Menu & Busca
Sobre o preconceito no meio universitário

Sobre o preconceito no meio universitário


Na semana passada, a foto abaixo circulou pelas redes sociais espalhando uma mensagem racista e xenofóbica.

11948490_849762668425193_299720244_o
No grupo de estudos da turma de direito do Mackenzie, a estudante Natalia Lourenço publicou uma imagem da frase a fim de alertar seus colegas e repudiar a mensangem.

 

Vários alunos repudiaram a frase, e pediram nas redes sociais alguma providência, algum esclarecimento, algum pedido de desculpa, ou qualquer coisa que explicasse o motivo de um comportamento tão bizarro como esse.

Por isso, deixamos aqui uma conversa gravada em áudio com Natalia lourenço (do post), Gabriela Alves e Saul Carvalho, ambos estudantes de Direito do Mackenzie, que estão a par da situação e podem nos esclarecer algumas coisas. Confira:

Confira também a opinião de Igor Pires, aluno de Publicidade e Propaganda do Mackenzie, sobre o ocorrido:

Para você entrar na universidade, precisou ler Vidas Secas. Bem como teve de ler Jorge Amado para situar-se mediante a vestibulares dificílimos como a FUVEST. Não menos obstante, você se esforça para entender o contexto e a linguagem de “Morte e vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto. Quando não consegue, abre o Google e lê resumos sobre o livro, afinal é muito difícil assimilar o quão árdua é a vida nordestina, sertaneja, retirante. Mas está tudo bem, sério. Até porque você não é obrigado a conhecer o Nordeste muito menos entender sobre a história do Brasil. Imagina.

Então você tem que ler sobre história do Brasil porque pede-se, novamente, nos vestibulares. Conhecimento básico, primordial, importante: colonização brasileira, escravidão indígena, processos da escravidão negra – e dentro disso, você passa a estudar os pronomes de tratamento referentes à língua: sinhá, vosmicê, ocê. Passa a estudar, também, escambo e processos capitalistas de uma classe sobre outra, passa a contextualizar as formas de sobrevivência e resistência negra dentro do Brasil e assim por diante – assim como outros fatos histórico-sociais que marcaram e ainda marcam nossa vida.
Você então ignora, depois de ter estudado tanto sobre história para entrar na Universidade, a questão nordestina e negra no país. Ignora que a primeira capital do Brasil foi Salvador. Que se não fossem por eles, nordestinos, não existiriam quilombos, literatura de cordel, poesia sobre o agreste, diversidade cultural, intelectual, literária, musical, culinária, paisagismo, escritores fantásticos, a sexta melhor escola do ENEM no ano de 2013 (Instituto Dom Barreto-PI, com média 713), um dos melhores cinemas nacional (Pernambuco), melhores filmes (Febre do rato, Tatuagem, O som ao redor), o estado com mais afrodescendente fora do continente africano – Bahia, amada, solarizada, amanhecida, abençoada.

Você ignora Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Esquece-se do axé, coloca no bolso a capoeira, e mais uma série de contribuições que não cabem num simples texto. Ignoram o samba, acrescido de movimentos, cantos e danças por parte dos baianos. Descreem na força que as mulheres, nos interiores do sertão, carregam com elas: firmes em si, levam baldes com água por quilômetros à procura do descanso.
O que quero dizer é que ser negro e nordestino é demérito nenhum não. Pelo contrário, é por causa de pessoas que resistiram ao apartheid social, que a cidade de São Paulo é uma cidade tão descentralizada culturalmente, além de miscigenada e diversificada. Por causa de nós, negros e filhos de nordestinos, que essa cidade caminha, transcende, brilha, evapora e brilha novamente. Se não fôssemos nós, não existiriam vocês. Também quero deixar claro que a maior fonte histórica, cultural, filosófica, política e social provém de lá, ensolarado, resistente e forte Nordeste. Que caminha, debaixo de um sol quente e da falta de empatia brutal e grosseira de muitos ditos-cujos “brasileiros”.

Por: Marcelo Gasperin e Igor Pires – Fala!M.A.C.K

 

Quer se tornar um colaborar e escrever para o fala?
Saiba como

2 Comentários

  1. 4 anos ago

    Realmente é preocupante quando uma discriminação se manifesta num ambiente de educação “formal” superior como vemos em:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/09/26/educacao-e-criminalizacao-nao-previnem-discriminacao/

Tags mais acessadas