso de Abbas com Carole, que por ser um relacionamento inter-racial não era bem visto pela sociedade, mas a temática racial não é tão trabalhada.

Além de Abbas e seus filhos, o irmão dele, Étienne (Bibi Tanga), também é um personagem com uma trajetória interessante, embora com final trágico. O homem é um intelectual e não se conformava com a situação vivida.O filme faz duras críticas a política de imigração europeia. O protagonista Abbas teve seu pedido de asilo negado duas vezes pela França pois não reconheceram ele e sua família como refugiados políticos. Além disso, mostra-se policias pedindo documentos para “suspeitos imigrantes” e os obrigando a deixar o país em caso de ilegalidade. Isso evidencia a maneira como foi e até hoje é tratado essa temática, como algo puramente burocrático e não como de fato uma crise humanitária mundial.

Atualmente, líderes de grandes economias como os Estados Unidos realizam medidas que cada vez tornam mais difícil a entrada desses migrantes no País. O presidente Donald Trump tem uma clara política anti-imigração e no ano passado, em meio ao auge da crise migratória, retirou os EUA do Pacto Mundial da ONU sobre migração e refugiados que prevê melhorias do gerenciamento internacional das crises migratórias. Algum tempo depois declarou que iria liberar a entrada de refugiados no país mas com a condição de uma fiscalização mais rígida com 11 nacionalidades, em sua maioria muçulmanas. A postura do presidente choca, mas infelizmente não está isolada no cenário mundial. Na Hungria, o primeiro ministro do país, considerado conservador, adotou políticas de não acolhimento desses refugiados, como a construção de um muro de 175km na fronteira com a Sérvia e a aprovação de uma lei que pune em até 3 anos de prisão quem entrar ilegalmente no país, além da permissão de deportar essas pessoas.

Essas atitudes só evidenciam a xenofobia e o descaso das grandes economias com os refugiados – muito além da empatia, falta respeito à vida dessas pessoas que imploram por condições básicas. Esse apelo nunca foi tão forte, já que a atual crise migratória foi considerada pela ONU como a maior crise humanitária do século. A reação dos países que deveriam justamente acolher essas pessoas é o contrário do esperado.

Analogamente com a atual crise, o mito da torre de Babel conta a história de um povo que construiu uma torre para alcançar os deuses. Aos serem descobertos, foram castigados sendo segregados em idiomas diferentes, e assim a comunicação não era mais possível. Os refugiados e esses países não se comunicam entre si, não necessariamente por causa do idioma mas sim por um desejo geral, mesmo que interno, de segregação e isolamento, que é claramente denunciado no filme. Ao invés de estarem construindo pontes, constroem-se cada vez mais muros que nos separam cada vez mais daqueles que não se encaixam na nova ordem mundial.

Mais do que nunca ver, discutir e ler sobre trabalhos como o filme Uma Temporada na França é indiscutivelmente necessário. Abbas e sua família são apenas caricaturas dos milhares de sírios, nigerianos, haitianos entre outros que buscam desesperadamente um refúgio.

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1 Comentário

  1. Dr.prof.Felipe Benatti
    2 anos ago

    Escritora mto boa

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