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A vontade de ‘tirar a própria vida’ e o relato de quem já enfrentou essa realidade

A vontade de ‘tirar a própria vida’ e o relato de quem já enfrentou essa realidade

Por Beatriz Issler e Leonardo Martins – Fala! Cásper

 

Tentar tirar a própria vida tem sido uma maneira crescente de acabar com os problemas. Desde a nossa criação, por conta de aspectos religiosos e culturais, o suicídio não é um assunto falado na mesa do jantar. Pesquisas revelam que, se 30 pessoas se reunissem em uma sala, 5 delas já haviam pensado em suicídio. Então, por que não falar sobre o assunto?

“Não é um tema fácil, virou um tabu, mas a proposta do CVV é quebrar essa imagem”, disse Antônio, voluntário do Centro de Valorização da Vida, fundado em 1962, com o intuito de ser um espaço gratuito para as pessoas de todos os tipos poderem desabafar sobre suas vidas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), por ano, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio no mundo, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Esses dados, quando apresentados em números e estatísticas, tornam abstrata a gravidade da situação.

Consoante à Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), no Brasil, a média de suicídios registrados é de 24 casos por dia. Em um ano, esse número pode chegar ao equivalente de 8 mil pessoas, isto é, 8 mil sonhos, histórias e lembranças que foram entregues ao silêncio da morte.

Naufrágio. Ilustrador: Susano Correia

 

Por Quem Sentiu de Perto

“A pior parte era acordar. Era um momento em que, se eu pudesse, dormiria para sempre. No momento que eu acordava já me sentia mal porque eu precisava voltar pra realidade, e a realidade era horrível pra mim”, contou Bianca*, universitária de 20 anos de idade, enquanto mexia repetidamente nas unhas ao relembrar a história de 3 anos atrás.

O ano de 2014 para Bianca não foi fácil. A filha única de 17 anos viu os pais se separarem após anos de processos judiciais, idas e vindas e discussões financeiras. Aluna do segundo colegial, ela se desentendeu com o grupo de amigas com as quais dividia sessões de maquiagem e band-aids desde a infância e, como se não bastasse, pouco tempo depois, o término do seu namoro de um ano e dois meses aumentou ainda mais a pontada do vazio que sentia ao ouvir o som do despertador.

Escombros. Ilustrador: Susano Correia

 

 

O acúmulo de frustrações levou Bianca à beira do abismo, “eu me sentia sozinha e depois de um tempo comecei a querer ficar sozinha”, afirmou com os olhos profundos.

“Eu pensava em suicídio constantemente, planejava e muitas vezes me tranquei no banheiro olhando para vários vidrinhos de remédio. Eu só precisava de um pico de coragem, até que enfim eu tive”.

Apesar da decisão, Bianca se arrependeu logo na sequência. Segundo ela, assim que começou a se sentir mal, ligou para seu pai, que saiu correndo do trabalho para socorrê-la. No hospital, recebeu os atendimentos médicos necessários, “eu fui para um hospital público e fiquei no corredor, não cheguei a ir para um quarto. Eu via as pessoas no hospital e pensava que talvez minha vida fosse muito boa, porque eu via a situação delas e nem assim elas chegavam a fazer isso”.

Depois de ser consultada pelos psiquiatras do hospital, Bianca foi diagnosticada com depressão, o que não foi uma surpresa, já que a doença está presente no histórico familiar da jovem. Entretanto, segundo a psicóloga Ana Lúcia Barbieri, quem tem depressão pode nunca tentar tirar a própria vida.

“Uma pessoa deprimida pode nunca tentar se matar, não é um fator determinante. O fato é como a pessoa lida com as coisas da vida dela”, afirmou Barbieri.

Algumas pessoas falam. As pessoas não escutam. Sobre isso, a psicóloga Ana Barbieri explicou que: “quando uma pessoa diz que vai se matar, ela não está brincando, não é pra chamar atenção. Negligenciar a situação é a mesma coisa que não dar ouvidos a um pedido de socorro. Quando ouvimos alguém com profundidade, também começamos a nos ouvir. É um ganho dos dois lados”.

Saboreando. Ilustrador: Susano Correia

 

O ato de conversar é o primeiro passo para desenhar os sentimentos. Ainda segundo o voluntário do CVV, Antônio, “a causa primária é a pessoa não conseguir falar o que acontece com ela, o tal do bloqueio das palavras. As causas secundárias são as circunstâncias que catalisam o processo de suicídio, como perda de emprego, brigas amorosas, entre outras desilusões”, definiu.

Bianca sentiu isso quando “um professor passou uma atividade na sala, que era pra falar sobre os próprios defeitos, e eu falei que eu era egoísta, desequilibrada e depois eu comecei a chorar. Foi um momento em que eu expus isso para os outros e, ao mesmo tempo em que falei, descobri isso em mim e pensei: não quero ser assim, não quero ter esse tipo de coisa na minha personalidade”, afirmou.

O que Bianca chama de coisa, o publicitário de 24 anos de idade, Bruno K., sabe explicar do que se trata. Aos 50 anos, sua mãe Ivone* foi diagnosticada como maníaca depressiva, doença mais conhecida como bipolaridade.

Ele conta que, ao mesmo tempo em que para ela foi um alívio descobrir, também foi um choque, já que “ninguém quer ser uma pessoa doente”. Após o diagnóstico, ela pôde começar um tratamento voltado para suas necessidades específicas, e em sua rotina, além dos remédios prescritos e acompanhamento psicológico semanal, Ivone* teve de regular sua alimentação e seu sono. Sem isso, conta Bruno, o sofrimento de sua mãe seria muito maior.

Quem não está bem, acaba envolvendo as pessoas do entorno, e cabe a elas o papel de escutar, compreender e levar a sério os sentimentos que são difíceis de transformar em palavras.

“A melhora foi uma coisa muito gradual. No ano seguinte eu comecei a fazer teatro e isso me preencheu. A arte salva, ela é mais importante que a educação pra mim. Ajudou muito a me recuperar”, ressaltou Bianca, que entre consultas e tarjas pretas, preencheu sua semana com atividades artísticas.

Reservou, entretanto, seus domingos para fazer trabalho voluntário com crianças de um abrigo, no qual a cada semana preparava uma receita diferente em uma oficina de culinária.

“Eu pensei em conhecer a realidade de outras pessoas, para ver que a minha vida não é tão ruim assim também”.

Comovida com a informação que 90% dos suicídios podem ser evitados, a jovem fez questão de deixar um recado, resultante do seu passado: “tenha calma e não desista. Você é a única pessoa que não pode se abandonar. Por pior que você esteja se sentindo, mesmo que você tenha que tomar remédio, mesmo que precise de muita ajuda e força de vontade, você vai melhorar”.  Já mais à vontade sobre o assunto, com um sorriso no rosto e brilho nos olhos, Bianca afirmou que, desde então, nunca mais pensou em suicídio.

 

*nomes fictícios

 

Para falar mais, para ouvir melhor:

– Pergunte “como você está?” e ouça sinceramente a resposta

– Não tenha medo de dizer como se sente

– Escolha pessoas que poderão ajudar

– Sensibilize-se sobre o sofrimento de quem está ao seu lado

– Saiba ajudar sem tomar as dores

– Não abafe o sofrimento do outro com a frase “vai passar”

– Ponha-se no lugar das outras pessoas

– Site CVV: www.cvv.org.br / Tel: 141

– O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

 

Confira também:

– A responsabilidade da mídia e o tabu em falar sobre o suicídio

– Depressão – como tratar o mal do século que assombra a nossa geração

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