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Tropa de Elite – Leia a Crítica do Filme

Tropa de Elite – Leia a Crítica do Filme

O Herói que o Brasil Merece Precisa

Em um debate sobre o filme organizado pela Dicta&Contradicta, Bráulio Mantovani e José Padilha contam que, no início do projeto, o capitão Nascimento não era o personagem principal de Tropa de Elite. O protagonista e narrador seria Mathias, o PM aspirante ao BOPE. A história confrontava o violento capitão, decidido a sair do BOPE por estar cansado do trabalho, esperando um filho e por não ver solução ao fazer o que faz (matar traficante e policial corrupto a rodo), com o inteligente e bem intencionado Mathias, estudante da PUC, aspirante a policial e que, ao final do filme, é transformado em mais um “fascista” pela instituição e pelo próprio Nascimento. Com isso, os autores esperavam mostrar a ineficácia da polícia e como o Estado transforma miséria e repressão em violência.

Mathias discute com colegas em aula na PUC Rio

Mas existe uma dificuldade em “mudar a chave” do discurso poético para o discurso retórico. Ao mostrar a violência carioca pelos olhos da polícia, retratando a guerra nos morros com uma narrativa realista e sem esquematizações, mas aberto às coerências e contradições internas de tudo que havia em jogo (policiais honestos, policiais corruptos, bandidos, comunidade, estudantes universitários, ONGs, o Papa e tudo o mais), os autores não esperavam que os cidadãos comuns se identificassem tanto com os bons policiais do BOPE.

Mas se algum desses autores tivesse passado uma semana que fosse na roça, no velho interior, na periferia de São Paulo ou em qualquer lugar do Brasil que não estivesse encharcado de ideologia esquerdista, saberia que o povo acha muito mais válido descer a mão na bandidagem, com ou sem excessos, do que ficar à mercê, como fica, de toda sorte de crimes que o narcotráfico traz consigo.

Bráulio e Padilha acertaram em cheio na verossimilhança e nas percepções íntimas do tema, mas falharam em tirar disso o discurso desejado. Ainda bem, pois essa “falha” em restringir as interpretações do público talvez tenha sido a incompetência mais bem sucedida da história do cinema brasileiro.

Tropa de Elite - Crítica do Filme
Capitão Nascimento e sua equipe do BOPE em ação no Rio de Janeiro – Tropa de Elite

O sucesso de Tropa de Elite

O filme roubou a cena. Não se falava de outra coisa no Brasil. Eu estava na 7ª série do Ensino Fundamental durante o lançamento, em uma escola em Pirituba, periferia de São Paulo, e lembro de todos os moleques falando as gírias do filme. Nós todos tínhamos visto o filme em DVDs piratas, e fazíamos questão de emprestar a quem ainda não tinha visto. “Não vai subir ninguém”, “Nunca serão”, “Quem manda nessa porra aqui sou eu!” “Bota na conta do Papa”… as frases eram boas e a excelente atuação de Wagner Moura só dava mais brilho ao capitão.

Todo mundo se impressionou com Tropa de Elite. A elite sensível se impressionou com a violência policial, e a platéia geral com a novidade de um herói verdadeiro na tela.

Bráulio conta que escreveu o capitão Nascimento como crítica. Mas o filme dá às massas a tarefa difícil de abstrair o narrador para enxergar ali uma crítica. Associe a isso a enorme identificação com o personagem e a força de ícone pop que o capitão exerce com suas frases e postura combativa contra corrupção, bandidagem e a hipocrisia (a cena do Nascimento esfregando a cara do universitário maconheiro no buraco da bala no corpo do aviãozinho é fantástica e muito corajosa): o resultado é o maior herói brasileiro dos últimos anos.

Herói não por ser um modelo perfeito de conduta, mas quando um povo tão assustado e acovardado como o brasileiro (60 mil homicídios por ano) vê alguém como o capitão Nascimento descer a bala em bandido, eles acham que é isso mesmo que tem que ser feito. É difícil tirar-lhes a razão. Ainda mais quando se nota que o capitão é honesto, não rouba nem aceita suborno, e usa violência contra criminosos e não para tirar vantagens da população inocente. É truculento, mas é truculento a serviço do povo – que está cansado de fala mansa e promessas vazias. E é essa honestidade que encantou a platéia, e não a violência em si.

O brasileiro quer alguém que tome uma providência. Alguém como Joaquim Barbosa, alguém como Sérgio Moro, alguém como o capitão. Eu mesmo, confesso, votaria no capitão Nascimento nas eleições presidenciais em 2018.

A polícia

Ninguém ignora que hoje, depois de décadas de tolerância com o narcotráfico, os traficantes são um poder armado em lugares onde o Estado não está. Os traficantes não vão ceder voluntariamente nem sequer um centímetro desse poder senão pela força. Os programas sociais e as ONGs (no filme, lotadas por usuários de drogas e hipócritas), até podem melhorar materialmente a vida da gente honesta que habita essas favelas, mas elas ainda estarão sob o domínio e tirania dos bandidos do tráfico. Quando a plateia vibra pelo violento BOPE é porque sabe que só dali vem a força para deter seus próprios carrascos.

Noto que disseminar ódio à polícia e simpatia cúmplice aos bandidos e malandros é algo muito comum no meio artístico brasileiro. Mas o povo não foi totalmente contaminado: as maiores bilheterias do País são Tropa de Elite 2 e 10 Mandamentos. O brasileiro só quer saber de bala e Bíblia? Acho que é mais simples que isso. O brasileiro só está cansado de ser enganado.

Trailer do filme Tropa de Elite

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Por Layon Lazaro – Fala!USP

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