'Que horas ela volta?': Democracia brasileira sob duas perspectivas
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‘Que horas ela volta?’: Democracia brasileira sob duas perspectivas

‘Que horas ela volta?’: Democracia brasileira sob duas perspectivas

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Este texto aborda o contraste das minhas reflexões sobre o filme Que horas ela volta? em dois momentos diferentes da minha vida: o meu eu de 14 anos, recém-saída do ensino fundamental de uma escola particular e muito influenciada por um sistema escravocrata; e o meu eu mais velho, recém-formada no ensino médio de uma escola pública e mais reflexiva e crítica ao senso comum.

Acredito que esse contraste de opiniões possa nos mostrar como a construção da democracia no país possui heranças escravocratas e antidemocráticas, que são mantidas até hoje.

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Filme Que horas ela volta?. | Foto: Reprodução.

Filme Que horas ela volta?

Dessa forma, o filme brasileiro de 2015, escrito e dirigido por Anna Muylaert, retrata a vida de Val, uma empregada doméstica que saiu do Nordeste, onde morava e tinha uma filha, para trabalhar em São Paulo.

Val trabalha e mora na casa de uma típica família classe média alta da metrópole, quando sua filha Jéssica viaja até São Paulo para fazer vestibular e precisa ficar na casa em que sua mãe trabalha. A partir desse momento, o longa se constrói através dos conflitos que surgem entre Val, Jéssica e Bárbara (empregadora de Val).

Logo no início, percebemos que a história de Val é comum na região metropolitana de São Paulo. Uma mulher nordestina que, em busca de melhores oportunidades para sustentar sua família, migra para outro estado. Por consequência, Val é forçada a deixar sua filha, o que resulta em uma relação conflituosa com Jéssica.

Além disso, ao desenrolar do filme, vemos que Val exerce um papel de mãe para Fabinho (filho de Bárbara), enquanto que, com Jéssica, ela teve que abdicar dessa experiência. Esse cenário ainda é comum na sociedade brasileira e remete ao período da escravidão, um dos mais cruéis da nossa história.

Essa é a primeira pista do filme sobre a utopia da democracia em nosso país, afinal, costumes tão controversos à redemocratização reverberam entre nós.

Profundidade narrativa

O filme vai muito mais além e não foca somente na relação entre mãe e filha, mas também na relação entre empregadores e doméstica (incluindo Jéssica). E é nessa relação que mais consigo reparar o contraste entre minhas reflexões antigas e atuais.

Nessa perspectiva, quando Jéssica entra na piscina da casa é, para mim, o momento mais emblemático desse contraste. Inicialmente, todos veem o desespero e o medo de Val quando sua filha cai na piscina; Val sabe que, mesmo morando sob o mesmo teto que seus empregadores, ela não pode usufruir das mesmas condições, e isso recai sobre sua filha.

Quando assisti ao filme pela primeira vez – acredito que aos 14 anos –  não vi problema naquele medo de Val, e, sim, o oposto, ainda que seja difícil admitir, é importante ressaltar: eu concordava com o desespero dela, achava errado Jéssica ter entrado na piscina – embora tenha sido empurrada por Fabinho.

Em suma, na minha cabeça, e acredito que na de muitas outras pessoas, aquilo não era dela e ela não deveria usufruir, entretanto, é óbvio que o motivo principal era por eu ter aprendido, mesmo que implicitamente e muito bem mascarado, que uma empregada doméstica e sua filha não se igualavam a seus empregadores – não se igualavam a mim.

Infelizmente, apesar de eu ter crescido no período de redemocratização brasileira, meus pensamentos continuavam refletindo a sociedade antidemocrática e segregacionista que viera antes de mim, exatamente o oposto do que é um país democrático – ou deveria ser -, já que a democracia é a proteção dos direitos humanos fundamentais.

O filme não trata dessas questões tão nitidamente, inclusive, porque a antidemocracia da nossa democracia não é tão perceptível assim – pelo menos para quem não sofre com ela.

