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A forma como as questões raciais se relacionam com os esportes americanos

Por Raphael Fernandes – Fala! Cásper

 

Não é de hoje que os Estados Unidos enfrentam problemas relacionados a diversas questões sociais. Nos últimos meses muitos casos de racismo vêm tomando as manchetes, principalmente o ocorrido em Charlottesville, na Vírginia no último mês de agosto. Na ocasião, supremacistas brancos entraram em confronto com manifestantes contrários ao racismo. O ato considerado como a maior marcha de supremacistas brancos nos EUA deixou 3 mortos (uma mulher de 32 anos e dois policiais), pelo menos 34 feridos e inúmeras pessoas foram presas.

O confronto teria começado devido ao plano de retirar uma estátua em homenagem a Robert E. Lee, general do Exército Confederado durante a Guerra Civil Americana, que é considerado pelos extremistas de direita como um simbolo histórico do poder branco sulista, e que lutou sem êxito contra os Estados do Norte para manter o sistema de escravidão dos negros. No grupo racista incluíam-se alguns membros da Ku Klux Klan, tinham bandeiras, slogans nazistas e foram preparados para o confronto com capacetes, escudos e cassetetes. Entre os contramanifestantes se destacava o agrupamento antirracista Black Lives Matter (as vidas dos negros importam).

O presidente Donald Trump foi muito criticado por não adotar uma posição clara quanto a criticar o neonazismo. Para muitas das pessoas as ações do presidente estimulam a intensificação do racismo e dos discursos de ódio no país.

Supremacistas brancos e manifestantes antirracistas entram em confronto na cidade de Charlottesville (Foto: Chip Somodevilla/ AFP)

 

No ano de 2015, mais de 300 negros foram mortos pela polícia, até julho de 2016 foram mais 160 mortos. Em vários casos o policial acusado foi absolvido, mesmo havendo provas de crime por parte da polícia. Dados atuais mostram que os negros compõem 12% da população, mas são 26% dos mortos pela polícia. Menos de um em cada três mortos estavam armados, o que desmonta a tese de que os policiais estariam se defendendo ou atacando uma ameaça. 2016 e 2017 não foram diferentes.

Toda essa questão racial está sendo levada também para os esportes americanos, principalmente para a liga de futebol americano, a NFL (National Football League) e para a maior liga de basquete do mundo, a NBA (National Basketball Association).

Em 2016, Colin Kaepernick até então jogador do San Francisco 49ers (equipe da liga norte-americana de futebol americano) começou a protestar enquanto o hino nacional estadunidense era executado, se ajoelhando ou permanecendo sentado. Segundo ele, seus protestos eram contra a desigualdade e a brutalidade racial, e essa sua ação encorajou outros jogadores a fazerem o mesmo, mas devido aos protestos antes dos jogos, as equipes entendem que isso possui um lado negativo, e por isso hoje em dia o jogador está desempregado. Em outubro, Kaepernick entrou com uma ação judicial contra os proprietários das franquias da NFL os acusando de conluio, ou seja, uma combinação para prejudicar terceiros. O advogado do jogador acredita que o atleta terá assinado um contrato com algum time em até 10 dias.

Colin Kaepernick (à direita) e Eric Reid (à esquerda) ajoelhados em forma de protesto.

 

Outro jogador que se tornou símbolo desses protesto contra o presidente Donald Trump e o racismo, foi Michael Bennett, jogador do Seattle Seahawks. Na noite da luta entre Floyd Mayweather e Conor McGregor, dia 26 de agosto de 2017, Bennett estava em Los Angeles assistindo a luta, e enquanto voltava para seu hotel ouviu disparos de uma arma de fogo e começou a correr, foi quando dois policiais o pararam e um deles apontou uma arma para sua cabeça, enquanto o outro colocou um joelho nas costas do atleta, fazendo com que ele não conseguisse respirar. Durante a abordagem policial, os oficiais pediram para que o jogador se mantivesse imóvel, senão atirariam em sua cabeça. Michael Bennett não mostrava qualquer resistência ou perigo, e a todo momento perguntava o que tinha feito e exigia seus direitos, algo que não lhe foi concedido. O atleta só foi liberado pela polícia, após perceberam que se tratava de uma pessoa famosa.

Bennett é mais um jogador que protesta durante o hino nacional antes dos jogos, e ele disse: “Só porque [Kaepernick’s] está fora da liga, nós não queremos perder essa mensagem, pressionando por liberdade e igualdade para todos. Nós só queremos manter essa mensagem viva”.

Nem de perto o atual presidente dos Estados Unidos é unanimidade entre a população, e com os negros a situação é ainda pior. Trump sempre foi crítico aos jogadores que se ajoelham durante a execução do hino nacional, alegando que é um movimento não patriota e que desrespeita a todos que são americanos, mas parece que cada atitude ou fala do presidente só piora a situação.

Jogadores do Cleveland Browns se ajoelham durante hino nacional norte-americano (Foto: Joe Robbins/Getty Images)

 

Durante um discurso, Donald Trump disse para os donos das franquias da NFL demitirem todos os jogadores que se ajoelham e ainda os chamou de “filhos da p***”. “Você não gostaria de ver um desses proprietários da NFL, quando alguém não atende a nossa bandeira, para dizer: ‘Jogue esse filho da puta fora do campo agora. Fora! Ele é demitido. Ele é demitido!’”, disse Trump. O presidente acredita que querer protestar por seus direitos, por algo que muitos não acreditam que está certo é agir de forma não patriota, e dessa maneira tenta encorajar os torcedores a deixarem os estádios quando isso acontecer. Diversos jogadores vieram a público dizer que isso não é desrespeito e afirmaram que são gratos por todos aqueles que defendem os EUA.

No mundo dos esportes, Donald Trump está ficando cada vez menos popular, suas tentativas de classificar os protestos como algo ruim não estão sendo aceitas pelos jogadores. Alguns jogadores brancos estão apoiando os outros atletas enquanto protestam durante o hino, algumas equipes não estão ficando no gramado na execução do hino e muitos jogadores (dirigentes também) que são amigos de Trump, também estão protestando, caso de Tom Brady, Robert Kraft, Jerry Jones, entre outros.

Jogadores da NFL protestando antes do início do jogo (Foto: Joe Nicholson/USA Today Sports)

 

Muitos times estão unidos e protestam juntos à beira do campo, com todos os jogadores um do lado do outro com os braços dados, outros levantam o braço e fecham o punho, outros se ajoelham e alguns permanecem sentados. A união vai muito além do que apenas jogadores, técnicos e donos de times também já demonstraram apoio aos jogadores.

Na NBA a situação não é muito diferente, apesar de não haver muitos protestos dentro de quadra, fora delas a situação não é bem assim.

Os motivos de indignação aumentaram antes mesmo do início da atual temporada, quando a equipe do Golden State Warriors, atual campeã da liga, não confirmou que estaria presente a Casa Branca (todos os times campeões são convidados a visitar a Casa Branca, como forma de recompensa pelo título), o que incomodou Donald Trump. Pouco tempo depois, o astro dos Warriors, Stephen Curry afirmou que não visitaria a Casa Branca, algo que irritou o presidente, que imediatamente desconvidou o time campeão.

O fato causou certa comoção na NBA e até uma lamentação por parte do Golden State Warriors, o qual escreveu uma nota que lamentava a forma que o presidente acabou com qualquer tipo de diálogo.

Entrando em defesa de Curry e da franquia de Oakland, LeBron James rebateu Trump e disse: “Visitar a Casa Branca era uma honra até você aparecer”.

LeBron, durante as finais da última temporada da NBA, teve sua casa de Los Angeles pichada com insultos racistas. Sempre muito ativo nas causas sociais em comunidades, James e alguns outros jogadores fizeram um discurso durante uma premiação nos Estados Unidos, no qual o tema principal era sobre a união dos jogadores em prol de ajudar contra o racismo: “”Hoje, estamos honrando Muhammad Ali, the GOAT. Mas para fazer justiça ao seu legado, vamos usar este momento para chamar todos os atletas profissionais para nos educar, explorar essas questões, falar sobre, usar nossa influência e renunciar toda violência e, o mais importante, voltar para nossas comunidades e investir o nosso tempo, nossos recursos e ajudar reconstruir, ajudar a fortalecer e a mudar. Todos nós temos que fazer melhor.”

Sempre muito ativo nessas questões sociais, James também falou sobre os acontecimentos de Charlottesville. (vídeo abaixo)

A cada semana os atletas vão ganhando mais apoio e a causa vai ficando cada vez mais conhecida. É muito importante esse tipo movimento entre pessoas conhecidas e famosas, elas têm que ter uma voz ativa na população. Ser famoso não é apenas fazer o seu trabalho e depois sair da mídia, esses jogadores têm que participar ativamente na sociedade, de uma forma benéfica para todos. Cabe também ao presidente americano uma maneira melhor de se relacionar com os atletas e os cidadãos sobre esse assunto, pois quanto mais o tempo passa, sua relação e imagem vão ficando manchadas e desgastadas.

 

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