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Um minuto de silêncio por Tales Cotta

Um minuto de silêncio por Tales Cotta


Uma reflexão por Fatime Ghandour – Fala! Cásper

Sábado, 27 de abril de 2019, São Paulo Fashion Week. Desfile da marca Ocksa.

  Tales Cotta, 26 anos, entra na passarela, anda até a ponta e na hora de dar a volta, começa a cambalear, fraquejando o andar até cair desmaiado. Muitos pensam ser uma performance que faz parte da programação da marca, mas quando o socorro é prestado pelos bombeiros, que levam Tales, ainda vivo, à uma ambulância perto do local onde o desfile está acontecendo, percebem que não. E o evento continua.

  A morte de Tales é confirmada às 18:40 e informada aos organizadores às 18:50, a agenda da SPFW era programada para ir até às 22:30, quando o último desfile começaria, e a organização deu às marcas a opção de não prosseguirem com os shows, porém essa possibilidade foi descartada pelas equipes e optaram por, ao início de cada desfile, todos prestarem um minuto de silêncio. Tudo continuou normalmente.

 No momento da marca Cavalera, os modelos entraram segurando placas que homenagearam a vida e a morte de Cotta, e onde se liam “Amor” e “Luto”, E do cantor brasileiro Rico Dalasam, que estava se apresentando no evento, se ouvia palavras que disse ao público enquanto a melodia continuava tocando ao fundo. Diz: “O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada. Não era pra ninguém estar aqui” recebe aplausos e continua “enquanto os vivos não lamentarem a morte dos negros, dos brancos e da humanidade das pessoas, a agonia vai tá no travesseiro de todo mundo” ele acaba.

  A causa da morte de Tales foi tida como um mal súbito, até agora sem explicação mais específica, mas se sabe que o modelo era saudável, praticante de esportes, era vegano e se alimentava normalmente, segundo declaração da própria mãe do homem, Heloisa Cotta, que afirma ter conversado com o filho momentos antes do desfile e o questionado sobre sua alimentação, ao que ele respondeu que estava normal, que tinha comido bolo antes do desfile. O corpo de Tales Cotta foi levado e velado no interior de Minas Gerais.

 A Ocksa prestou socorro e fez o que podia, mesmo quando o desfile da marca teve fim ainda não sabiam do falecimento do modelo, houve a opção de parar o restante dos shows, mas eles continuaram, fizeram todos um minuto de silêncio para então, o show continuar. O modelo morreu, mas o desfile não. Todos bradaram ao ouvir as palavras, a crítica de Dalasam, direcionada principalmente à sociedade, a mesma que berrava em concordância. Postagens foram feitas nas redes sociais da marca para a qual Tales estava desfilando se desculpando com o mundo, com o público. Suas exatas palavras foram:

“Nós da Också estamos profundamente tristes e devastados. Jamais poderíamos imaginar que o nosso desfile de estreia seria marcado por uma tragédia: a perda de um amigo especial, Tales Cotta.

 Em nome de toda equipe pedimos desculpas por termos dado continuidade ao desfile, independente das informações que dispúnhamos naquele momento, no backstage. Independente se tivesse sido uma queda ou ele desmaiado, jamais deveríamos ter dado continuidade ao desfile.”

 A mãe do modelo, porém, reagiu “contra a maré” de muitas das opiniões, dizendo que Cotta era um profissional e que o desfile deveria sim ter continuado, como foi, pois parar não o traria de volta. Heloisa não culpou a marca Ocksa por nenhuma ação.

 Porém naquele momento Tales não era mais apenas Tales, o que ocorreu representa muito do que há de errado com o sistema em que vivemos e com o modo como as  pessoas enxergam umas às outras, e foi preciso haver uma morte para que muitos levantassem os olhos para enxergar a que ponto chegamos. Alguns dizem que o show deveria ter sido interrompido, outros são da opinião de que contanto que tenham prestado socorro ao modelo, não fez mal continuarem com a programação normal. Mas Tales virou o representante de uma causa muito bem disfarçada.

  Houve tentativas de renovar o modo como as pessoas são mostradas ao mundo por essas indústrias, começando a abraçar  tipos de beleza que até então não se encaixavam em seu padrão, por exemplo, e começando a tentar entrar na moda das pessoas, que exigiam uma representação mais fiel de quem habita esse mundo. Era o início de conseguirem se levantar aos olhos do público, porém este último sábado, dia 27, evidenciou que há muito o que mudar em nossa configuração.

 Por tudo ser muito sobre aparências, fica difícil ver além do objetivo principal e tentar enxergar quem está por baixo das roupas desfilantes. Que tem alguém ali que representa mais do que um manequim vivo. Tales é isso, Tales é alguém que foi um modelo, que desmaiou durante um desfile da SPFW, cuja organização recebeu depois a informação de que o modelo havia falecido. Mas independentemente de o show ter continuado, a situação se tornou muito mais do que este questionamento, mas sim se é possível que todos aceitem que tudo continue assim.

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