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Mas tem na Netflix? – rumo à democratização do cinema

Mas tem na Netflix? – rumo à democratização do cinema

Novas maneiras de narrar e de assistir filmes estão surgindo para mudar o modo como consumimos cinema, e elas estão aqui para ficar. Especialistas e consumidores debatem sobre a democratização do cinema através do streaming

democratização – Numa época na qual ponderamos a construção de muros nas fronteiras entre os países, o mexicano Alfonso Cuarón chega ao Academy Awards de 2019 com 10 indicações. O filme Roma, que se passa no México dos anos 70, é o primeiro em língua espanhola a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, o prêmio mais importante da noite. O filme, porém, possui uma peculiaridade: é exclusivo para assinantes da plataforma Netflix e, por esse motivo, foi obrigado a ficar fora da competição anual de Cannes, que exige que todos os filmes concorrendo à Palma de Ouro sejam exibidos nos cinemas franceses.

No Brasil, Roma só recebeu sessões nas capitais paulista e carioca, e foram todas gratuitas – porém, a maioria em shoppings localizados em áreas de alto custo de vida, alguns desses que nem possuem entrada para pedestre. “Temos um problema: o cinema elitizou.” diz Vebis Junior, mestrando e pesquisador na área de cinema e mídias móveis “Essa coisa de combater a pirataria fazendo filme que só tem exibição em 3D, salas de cinema dentro de shopping, por natureza o cinema tem um recorte em seu público que é destinado à elite” completa.

Após ganhar 3 Oscars na noite de 24 de fevereiro, Roma torna-se o primeiro filme “de streaming” a ser premiado pela Academia, e isso causou grande estranhamento nos veteranos da sétima arte. Steven Spielberg, atual governador da academia, anunciou que pretende criar regras que dificultam a entrada de filmes do tipo, e a Netflix rebateu:

“Nós amamos o cinema. Mas também amamos: acesso às pessoas que não podem ir ao cinema, ou que moram em cidades sem cinemas; deixar que todo mundo em todos os lugares desfrute das estreias o mesmo tempo; dar aos cineastas mais formas de compartilhar sua arte.”

Mas será que a Netflix democratizou mesmo o acesso ao audiovisual? Paulo Marcelo do Vale, professor na Academia Internacional de Cinema, compartilha sua versão da história:

“Quando eu era pequeno não tinha isso, precisava esperar o Corujão da Globo passar. Tinham muitos filmes que eu conhecia por meio de fotos e livros e só fui ver depois. E hoje as novas tecnologias são de fácil acesso, então eu acho isso bom.”

Paulo diz que, apesar de ver com bons olhos as novas tecnologias, ainda precisa ser nostálgico: “Quando o acesso era dificultado, não existia download e nem streaming, o filme criava uma aura. Eu queria ver Metropolis do Fritz Lang, lia sobre ele em livros mas nunca tinha visto porque não tinha acesso”, conta, “quando passava no Corujão ou quando saiu em fita cassete, o filme não precisava nem ser bom, eu já tinha opinião formada” explica.  A aura benjaminiana a qual Paulo se refere pode ser o motivo pelo qual os diretores mais românticos não têm interesse em flexibilizar suas obras, mas os especialistas também falam numa tal de imersão:

“O cinema ainda é uma obra,” diz Vebis Junior “quando a luz se apaga, a única coisa que existe é você e a tela do cinema. A partir do momento que a pessoa já tem uma extensão de seu braço numa tela de celular, e ela acha que até o entretenimento dela deve estar na tela, a imersão não acontece. Ela pode ser interrompida várias vezes por mensagem.”

A imersão é uma das etapas principais do processo do consumidor de audiovisual. O pesquisador e palestrante dá sua opinião: “Acredito que antes que tenha inovações no formato de imersão, o cinema tá bem mais preocupado em chegar a todos. Essa sensação de que todos merecem ter acesso ao cinema”. Ele explica: “Antes de se pensar numa tecnologia de uma imersão de pessoas, a gente precisa que elas consumam mais produtos audiovisuais. Nossa situação no Brasil é que o brasileiro não conhece e estranha o seu próprio cinema. Então plataformas de streaming têm a ‘bola da vez’ para dar acesso às pessoas aos produtos audiovisuais”, conclui.

Paulo Marcelo, que dá aula de filmworks e roteiro, é mais ambicioso e pondera um novo modelo de premiações:

“O streaming ele não é nem televisão e nem cinema, mas eu coloco mais junto da televisão porque ele foi feito para consumo doméstico. Roma deveria, por causa disso, ser indicado ao Emmy e não ao Oscar. Os dois são prêmios igualmente nobres, só para causas diferentes”.

