Home / Colunas / Quem foi Marielle Franco e por que sua execução deve ser lamentada?

Quem foi Marielle Franco e por que sua execução deve ser lamentada?

Por Danilo Lacalle – Fala!M.A.C.K.

Rua Joaquim Palhares, Centro do Rio de Janeiro, 21h30. O carro em que está Marielle Franco, o motorista e uma assessora, percorre a rua escura, após saírem de um evento na Rua dos Inválidos, na Lapa. Um carro emparelha o de Marielle e nove tiros são escutados. Após isso, apenas o barulho de pneus cantando, típicos de uma fuga.

Nem mesmo o fato de ser a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, eleita com 46.502 votos, evitou um assassinato a sangue frio.  No banco de trás do carro, quatro tiros atingiram a cabeça de Marielle, mãe, “negra e cria da favela”, como a própria dizia. Anderson, assestado por três tiros, era motorista que fazia um “bico” no dia, para sustentar sua esposa e seu filho pequeno. Já a assessora foi atingida apenas pelos estilhaços, obteve ferimentos leves, mas foi socorrida e conseguiu sair ilesa de mais um assassinato a uma mulher, negra, no Brasil.

“Tentaram calar a voz dela, um sentimento de dor e de revolta por ela e pelo Anderson. Quero dizer que hoje a Maré com certeza chora, o Rio chora, o Brasil inteiro chora. Que a gente tenha Justiça. Ela só tinha um ano de mandato. Não tinha que ser assim, não era para ser assim. Vou lembrar dela com um sorrisão, uma pessoa muito boa, muito do bem, lutava muito pelas mulheres negras. A família está muito sentida. Ela não tinha sofrido nenhum tipo de ameaça”.
Anielle Silva, irmã da vereadora.

O evento do qual Marielle tinha acabado de sair – onde, inclusive, foram realizadas suas últimas imagens – foi o “Jovens Negras Movendo as Estruturas“.

Sempre militante de uma incansável busca pelos direitos humanos, a vereadora nasceu no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 27 de julho de 1979. Marielle Francisco da Silva, a Marielle Franco, tornou-se ícone na luta pela igualdade.

Ganhou bolsa integral após estudar no cursinho Pré-Vestibular Comunitário da Maré e fez sua graduação na PUC-Rio em Ciências Sociais. Porém, não realizou trabalhos com movimentos estudantis na época pois tinha como obrigação dividir seu tempo, aos 19 anos, entre faculdade e sua filha Luyara, que hoje está com 18 anos.

Após formar-se como socióloga, já tendo trabalhado como educadora na Creche Albano Rosa, na própria comunidade da Maré, tornou-se professora e pesquisadora respeitada na área. Após isso, virou mestre em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense.

Contra a Violência nas favelas

Suas militâncias, sempre voltadas para o público da comunidade e as ações repressivas que lá aconteciam, empenhou-se mais em sua luta após a morte de sua amiga, vítima de bala perdida na favela, decorrente de um tiroteio entre policiais e donos do morro onde nasceu e cresceu.

Entrou na equipe da campanha de Marcelo Freixo para a Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro (Alerj). Nomeada assessora parlamentar de Freixo, assumiu, posteriormente, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia. Disputou sua primeira disputa eleitoral pela coligação entre PSOL e PCB, “Mudar É Possível”. Foi a quinta mais votada na cidade, entre eles, 257 professores e acadêmicos, que declararam publicamente o voto em Marielle.

Gritava sempre com orgulho uma frase de efeito que arrancava aplausos da plateia: “Lugar de mulher é onde ela quiser“.

 

A intervenção militar no Rio de Janeiro e o impedimento da comissão da verdade

Ao ser anunciada a intervenção militar para “acalmar os ânimos” das ruas do Rio de Janeiro, o General Souza Braga Netto impediu o show business da mídia, sem desfilar com tanques e ações exuberantes. Porém, o que era para ser a criminalização dos atos que estavam ocorrendo com os civis, passou a ser o mais do mesmo, nas periferias: casas invadidas, procura de suspeitos, “pacificação”.

A intervenção militar passou a ser invasiva e, como de costume, sempre para o lado mais pobre. Ao ser exigido um tribunal militar para os crimes contra civis, o mesmo general afirmou, dia 20 de fevereiro, que não haveria uma “nova comissão da verdade”, na qual Marielle estava disposta a seguir firme, na montagem da mesma. Isso porque, neste mesmo dia, mais cedo, foi confirmada a existência de uma ossada de Dimas Antônio Casemiro, militante desaparecido há mais de 50 anos, em uma das valas encontradas com mais de mil ossadas clandestinas. Fato que cutucou com vara curta das milícias às autoridades de maiores patentes (não que não sejam parte dessas milícias).

Diretor do Centro de Informações da Organização das Nações Unidas para o Brasil, Maurizio Giuliano, afirmou à BBC Brasil que “infelizmente não chega a surpreender quem acompanha as estatísticas de violência do Estado do Rio de Janeiro. No Brasil, um jovem afrodescendente é morto a cada 21 minutos“.

Giuliano estaria certo se, Marielle, além de ser mulher e negra, o que no Brasil já é complicado, a vereadora não fosse crítica da intervenção federal na segurança pública do Rio. No dia 28 de fevereiro, assumiu a função de relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio, criada para fiscalizar as tropas durante a intervenção.

 

Um post que incomodou

No dia 10 de março de 2018, Marielle Franco compartilhou em sua página uma denúncia de jovens encontrados mortos em um “valão”, em Acari. E, posterior a isso, policiais que andaram pelas ruas ameaçando os moradores, que não tinham relação com os assassinatos – fato que piorou após a intervenção. 

3 dias depois, a vereadora encontrou em seu caminho uma luta que, infelizmente, não pode vencer. Sem chances para reagir. 

Confira também:

Intervenção Federal no RJ – o que é, e por quê?

Confira também

Quem narra, manipula – seja com a caneta, seja com a câmera

Por Lígia de Castro – JornalismoJr ECA-USP     Um personagem anda por uma rua. A ...

Um comentário

  1. a esquerda perguntaram aos moradores pobres se eles aprovaram a interversão militar ???? claro que não. porque todos os pobres apoiam essa interversão. porque quem morre na mão de bandidos e milicianos e banda podre da PM são os pretos pobres das favelas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *