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São Paulo: a Arborização Escassa e Desigual da Cidade

Por Anna Capelli, Bárbara Cristina Caldeira e Isabela Barreiros – Fala!Cásper


Verde Paulistano

Além de escassa, arborização na cidade de São Paulo apresenta concentração desigual

 

Estar rodeado de árvores em uma cidade naturalmente cinza e povoada por edifícios pode parecer estranho a quem acostuma os olhos a São Paulo. O verde, presente em sua grande maioria nos bairros mais nobres do território, é privilégio de alguns – o índice médio de cobertura vegetal na cidade é de apenas 11,7%, desconsiderando os bolsões de mata ao sul e ao norte da capital e seus parques. A Avenida Brasil, no bairro Jardim Paulista, é um exemplo disso. Ao caminhar pela via, é possível observar e sentir a diferença que a arborização da cidade traz na vida de seus moradores.

Mas o cenário não é frequente em localidades mais distantes do centro. A realidade é bem diferente: poluição e ar pesado tomam conta de uma paisagem sem cor e tão somente urbana.

Fonte: Prefeitura de São Paulo, 2010

Fonte: Prefeitura de São Paulo, 2010

Pesquisas científicas têm apontado que os benefícios associados a uma boa arborização vão muito além do conforto visual:  árvores são capazes de remover poluentes da atmosfera e umidificar o ar. “O plantio possibilita à população melhoria climática, redução da poluição atmosférica, diminuição da poluição sonora e a melhoria estética e paisagística das cidades” explica Osny Tadeu de Aguiar, biólogo, pesquisador e especialista em arborização urbana do Instituto Florestal de São Paulo. Estudos em cidades da Europa e dos Estados Unidos realizados em 2017 pelo Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) também já apontaram para uma redução da depressão, do risco de morte por doenças cardiorrespiratórias e melhora geral do bem-estar em quem vive em áreas urbanas mais verdes.

Avenida Brasil, na Zona Oeste de São Paulo, engloba os bairros Jardim Paulista, Pinheiros, Jardim América, Jardim Europa e Ibirapuera, alguns dos mais arborizados da cidade (Foto: Isabela Barreiros)

As vantagens consequentes da arborização urbana são refletidas na expectativa de vida dos moradores, que parece ser maior nos locais com índices mais altos de cobertura vegetal. “Tem vários estudos saindo, principalmente, na Europa, na Austrália, no Canadá, e um dos recentes que saiu mostra que na sua rua, se você tiver mais de 11 árvores, viram que é como se você tivesse o coração de uma pessoa um ano e meio mais jovem, que é bacana”, afirma Thaís Mauad, professora de patologia da USP, em entrevista ao portal G1.

Consequentemente, cresce a procura e preferência por essas localidades, e seus imóveis passam a ser mais valorizados. “Existe uma relação entre a valorização dos bairros e a arborização pois são regiões muito convidativas para a prática de exercícios físicos e consequentemente, salutares para o bem-estar do corpo e mente”, esclarece Aguiar. Dos dez distritos mais arborizados de São Paulo, oito deles também estão entre os metros quadrados mais caros da cidade: Alto de Pinheiros, Pinheiros, Jardim Paulista, Campo Belo, Itaim Bibi, Moema, Vila Mariana e Consolação, como indicam os dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras (SMSP), que mostram a densidade vegetal dos distritos paulistanos, e dados da equipe de inteligência da Properati, que revelam os preços médios de imóveis.

Sapopemba, Zona Leste de São Paulo, é o quarto bairro com a menor quantidade de árvores da cidade (Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão)

No entanto, quando comparamos os dez bairros mais arborizados e os dez com os maiores IDH da cidade – a partir da lista municipal de 2016 divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo -, apenas três são comuns às duas listas: Pinheiros, Santo Amaro e Vila Mariana. O número se repete na comparação entre os bairros menos arborizados e os que têm as piores classificações de acordo com o IDH. São apenas: Cidade Tiradentes, Parelheiros e Itaim Paulista.

 

COMPENSAÇÃO AMBIENTAL

Durante a gestão de Gilberto Kassab, de 2006 a 2013, paredes verdes passaram a substituir o plantio de árvores previsto na lei de compensação ambiental, definida no Artigo 36 da Lei Federal nº 9.985/2000. Biólogos usaram uma árvore tipuana média, com uma copa de 36 m², para fazer o cálculo de que uma desta equivalesse à 300m² de parede verde.

Já na gestão de Fernando Haddad, de 2013 a 2017, a instalação dos jardins verticais foi regulamentada a fim de compensar as áreas desmatadas para a construção de um condomínio no Morumbi, na Zona Sul da cidade. O acordo fechado com a construtora Tishman Speyer substituiu o plantio de 26.281 árvores pela instalação de 14.600 m² de paredes verdes em prédios na região do Minhocão. No entanto, para que a compensação ambiental fosse efetiva, 7,2 km² deveriam ser instalados.

João Doria alterou o plano de Haddad, e deslocou as paredes verdes remanescentes para muros públicos da Avenida 23 de Maio em vez de prédios privados da região do Elevado Presidente João Goulart.

Considerando uma parede única, e não um corredor, isso equivaleria a um muro de 1.577 quilômetros.

Fonte: Folha de S. Paulo


Este muro, portanto, precisaria ir até Cuiabá ou até Porto Seguro:

Fonte: Folha de S. Paulo

 

As paredes verdes são interessantes como soluções paisagísticas mas não são viáveis quando comparadas ao plantio compensatório com árvores. Elas contribuem na produção de água, diminuem a poluição, regulam a temperatura e o barulho, são abrigo e alimento de pássaros entre outros animais” conclui Aguiar.


PROJETO PARA DEIXAR SAMPA MAIS VERDE

Pistas de skate e de Cooper e caminhada, quadras poliesportivas, campos de futebol e, principalmente, várias árvores. Quem anda hoje pela Avenida Governador Carvalho Pinto, ao longo da qual está o Parque Linear Tiquatira, na Penha, Zona Leste de São Paulo provavelmente não imagina que a paisagem era muito diferente há pouco mais de uma década. Em 2003, Hélio Silva iniciou seu projeto de arborização voluntária em São Paulo enquanto passava pela área, e 40 meses depois, a prefeitura transformou o Tiquatira no primeiro parque linear da cidade, com mais de 170 espécies nativas da mata Atlântica. Atualmente, Hélio já plantou mais de 22 mil árvores e em julho de 2017 estendeu o projeto à Ponte Estaiada do Tatuapé, localizada sobre a avenida Salim Farah Maluf.

E deixar o seu bairro mais verde não é tarefa difícil: a Prefeitura de São Paulo fornece mudas para plantio em parques, escolas, praças e outras áreas. É só ir até o Parque Ibirapuera, o Parque do Carmo, em Itaquera ou o Centro Municipal de Campismo, em Cotia, e retirar a sua muda, tudo grátis. Cada cidadão pode retirar até quinze delas por ano – sendo dez árvores e cinco herbáceas, arbustos ou flores.  

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