E vai além: “O mais interessante seria um prêmio pra longa metragem, filmes da Paramount concorrendo com HBO e Netflix”, conclui. “Não importa a tecnologia, o importante é ter uma boa história” diz o roteirista, e compartilha mais uma experiência pessoal:

 “Eu vi 2001: Uma Odisséia no Espaço em VHS, depois em DVD e aí, com dezoito anos, eu fui assistir no cinema e foi uma das melhores experiências da minha vida. Não dá pra ter a experiência de 2001 no celular. Agora, vem a questão do acesso: nem todo mundo do mundo vai conseguir ver 2001 no cinema, eu sou privilegiado de morar numa metrópole. O que é melhor: o filme ser acessível apenas num meio de exibição, ou estar acessível em mais de um meio para mais pessoas?”

“Isso seria uma guerra meio perdida porque as tecnologias estão aí e vieram pra ficar. A gente não ve o cinema em risco. Quando veio a TV, disseram ‘agora a tv vai acabar com o cinema’, e o cinema se reinventou. Mesma coisa com o vhs, o dvd, a netflix. Cada uma das janelas se complementam e não são excludentes entre si.”

Apesar de ser um romântico do audiovisual, o roteirista faz uma comparação: “Se perguntarem ‘Qual o melhor lugar pra ouvir um música clássica em São Paulo?’, eu penso que deve ser a Sala São Paulo, por conta da acústica. Agora, eu nunca ouvi um maestro falando ‘Não ouça em casa, não compre CD do Mozart, ouça só na sala com acústica correta’ Então cabe esse paralelo, a Sala SP está lá, e quem não pode ir ouve por outros meios” conclui.

interatividade – 360 mil – este é o número aproximado de pessoas que deixaram de assinar TV a cabo apenas em 2017, e esse número aumenta cerca de 10% a cada ano. O streaming chega para acabar com dilemas como horários incompatíveis com suas rotinas ou excesso de conteúdo que não vai ser consumido. O consumo de conteúdo via streaming é apenas uma consequência da chamada “bolha ideológica”, o fenômeno do século XXI que permite que as pessoas consumam apenas o que é de seu interesse. Um exemplo de nicho de streaming é o Mubi, o Netflix dos filmes cult e independentes, ou o DAZN, o equivalente ao Netflix de esportes. Afinal, não faz sentido pagar por um catálogo para assistir apenas um canal. O consumidor de hoje também não acha que vale a pena esperar o horário no qual a série é exibida – ele prefere baixar online, ou esperar chegar entrar no catálogo da Netflix.

É por conta da mudança repentina de consumo que surgiu a pesquisa Geek Power, uma parceria entre a Omelete e a Ibope Conecta, que tem como objetivo mapear o comportamento do internauta. A pesquisa é realizada pela internet, e divulgada durante a Comic Con Experience, ou seja, já possui um recorte específico de classe social. A pesquisa aponta que 97% das pessoas que possuem internet consomem vídeos, séries, filmes e músicas através de alguma plataforma de streaming. 95% assiste mais de 3 filmes por mês, e 70% considera a ficção-científica como seu gênero favorito.

“O cinema de gênero – fantasia, terror, ficção científica – ele exige uma experiência mais sensorial porque explora sentimentos mais difíceis de serem explorados” explica o pesquisador Vebis Júnior, “é como se você pagasse para ser enganado durante duas horas”.

Netflix, Amazon Prime, Youtube ou Globoplay – qualquer que seja o seu favorito, os aplicativos facilitam e incentivam o consumo séries e filmes disponíveis na palma da mão, a um só clique de distância. Essa facilidade tem mudado o processo de imersão do espectador e, com isso, obrigando cineastas a procurar novas maneiras de prender sua atenção.

Black Mirror: Bandersnatch, original da Netflix lançado em dezembro, é a primeira produção interativa cinematográfica a ser incluída no catálogo. O filme tem mais de cinco horas de filmagem e cinco finais diferentes – e muitos meios, mas a duração do seu filme depende unicamente das escolhas que você faz.

“É um jogo de videogame com suporte cinematográfico, porque sua produção foi feita igual a produção de cinema, porém a finalidade dele o arquivo final o projeto final se assemelha a um game” diz Vebis, “Só que com um protagonismo do espectador, que é bem relativo, porque há alguns ciclos que você não consegue impedir”, ele completa.

