Supervia: Ricardo Porto analisa os desafios de quem depende do serviço
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Supervia: Ricardo Porto analisa os desafios de quem depende do serviço

Supervia: Ricardo Porto analisa os desafios de quem depende do serviço

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Em reportagem ao n°ZERO, o Jornal Laboratório da UFRJ, o jornalista Ricardo Porto, na época aluno, ouviu reclamações de usuários da Central do Brasil 

Supervia
Supervia: Ricardo Porto analisa os desafios de quem depende do serviço. | Foto: Reprodução.

Precariedade, reclamações e descaso. A Supervia, concessionária que administra o sistema ferroviário fluminense, não é para amadores. É isso que mostra Ricardo Porto (hoje, ex-aluno da UFRJ e jornalista da Rádio CBN), por meio da matéria A hora do rush sobre os trilhos. O trabalho foi publicado na edição n°18, intitulada Bastidores, do Jornal Laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Inicialmente, o texto traz insatisfações de quem utiliza a Supervia diariamente: superlotação, intervalos irregulares, frota insuficiente, calor e precárias condições de higiene. “Alguns parecem latas velhas com cheiro de óleo queimado”, destaca a usuária, do ramal Campo Grande, Maria José.

Ainda na primeira página da reportagem, há um retrato da banalização do sofrimento de quem depende do sistema ferroviário. “Por que você está tão nervosa? Isso acontece sempre”, falou uma senhora à Ana Carolina, passageira do ramal Japeri, quando esta demonstrava sinais de nervosismo e angústia. É inadmissível que um ser humano seja obrigado, pela falta de opção, a se submeter a tamanho desrespeito e precariedade.

No decorrer da leitura, os relatos dos personagens da reportagem  — os passageiros e o assessor de marketing da Supervia  — ajudam a embasar o tema. Isso dá credibilidade,  permitindo ao leitor se aproximar e se convencer do exposto. Desse modo, percebe-se que os depoimentos, inseridos em texto corrido, funcionam como mecanismo articulador e sensibilizador da escrita. 

New Journalism: a literatura no texto de Ricardo Porto

Se olharmos o trabalho de Porto com profundidade, é possível notar traços do “New Journalism”. Esse estilo, que surgiu nos Estados Unidos, na década de 60, dá um toque literário à escrita jornalística. A ideia é, como em um livro clássico de ficção, descrever ao máximo os ambientes, efeitos e sensações em torno do fato narrado. Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote se destacam nesse Novo Jornalismo, o Jornalismo Literário.

Sensível, sutil e sedutor. Nesse campo, o primeiro parágrafo do texto, o lide, traz uma descrição, além de convidativa, um tanto poética, do local, típica de filmes e livros de Literatura. “Cada passo que se dá no contra fluxo da multidão é um transtorno”, introduz Ricardo. Esse aspecto oferece uma prévia, ao leitor, do assunto abordado e o insere, paulatinamente, no conturbado contexto da concessionária que administra os trens do RJ. 

Uso do box de informações

Virando a página do jornal, um box de informação traz pontos turísticos próximos a estações de trem. Isso gera um contraste com o teor do corpo (body) do texto em si, o qual apresenta fortes críticas ao sistema. Logo, o leitor é sutilmente convidado a “dar um tempo” na leitura pesada, recheada de pontos nocivos da Supervia, e olhar para o que os trilhos dos trens podem oferecer de bom. 

Ao final do texto, há outro quadro – “o trem não é privado” – dessa vez, informando a diferença entre privatização e concessão. Esse recurso torna o texto mais acessível ao leitor desatento, que porventura não tenha esses conceitos tão claros em mente. É uma forma de capturar a atenção do público, deixar a mensagem mais compreensível para quem lê e democratizar (e “mastigar”) a informação.

Dados da Supervia

Central do Brasil
Usuários acompanham horários das composições, na Central do Brasil. | Foto: Reprodução.

Somado a isso, Porto, de modo a reforçar e comprovar a veracidade das informações, por ele dissertadas, emprega expressivos números. Eles ilustram, por exemplo, a quantidade de passageiros que passam pela Central do Brasil todos os dias, os intervalos entre viagens e as porcentagens consideráveis de falhas técnicas. O resultado alcançado é o seguinte: um leitor, progressivamente, impactado, persuadido e engajado com a leitura. Vemos, aqui, a importância do uso de dados, em uma reportagem, a fim de contextualizar a questão abordada.

