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Residentes e Resistentes – A História e a Realidade da Casa Amarela

Residentes e Resistentes – A História e a Realidade da Casa Amarela

Em dois anos de ocupação da “Casa Amarela”, coletivos se alternam e abrem espaço para atividades artísticas e convívio cultural. Entretanto, problemas jurídicos e de convivência apontam uma possível crise.

Quem desce a Rua da Consolação consegue avistar, no cruzamento com a Visconde de Ouro Preto, sentido centro de São Paulo, uma mansão de três andares e mais de 40 cômodos, internos e externos. Avaliada atualmente em 12 milhões de reais pelo mercado imobiliário, é considerada patrimônio histórico tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), pertencia, por lei, ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e passou a pertencer à Prefeitura do Estado de São Paulo no ano de 2015.

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Foto: Nina Ratti.

 

Pé direito alto, vitrais coloridos, adornos de época e afrescos compõem padrões arquitetônicos de um cenário paulista já extinto, padrões estes que se distorcem em meio a pichações e grafites. A “Casa Amarela” – como conhecida popularmente por sua cor de fachada – é um espaço público aberto a coletivos e artistas independentes, que têm como objetivo expor seus trabalhos.

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Foto: Nina Ratti.

 

Um ponto de encontro e de moradia – que se faz atualmente pelos integrantes do movimento Todo Mundo Treze (TM13) -, posicionado entre a Avenida Paulista e a Praça Roosevelt, que suscitou a mobilização de diversos artistas e coletivos originários de todas as zonas da cidade. Os atuais residentes estão no local como forma de resistência e reivindicam a criação e a manutenção de espaços culturais por parte do Poder Executivo, para que estes abriguem atividades, ensaios, cursos e apresentações, mas que permaneçam livres e gratuitos.

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Foto: Nina Ratti.

 

Dança, aula de guarani, roda de cura xamânica e grafite são algumas das inúmeras manifestações artísticas das quais o casarão é palco. Eventos de entrada franca ou colaborativa são organizados pelos próprios coletivos e a agenda pode ser encontrada na página do Facebook “Quilombo Afroguarany Casa Amarela”. Além disso, existem planos para a criação de uma web rádio e um canal online para melhorar a divulgação do espaço.

A ocupação ocorreu pela primeira vez no início de 2014, quando um grupo de artistas da Cooperativa Paulista de Teatro tomou o local e propôs um ateliê compartilhado. Desde então, mais duas gestões se intercalaram na administração do espaço da casa, e muitos conflitos estiveram presentes. Como, por exemplo, o confronto entre a tentativa de transformar o local em um espaço cultural e as tentativas de reintegração de posse do terreno por parte do INSS e da Prefeitura do Estado de São Paulo, que havia deixado a casa abandonada durante 15 anos.

Depois da primeira tentativa de reintegração de posse do imóvel, e com a segunda sendo encaminhada, o deputado do PSOL, Carlos Giannazi, representante da Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), visitou a casa com outros membros do partido e marcou uma audiência na Assembleia, representando politicamente, a resistência. Ao mesmo tempo, uma mobilização significativa ocorria dentro da casa, e a partir disso, artistas, com a ajuda de uma caixa de som e muitas vozes, conseguiram suspender a reintegração.

Ao anúncio de um novo pedido, outro evento chamou a atenção: o #CafécomNabil, repercutido nas redes sociais através da hashtag. Vários coletivos, em prol da Casa, marcharam rumo à Secretaria Municipal de Cultura a fim de encontrarem o secretário Nabil Bonduki. E, após diálogo com a superintendência do INSS, o órgão anunciou o desinteresse na propriedade, e assim o processo foi arquivado.

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Foto: Nina Ratti.

 

A última ação de reintegração de posse ocorreu em julho de 2015. Através de protestos, intervenções sociais e políticas, tais quais o já citado protesto na ALESP, a reintegração foi adiada pela segunda vez. Já em janeiro de 2016, com a justificativa de que suas estruturas não estavam aptas a suportarem as atividades oferecidas e com visíveis instalações elétricas e hidráulicas precárias, o Conpresp, interditou o imóvel.

Conversamos com Alex Assunção, estudante de Marketing pela UNIESP e um dos atuais líderes do Laboratório Compartilhado Todo Mundo Treze (TM13), que nos contou sobre o ambiente multifacetado deste espaço pitoresco e aberto a todos. O foco desta nova gestão são as culturas africanas e guarani, com o objetivo voltado para camadas mais vulneráveis e necessitadas da sociedade.