Em sua opinião, “a plataforma de streaming já é parecida com videogames, então até a imersão é maior”. Ele diz isso baseando-se no fato que, em Bandersnatch, a tela tremia perto das decisões, o espectador tinha 10 segundos para escolher ou a escolha era feita aleatoriamente. Todos esses fatores contribuem para que a visão jamais saia da tela, e a mão não saia de cima do cursor. O pesquisador, que possui uma visão otimista quanto às plataformas de streaming, continua:

“A tecnologia deve vir não como o carro chefe, mas como um fator a mais para ajudar a narrativa, para que as pessoas se permitam ser enganadas durante duas ou cinco horas”.

Júnior pode ser formado em Audiovisual e Multimídia, mas o público alvo desse tipo de conteúdo discorda da opinião de seu expertise. Thayná Oliveira, de 20 anos, estuda direito e joga videogames no seu tempo livre desde criança.

Quando perguntada se, ao assistir Bandersnatch, se sentiu mais como se estivesse jogando ou assistindo, a jovem respondeu: “Eu senti que estava assistindo a um filme, apenas escolhendo as cenas que eu gostaria de ver”. Considerou a experiência pouco imersiva, pois segundo ela, “o RPG tem árvores de diálogo, mecânicas de efeito borboleta, e tudo é choice-driven” ou seja, tudo muda com uma só escolha, e as opções são amplas.

“O videogame tem 10 vezes mais imersão, porque você está dentro da história, controlando todas as falas, o ângulo da câmera, o personagem” ela disse, “Bandersnatch oferece escolhas binárias, o personagem vem com uma personalidade previamente decidida. Nos games, você mesmo molda a personalidade do seu personagem”, completa.

Filmes interativos à parte, Vebis conclui seu raciocínio com uma crítica: “Antes de se pensar numa tecnologia de maior imersão para as pessoas, a gente precisa que elas consumam mais produtos audiovisuais”, diz o mestrando, “As plataformas de streaming tem a bola da vez para dar acesso às pessoas aos produtos audiovisuais”, conclui.

e se o seu histórico de pesquisa virasse um roteiro? – As novas narrativas estão em processo de experimentação, e a moda do found footage (como Bruxa de Blair) está sendo lentamente adaptada para algo mais moderno, como um “histórico de pesquisa achado”. Personagens podem ser construídos a partir da sua navegação, de suas redes sociais, stories, posts no facebook, mensagens sms, etc. É uma tendência que está sendo utilizada principalmente pelo terror e o suspense, e não à toa, pois os sustos ou as mudanças súbitas no enredo tornam aquele “cotidiano” de telas em algo interessante e novo.

Paulo Marcelo do Vale explica: “As histórias usavam os meios de comunicação que existiam. No século XIX, usavam cartas. No primeiro found footage, eles usavam rolos de película, e agora celular, ou seja, isso acompanha a tecnologia e os avanços”. Um exemplo é o filme ‘Buscando’, um thriller narrado apenas através da tela gravada do computador, utilizando de ligações no Skype, mensagens, facebook, instagram, vídeos do youtube, facetime como elementos de cena.

Cada vez mais as pessoas assistem filmes pelos seus computadores e celulares, e é isso que torna filmes como Buscando e Amizade Desfeita relevantes. Afinal, com o espectador assistindo em casa, em seu computador, a história parece quase que interativa, como se você estivesse no lugar do personagem mexendo no navegador. Não é a mesma coisa que ver uma tela de computador na escala de uma sala de cinema – assim, não há identificação por parte do espectador. O filme “Buscando” demorou um ano e meio para ser editado – um período de tempo absurdo para um filme de uma hora de vinte minutos – devido a construção de todos os elementos da tela de um computador, e o excesso de informação com o qual somos bombardeados diariamente.

Ao contrário de Black Mirror, que nos apresenta uma visão mais medonha, apocalíptica, que faz o público ter medo de usar o computador sem um adesivo na webcam e o presenteia com uma leve sensação de estar sendo vigiado, a sétima arte tem trazido uma visão mais normalizadora desses novos costumes que o humano possui. Vebis Junior opina: “Hoje em dia, a gente tem stories no instagram e no snapchat. Eles são pseudo-documentários das pessoas, expostas todos os dias em seus perfis sociais”. E quando o assunto é a internet, uma abordagem diferente da típica “a tecnologia é ruim e Thomas Edison era uma bruxa” é um chamativo e tanto.

Por Lais Costa – Fala! Anhembi

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