'Sniper Americano' - Leia a crítica da cinebiografia de Chris Kyle
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‘Sniper Americano’ – Leia a crítica da cinebiografia de Chris Kyle

‘Sniper Americano’ – Leia a crítica da cinebiografia de Chris Kyle

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Certa vez, ao abordar os principais temas do cinema de Clint Eastwood, o crítico Matheus Fiore argumentou que Clint sempre esteve alinhado às principais questões do cinema estadunidense, como os debates morais, o sonho americano, a busca pelo self made man e, inerente a todos esses aspectos, o fracasso, o tema principal do filme.

O filme adapta a autobiografia de Chris Kyle (interpretado por Bradley Cooper), o mais letal sniper da história da marinha americana, observando a partir de seus olhos a guerra do Iraque. Com uma história dessas em mãos, a saída mais fácil seria fazer um filme que aplaudisse a figura do soldado como herói de guerra e nada muito além disso, mas Eastwood decide dar outra visão ao filme e abordar justamente a antítese do sonho, e mostrar como é a verdadeira realidade, longe dos panfletos.

Diferente do que foi visto na representação da Guerra do Vietnã no cinema, a Guerra do Iraque não foi criticada dentro da sétima arte como foi o conflito dos anos 60. A política da “Guerra ao Terror” teve como grande aliada o cinema, demonstrando e pintando os nativos como vilões, não apenas em filmes que retratam o conflito, mas em todos os filmes em que era possível colocar um não-americano como antagonista.

No entanto, recentemente, dentro de Hollywood podemos observar uma mudança de mentalidade no que diz respeito ao conflito. Enquanto nos filmes que falam do Vietnã, a crítica costuma se basear na maneira com a qual os americanos trataram o conflito e a região, os filmes que retratam a Guerra do Iraque têm como maior ponto de vista não a guerra em si, mas as marcas que ela deixou, tanto no mundo quanto nos envolvidos diretamente, e é nessa área cinzenta que Sniper Americano existe.

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Filme Sniper Americano. | Foto: Reprodução/Montagem.

Crítica de Sniper Americano

Em uma visão menos atenta, o filme pode ser realmente visto como uma glorificação do soldado americano, que busca, a partir de uma guerra sem sentido, liberar uma região das garras dos inimigos, mas é exatamente essa visão que o filme critica. Ao longo das mais de duas horas de duração, essa visão heroica é colocada em jogo e questionada diversas vezes.

O estopim para o alistamento foi uma propaganda na televisão e, durante todo o filme, a exposição é mostrada através das diversas telas presentes. Essas cenas são usadas para falar sobre as condições da guerra e o estado do conflito naquele momento, e esse é o principal elemento de um momento-chave para entender a temática e problemática do filme.

Depois de voltar de mais uma temporada no Iraque, o protagonista está em casa, sentado em uma cadeira enquanto assiste a algo na televisão. O som de gritos e metralhadoras são altos e tomam controle da cena, enquanto a câmera se movimenta em direção às costas do personagem, mas, quando chega, temos o clímax da cena, e é revelado que a televisão não está ligada, todo aquele som, toda aquela guerra está impregnada dentro do seu pensamento. Por mais que ele não esteja mais lá, fisicamente, sua mente está presa lá para sempre, revelando o fracasso e a falência do tal “sonho americano”.

Aspectos técnicos do filme

A montagem é um dos grandes trunfos do filme. Se distanciando do tom maníaco e acelerado dos filmes de ação da época, opta por um tom mais sóbrio, não glorificando a violência. A montagem é uma das principais funções para a criação de tensão. Em diversos momentos, planos um pouco mais longos são usados para focar em algo e deixar o tempo rodar, dando mais espaço para o desenvolvimento da história e de personagens.

O design de som tem função importante no tom sóbrio do filme. Tudo parece ter impacto e nada é agradável, o simples barulho de uma ferramente se parece com o de uma metralhadora, ajudando a gerar a noção do não pertencimento de Kyle naquela sociedade “comum”.

Com uma narrativa crítica ao Estado americano e suas políticas belicistas e com uma montagem sóbria, Sniper Americano consegue transformar uma história sobre um “herói” em um conto sobre fracasso.

O vilão da história não é aquele que puxa o gatilho ou quem recebe o tiro, mas sim, o sonho, aquele que foi vendido a vida toda para nós, mas que não passa de uma grande mentira imperialista.

Sniper Americano está disponível na Netflix.

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Por João Pedro Baricatti Nascimento – Fala! Cásper

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