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O slam nas escolas: Para além da manifestação urbana

O slam nas escolas: Para além da manifestação urbana

Olhos atentos, ouvidos ansiosos e uma boca a postos. A respiração que ressoa antes de proferir a fala, já prenuncia: exteriorizar a própria realidade é um desafio. Uma multidão a espera e um único corpo passa a transmitir sua vivência através do gesto, do trejeito e da voz em forma de poesia. Voz que é calada diariamente. A transmutação do sentir de um corpo, no arrepio de cada pelo dos outros corpos, passa a quase ser sentido na pele de tantos.

Agora, esse cenário adentra a sala de aula. Aprender através do construir poético, pensar na expressão subjetiva, no espaço de fala, no exercício de escuta. Aproximação com a literatura, autoria da própria história. Muito mais do que ferramenta didática, é acolhimento.

Slam da Guilhermina, na praça Guilhermina-Esperança, Zona Leste de SP (Foto: Eduardo Pereira/G1)
Slam da Guilhermina, na praça Guilhermina-Esperança, Zona Leste de SP (Foto: Eduardo Pereira/G1)

Surgido nas elites e hoje marca das periferias, o poetry slam é uma batalha de poesia falada, onde os participantes têm até três minutos para declamar sua criação, seja decorada ou improvisada, sem uso de outros acessórios. Apenas seu corpo e sua voz. É uma manifestação cultural e social instaurada no Brasil por volta de 2008, que traz a participação de minorias e a reivindicação das periferias que clamam e declamam o seu direito de existir.

Se nas ruas os slams tem tais características, nas escolas elas se reforçam e são base para a produção de novos significados . Nos últimos anos, o slam têm sido implantado em escolas como uma ferramenta pedagógica, sobretudo na aprendizagem da literatura, no exercício da escrita e na articulação oral. No entanto, quando inserido no contexto escolar, ele desencadeia uma série de transformações que transcendem a educação formal.

Maira Mesquita, doutoranda em Educação pela USP e coordenadora do Núcleo Slam: poesia-corpo-voz do Lab_Arte da FEUSP, aponta o slam como uma ferramenta que ​ultrapassa a estruturação do conhecimento que temos na escola. “Ele choca com a perspectiva disciplinar, e extrapola a sala de aula. Ele não está só na escola, afinal o conteúdo ali produzido tem a perspectiva de ir para um espaço público”, afirma Mesquita.

Emerson Alcalde, um dos fundadores do “Slam da Guilhermina”, segundo Poetry Slam do Brasil, ganhou o campeonato nacional em 2013, e teve a oportunidade de disputar o mundial na França no ano seguinte. Lá conheceu o “slam interescolar”. Encantado com a ideia, quando retornou para o Brasil decidiu trazer o projeto para cá. Ele trabalhava num CEU, Centro Educacional Unificado, na Zona Leste de São Paulo, onde iniciou oficinas de poesias e sugeriu um “slam intersalas”.

Slam da Guilhermina, o segundo poetry slam do Brasil, cujo Emerson Alcalde é um dos fundadores .

Pouco tempo depois, o evento foi adquirindo maior proporção, e ali surgia o Slam Interescolar SP. “Nós abrimos para as escolas irem assistir, e conforme assistiam, reproduziam isso. Vários professores frequentavam o slam e levaram para suas escolas. Tudo partiu da Guilhermina e das nossas experiências pequenas. Ocorreu naturalmente, sem nenhuma grande divulgação. Foram os próprios professores e alunos que fizeram o evento ser ampliado”, contou Emerson.

Esse reconhecimento do professor como peça chave para a implantação e consolidação do slam, foi destacado pela professora Maira Mesquita: “O que isso pode mudar na minha leitura e no meu ensino?” Ela levantou a questão da importância do slam enquanto “dispositivo de criatividade e recriação da perspectiva do educador, para posteriormente ser transmitido aos estudantes.”

Já entre os alunos, protagonistas dessa proposta, o slam propõe a oportunidade de ser ouvido e funciona como um exercício de escuta. Renata Ravok foi participante do Slam Interescolar SP durante três anos consecutivos (2015, 2016, 2017), pela Escola Estadual Prof. Gabriel Ortiz, e ganhou em segundo lugar na edição de 2015. “Infelizmente, é verdade essa coisa de que o jovem não é levado a sério, e o Slam Interescolar mostra que também temos nosso lugar de fala. Eu não sabia que alguém me escutaria e gostaria, que pudesse se sensibilizar ou criar uma empatia com a minha escrita. É estimulante porque você se sente livre para expressar o que você pensa.” relatou a estudante com um sorriso no rosto.

Renata Ravok, participante do Slam Interescolar de São Paulo

Nesse sentido, a doutoranda Maira Mesquita afirma que o slam é um espaço democrático e de escuta de si mesmo. “O slam cumpre esse papel da literatura de provocar a leitura de nós mesmos- a auto escuta, de tocar as sensações. Para performar você precisa estar de corpo e mente presentes.”

Para além de um instrumento pedagógico, o slam nas escolas desenvolve o diálogo entre os jovens, professores e pais. Ele é capaz de estimular o senso de empatia. Entender a si e ao outro, num compartilhamento de realidades tão invisibilizadas. “A competição é um ponto de partida, mas logo é deixada em segundo plano”, afirma Maira. Do arrepio durante o declamar de uma poesia às identificações e trocas que o slam fomenta. Aí está o verdadeiro sentido de comunidade. ”Das escolas para as ruas, das ruas para as escolas!”

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Carolina Lopes Garcia – Fala! PUC

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