Mesmo assim, a raiva e desprezo de Bárbara por Jéssica é visto em vários momentos do filme, como quando a empregadora mandou esvaziar a água da piscina depois de Jéssica ter entrado. Perceba que Bárbara utilizou uma desculpa, falando que havia visto um rato na piscina para justificar sua ação, assim como na democracia utiliza-se brechas.

Não apenas a cena em que Jéssica toma o mesmo sorvete de marca fina e cara que Fabinho deixa Bárbara extremamente incomodada – ali fica a marca declarada da hierarquia, escravidão e antidemocracia da sociedade que temos no Brasil, é o incômodo que temos ao ver o pobre se igualando ao seu patrão, ao seu “senhor”.

Primordialmente, o melhor sempre é destinado para os patrões, enquanto o pior é para quem está na condição de servo. Mas essa não era a visão que eu tinha em 2015, pelo contrário, havia achado o filme desinteressante, chato e sem propósito, posto que não conseguia entender o que ele queria transmitir. Assim como Bárbara, as atitudes de Jéssica também me causavam incômodo – e eu nem imaginava que era por isso.

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Cena do filme Que horas ela volta?. | Foto: Reprodução.

Lógica escravista

Essa lógica escravista é extremamente forte, a hierarquia é tão imposta a Val que ela vira uma própria agente hierárquica. Por exemplo, quando diz à Jéssica que suas atitudes estão erradas, que sua filha já deveria ter nascido sabendo das “regras” e o seu lugar na sociedade.

Em outras palavras, Jéssica não poderia se igualar como indivíduo, pois a hierarquia exerce um conjunto de regras e submissões sobre ela por ser filha de uma empregada doméstica. Infelizmente, essas “regras” também foram aplicadas por mim, que no início do filme achava Jéssica “abusada” demais e sem os limites que eu acreditava que ela precisava ter.

Igualmente, um momento marcante é quando Val diz para sua filha que ela está abusada, metida e achando que é superior. Contudo, como mulher que não fora criada dentro de tal lógica que sua mãe estava submetida, Jéssica responde: “eu não acho que sou superior, eu só não acho que sou inferior”.

Hoje, quando vejo essa cena, percebo que o incômodo que Jéssica causara em muitas pessoas que haviam visto o filme em 2015, inclusive em mim, não era por ela ter sido “abusada”, mas sim, por ela não ter se inferiorizado perante eles e por ter insistido em ter os mesmos direitos, conceito básico da democracia, mas que ainda é inadmissível para muitos.

Por último, mas não menos importantes para entendermos essa lógica, Fabinho e Carlos (marido de Bárbara) possuem exercícios de poder mais sutis, principalmente o de Carlos, que trata Jéssica até “bem”, mas logo vemos que ele esperava coisas em troca disso: a “gratidão” obrigatória de Jéssica em um nível sexual. Ou seja, seu tratamento “gentil” com ela, nada mais era o retrato de uma objetificação sexual de Jéssica, mais uma característica herdada da escravidão.

Já Fabinho, menospreza Jéssica intelectualmente, como se ela não pudesse entrar na faculdade que desejava. Para ele, ela é alguém com quem ele se diverte, mas que não pode traçar os mesmos caminhos que ele.

Em síntese, o contraste de meus pensamentos sobre o filme refletem o antes e o depois do meu entender do que é democracia. Que horas ela volta? mostra a hierarquia, o escravismo e a dominação vigente de uma classe sobre a outra no Brasil. Mas, para além disso, retrata as relações de poder mais intrínsecas em nossa sociedade.

Em um país construído com raízes tão profundas da escravidão, nós precisamos compreender que crescemos aprendendo a reproduzir uma lógica de poder perversa e quebrar esse aprendizado é o principal desafio da democracia no Brasil. 

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Por Beatriz Oliveira Abrahão – Fala! UFMG

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