A maioria dos ocupantes da Casa hoje, tanto da administração quanto da moradia, fazem parte do já citado coletivo “Quilombo Afroguarany”. O grupo, além de realizar seus trabalhos artísticos, participa de diversas militâncias, especialmente na causa de crianças em situação de rua:

“Alguns de nossos membros foram resgatados de pontos de tráfico e uso de drogas no Anhangabaú”.

Além disso, Alex também ressaltou: “A nossa ocupação é ilegal, mas legítima”. Porém, o movimento social da Casa Amarela não é estático, os artistas estão envolvidos em boa parte dos atos que acontecem pela cidade. E devido ao engajamento, a Casa tornou-se um ponto de encontro de grupos artísticos e ativistas.

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Foto: Nina Ratti.

 

Além da causa pela legitimação do espaço, a vizinhança é outra questão que a resistência enfrenta. A casa, localizada em um bairro tradicional e com moradores de certa idade, sofre com constantes reclamações e ameaças, visto que grande parte dos moradores reclamam do barulho e não gostam da ocupação – termo que gera por si só uma serie de preconceitos.

A gestão compartilhada e a divisão de responsabilidades, embora aparentem ser democráticas e indissolúveis, escondem episódios pouco claros na coesão e organização dos grupos. Os problemas ao longo do tempo e o enfrentamento das dificuldades diante da dura realidade que é manter um casarão só com recursos provindos de doações, também são empecilhos cruciais à continuidade do projeto.

Sem luz nos cômodos da casa, mas com a mente iluminada, ex-moradores de rua e dependentes químicos tentam recuperar sua voz e expressar-se em uma sociedade que os abandonou à mercê da própria sorte, para apropriarem-se de seus destinos e cuidarem de si e da “Casa Amarela” através da arte.

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Foto: Nina Ratti.

 

Em meio a uma feroz crise política e econômica nacional, com questões de disputa pelo metro quadrado mais caro da cidade, o casarão inspira reflexões sobre o valor do patrimônio histórico. Bem como sobre o papel político em reintegrar a cultura, a dignidade e a arte independente ao próprio cidadão. Os muros cor de sol e as cores da pluralidade resguardam ainda a força e energia de seus ocupantes, frequentadores e residentes: proprietários legítimos de uma causa muito maior do que o terreno físico ou o telhado quebrado que agora – e sabe-se lá até quando – os abriga.

Confira mais fotos:

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Foto: Nina Ratti.

 

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Foto: Nina Ratti.

 

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Foto: Nina Ratti.

 

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Foto: Nina Ratti.

 

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Foto: Nina Ratti.

Por: Bárbara Gil, Larissa Bomfim, Marina Duarte e Nina Ratti – Fala! Cásper

1 Comentário

  1. Rosângela
    10 meses ago

    Olá, boa tarde !!!

    Estive no local com um amigo que conhece bem as pessoal que habitam e administram a Casa Amarela nos eventos, oficinas, whorshops etc etc …
    O local é fascinante, a construção da casa entre as escadas, os quartos, janelas o espaço em si, a riqueza dos detalhes em cada cômodo percebe-se fácilmente que em uma época onde o OURO era a moeda forte digamos assim para muitos BARÕES DO CAFÉ que ostentavam através de suas casas HIPONENTES a sua posição perante uma SOCIEDADE tão preconceituosa e totalmente favoravél a ESCRAVIDÃO.
    Fiquei encantanda com o local e as pessoas que ali estavam quando cheguei super RECEPTIVAS simples em tudo, e tem um enorme AMOR pelo local, tive o prazer de andar pelos corredores e cômodos, é impressionante do porque construírem uma moradia com tantos quartos rsrs mas como sabemos o PODER de quem tinha mais, construções encima do sofrimento de pessoas de COR que eram tratadas como ANIMAIS, eu jamais apoiaria uma atrocidade dessas tanto é que muitos foram adpetos a abolição da escravatura com certeza eu seria tbém.uma das PRIMEIRAS a apoiar, tenho FASCINAÇÃO por HISTÓRIA DO BRASIL me sinto parte de tudo e todos entre esses SÉCULOS onde tivemos um Imperador criado entre as cavalaricas, no meio do povo e tão amado por todos, abrindo mão de sua terra PORTUGAL para um dia nós tornar livres da coroa portuguesa, onde fomos durantes anos ROUBADOS em nossa terra fértil e tão rica ” A ERA DO OURO” uma República livre para hoje estarmos nessa situação CRITICA sonho de anos e anos atrás não esquecendo nossos queridos inconfidentes em MINAS GERAIS onde houve a traição ao mártir da inconfidência TIRADENTES, Enfim o local é belissimo em todos os sentidos, é de cortar o coração tendo um patrimônio histórico em um ponto de localização privilegiado São Paulo desprezado por nossos GOVERNANTES sem ao menos uma ajuda financeira … É lamentável e envergonhoso.

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