Por outro lado, as ações ligadas à Supervia (como, “o serviço passa para a esfera estadual”, em 1994; “a empresa que ganhou a licitação para a concessão do serviço começou a operar”, em 1998; “compra de 10 novos trens coreanos”, em 2005) são situadas espacial e temporalmente ao longo do texto. Além disso, o uso de horas/minutos também é frequente.

O presente trabalho de pesquisa de Ricardo Porto, que inclui a escolha de personagens e a tomada de informações, merece ser contemplado. Ele colheu dados com o então assessor de marketing da Supervia, Thiago Nehrer (uma fonte oficial, no jargão jornalístico). Os usuários do serviço (fontes independentes) também foram ouvidos. Isso deu propriedade à matéria. 

Diagramação da reportagem

Em relação ao design da matéria, há fragmentos destacados, entre as colunas de texto, de depoimentos das pessoas que foram entrevistadas para  a confecção do texto. No jargão do ofício são os olhos. “Imagina se tivesse uma grávida ou alguém passando mal?”, “confirmação de trem é igual a estouro de boiada” e “todos os trens em circulação possuem confiabilidade, embora alguns não sejam confortáveis” são exemplos. Essa técnica deixa a reportagem visualmente mais atrativa, desperta a atenção do leitor e o impulsiona a entender, a fundo, a temática.

De um lado, rivais; do outro, aliados

Em meio a críticas e desagrados, a Supervia e os usuários convergem em um ponto: a inconveniência dos cultos religiosos nos trens, prática “proibida pela 8ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, em liminar concedida ao Ministério Público, em setembro de 2009”, aponta Ricardo Porto. Momento do texto curioso, pois, mesmo após a explanação de problemas do péssimo serviço e das indignações das pessoas, o autor consegue encontrar um traço de alinhamento entre a empresa e o freguês.

Conclusões

Ao final da reportagem, um comentário manda um recado ao leitor.  O trabalho de conservação da frota é uma via de mão dupla, não devendo partir apenas da Supervia. É necessário que os próprios passageiros colaborem de modo a “manter a limpeza e evitar a degradação dos trens”, observa o usuário do ramal Japeri, Igor Soares.

O jornalismo e seu papel social pautam a matéria (veja aqui o que diz Alberto Dines sobre a questão). Porto desenvolveu algo especial: fez de um acontecimento corriqueiro um interessante trabalho e fez dos passageiros verdadeiros protagonistas da matéria. Ele abriu um espaço na mídia para contar histórias de pessoas e de suas humilhações cotidianas em “a hora do rush sobre os trilhos” fluminenses. 

Sendo assim, a problemática tratada no texto é de extrema relevância à população. Frequentemente, moradores do Rio de Janeiro, usuários do trem são prejudicados e esquecidos pelo desserviço prestado pela Supervia. É desumano comparar o momento em que as portas do trem se abrem, e a correria para conseguir lugar, com o estouro de uma boiada.

É inaceitável, e um tanto quanto irônico, o assessor de Marketing da concessionária, na tentativa de justificar e suavizar as insatisfações dos atrasos dos trens, comparar o deficiente sistema fluminense a metrôs de países de primeiro mundo, alegando que nestes também há atrasos. 

Tumulto na Central do Brasil: Supervia x Passageiros e Jornalistas 

Em 2009 (ano anterior à publicação da reportagem de Ricardo Porto), funcionários da Supervia retiraram jornalistas da Central do Brasil e agrediram um cinegrafista em tumulto, na estação. A confusão começou depois de (mais) uma falha que paralisou as partidas de trens.

Confira o vídeo aqui!


Obs.¹: O n°ZERO é um informativo produzido por alunos da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ na disciplina de Jornal Laboratório, sob coordenação acadêmica da professora Cristiane Costa e coordenação gráfica e design de Maria Cecília Castro. Edição disponibilizada gratuitamente em: https://eco.ufrj.br/index.php/jornal-laboratorio.

Obs.²: A reportagem analisada neste ensaio crítico pertence à edição 18 (2010/2) do n°ZERO.

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Por Ana Paula Jaume – Fala! UFRJ

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