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Só os morros sabem

Só os morros sabem


Minha avó mora no morro. Eu cresci nele. E constatei, mais uma vez – e agora por outro ângulo, o de fora – que é no morro onde as pessoas se abraçam e comemoram, felizes, o reencontro familiar após um dia de trabalho. É lá que descem e sobem, diariamente, para trazer o sustento e por que não dizer, a alegria aos outros da casa – ou barraco, como diz minha ancestral. E diz isso pois não teve estudo, já que de sentimento e abrigo maternal ela entende bem. E por que esta descrição do morro? Vou explicar: a arcaicidade com a qual o pobre e a mulher têm sido tratados na televisão me dá asco. Os roteiristas de televisão não sabem o que é a realidade.
Esta semana passei na casa de vovó, já que estava doente e precisava de alguém que me cuidasse. Ela tem o hábito de ver telenovelas e eu, por estar em repouso, acabei por acompanhá-la nessa rotina. Em 5 dias descobri, através dos roteiristas globais, que o pobre só mata, rouba e, se der sorte e for protagonista, é o mocinho da história. Não menos obstante, percebi que esses mesmos roteiristas continuam a colocar mulheres brigando à procura de homem, como se estivéssemos em plena idade média e a carne masculina fosse objeto de desejo servil e imaculado. Será que eles entendem do mínimo para se apropriarem de uma cultura e, até certo ponto, de um movimento, em prol de audiência por audiência? Pergunto isso em vista da clara falta de tato ao tratar questões simples como liberdade social e sexual que as mulheres dispõem e dos direitos de, como objeto dela mesma, rejeitar este tipo de padrão estabelecido. Alguém precisa avisá-los de que estão completamente equivocados e que o feminismo, bem como a sociedade patriarcal brasileira, ainda são muito fortes e precisam ser melhor esclarecidos. E quando digo em abordarem, não falo de 45 minutos de exposição num programa humorístico. Machismo e qualquer outra forma de opressão morre no instante em que deixam de achar graça. O Zorra Total já perdeu a dela faz tempo.
Mas não é só sobre isso, na verdade. Eu quero mesmo é falar do “pobre”. Quando fazem uma novela mostrando a vida na comunidade ou quando trata-se de exporem a vida de um pobre trabalhador na televisão, me vem questões cruciais como: apropriação cultural indevida, falta de vivência (a priori, a posteriori…) e minimização do tema. Em primeiro lugar, gostaria que os autores e roteiristas parassem com a ideia rasa de que as comunidades só servem de espectro para atraírem audiência através de uma telenovela. Está errado. Porque a comunidade, antes de ser campo para bode expiatório de diretores de novela, é lugar de gente que não quer só ser representada, mas quer representar também. As comunidades não quer se tratadas apenas como laboratório para os atores; elas querem fazer parte do processo real e intrínseco da televisão: que as empregadas negras virem patroas empoderadas; o bandido seja reabilitado e não tenha sua vida execrada por outro; a dona de casa que acorda às 6:00 seja motivo de força enquanto principal atriz de sua vida, não à margem (…) É preciso entender – aliás, que todos entendam – que os ambientes da qual a telenovela se apropria não deve, de maneira alguma, ser silenciados. Ou pior, não devem ser caracterizados com um olhar opressor de quem nunca bebeu água da biqueira, nunca pisou com o pé no morro em dia de chuva, nunca ouviu falar de vizinhas que cuidam umas das outras em dias difíceis.
De modo que é muito aflitivo para mim ver o quão superficial e distorcido é o tratamento e a forma como alguns roteiristas, produtores, diretores de televisão e atores veem a mulher e o pobre. Já está na hora da televisão brasileira, atrasada e preconceituosa, ver o problema como um problema e não como atração televisiva para que assim se combata tanto o superficial quanto o cômico. Ninguém acha graça em ver mulheres se estapeando por causa de macho. Ninguém acha graça em ver mulheres negras como empregadas, submissas à superioridade branca. Ninguém quer ligar a tevê e suscitar o asco que há nelas – nem mesmo eu.

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Por: Igor Pires – Fala!M.A.C.K

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