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Quando o nerd é o popular – afinal, por que a cultura geek vende tanto ?

Quando o nerd é o popular – afinal, por que a cultura geek vende tanto ?


Sexta-feira à noite e lá estão eles. E não, não estão trancados no quarto lendo quadrinhos. Os nerds estão reunidos em convenções, lojas e bares, prontos para espalhar a cultura e o orgulho geek.

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Em Star Trek, a  nave romulana Narada emerge de um buraco negro e ataca a nave estelar USS Kelvin, da Federação dos Planetas Unidos. Enquanto alguns “torcem o nariz”, os chamados “nerds” se animam perante conflitos interplanetários em que a salvação está no próximo episódio da série.  Mas como será que, por se aventurarem em seu próprio universo, eles foram rotulados de nerds?

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O termo nerd é uma gíria, e por isso não se sabe exatamente de onde surgiu. No entanto, uma das teorias mais significativas é que a palavra está atrelada ao escritor norte-americano Theodore Seuss Geisel (Dr. Seuss), autor de livros infantis clássicos como The Cat in the Hat (“O Gato de Chapéu) e If I Ran the Zoo (“Se Eu Dirigisse o Zoológico”), de 1950, no qual apresenta um personagem meio esquisito chamado Nerd.

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No ano seguinte, 1951, foi publicada na revista Newsweek uma matéria sobre os costumes dos jovens na cidade de Detroit, na qual dizia que os jovens “quadrados” (conservadores) estavam sendo chamados de nerds. Assim nasceu  o clichê do garoto intelectual franzino, solitário, de óculos grandes, aparelho nos dentes e cheio de espinhas no rosto. Assim surgiu mais um estereótipo.

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Se o rótulo um dia foi pejorativo, atualmente o cenário mudou. A bilheteria do cinema explode toda vez que um filme sci-fi ou de super-herói é lançado, e muitas obras cinematográficas ostentam sucesso através de sua “nerdice”. É o caso de Star Wars: O Despertar da Força, filme lançado em fevereiro de 2016. Ao alcançar  a grandiosa marca de US$ 2 bilhões arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme ficou atrás somente dos longas Titanic (US$ 2,186 bilhões) e Avatar (US$ 2,788 bilhões). No passado, a franquia Star Wars possuía um público mais seleto, mas com a popularização do mercado geek, no qual o filme está inserido, Star Wars: O Despertar da Força foi assistido por milhões de pessoas.

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por: StarWars.com

 

O termo “nerd” hoje designa, de modo muito popular, os amantes árduos do cinema, literatura, tecnologia, ficção científica, quadrinhos, jogos em geral. Fato é que a cultura geek (outra denominação para “nerd”) está cada vez mais presente no nosso cotidiano. A popularização desta cultura ocorre de forma rápida e contínua, espalhando-se cada vez mais pelas lojas, cinemas e eventos típicos desse universo.

Omelete nerd 

Marcelo Forlani, publicitário, faz parte do reinado geek e é um dos criadores do principal blog sobre cultura pop da América Latina, o Omelete. Forlani desconstrói a imagem tanto do nerd isolado da sociedade, quanto do sujeito antissocial que só gosta de estudar e ler quadrinhos.

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“O cara que sabe a escalação do Ferroviária e Juventus no campeonato paulista de 1982 é um nerd de futebol. O cara que sabe quantos cavalos tem no Opala 66, um nerd de carro. Todo mundo tem suas paixões e vai estudá-las a fundo, ser o expert daquilo”, simplificou o publicitário.

Ao contrário dos muitos paradigmas implantados, de acordo com Forlani, o público geek é de fato intelectual, porém foge completamente dos estereótipos: o nerd é o “antenado”:

“O cara que consome cultura pop é o cara que vai ser o difusor da opinião, da notícia, é o cara que está por dentro e vai ajudar as pessoas a decidirem se aquilo é legal ou não”, defende o empresário e publicitário fundador do Omelete.

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Se os nerds então sempre “por dentro” dos assuntos culturais, muitas vezes excluem os que não estão, uma vez que existe um preconceito vindo de alguns nerds para com os que tentam ingressar em seu modo de vida. São chamados de “bazingueiros” – os que se interessam por certa temática para obter popularidade, porém não dominam o assunto. O termo vem da expressão ‘bazinga’, utilizada pelo personagem Sheldon Cooper, de “The Big Bang Theory”. Esse rótulo representa os “posers”, uma espécie de “falso fã” que finge dominar por completo determinado assunto para obter certo status entre os admiradores daquele universo.

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“O mundo nerd é muito territorial. Os bazingueiros tem boa intenção ao se interessarem pelo assunto, porém, por conta desse interesse ser fruto da massificação, acabam irritando os nerds mais tradicionais” opina Reinaldo Machado, estudante de publicidade que começou a participar do movimento geek através do anime Cavaleiros do Zodíaco.

De acordo com Rodrigo Narimatsu, crítico de cinema, cinéfilo e nerd desde criança, a cultura geek tem sido aproveitada como forma de ganhar mérito ou status, algo que pode ser perigoso: “Nerd é quem se interessa por filmes, séries, quadrinhos e afins, e tem conhecimento pleno do que gosta. Ser nerd hoje virou moda e muitos realmente se aproveitam disso. Acho legal a pessoa se interessar e se aprofundar, mas se aproveitar disso não”.

A ascensão do mercado geek 

Entrar na loja Limited Edition, localizada na Rua da Consolação, 2753, no Jardins, impressiona até os não muito aficionados ao mundo nerd. Luzes iluminam vitrines que glorificam as figuras de ação de personagens aclamados nos quadrinhos e filmes. Nas prateleiras, personagens de todas as eras e marcas possíveis emocionam qualquer fanático pela DC Comics e Marvel, entre outras grandiosas empresas de quadrinhos.

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foto: Vanessa Victoria.

 

O público é composto majoritariamente por nerds mais velhos, que, saudosistas, relembram sua adolescência e infância geek. Apaixonados, possuem a disposição de comprar produtos variados. Entre eles, estão figuras detalhadas que beiram o real. Muito semelhante a Chris Evans, ator norte-americano que interpreta o personagem Capitão América, um boneco do personagem é vendido ao preço de R$ 2.000,00. Já outro idêntico ao personagem fictício doutor Doom sai pelo preço de R$11.000,00 enquanto o de Darth Vader, a R$1300,00. Aberta em 2009 pelos sócios Rodolfo Balestero Pranaitis e Daniel Altavista, a Limited Edition teve faturamento médio de R$ 290 mil por mês em 2014.

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foto: Vanessa Victoria.

 

Daniel Bergamini, vendedor da loja, diz ainda ter virado mestre de cerimônia de eventos nerds (entre eles, Anime Friends) e depois se formado como ator, graças a sua desenvoltura no palco. O rapaz, quando não está nos eventos relacionados a animes, ajuda os compradores a realizarem boas compras na Limited Edition:

“A gente vive em uma época que dá para trabalhar e fazer um monte de coisa sendo nerd. Seja em lojas, eventos, lanchonete ou Youtube. É um negócio que agora é comum, ser nerd virou normal”.

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foto: Vanessa Victoria.

 

Segundo Daniel, a onda nerd está na moda, o que não é nada ruim para os negócios. “[ o mercado geek] está evidente porque ficou na moda, mas não de um jeito negativo, ficou na moda porque as pessoas têm mais acesso a tudo isso, interessam-se mais. Toda semana entra alguém na loja falando que não sabia que existia uma loja assim ou não sabia que tinha esses produtos para vender”.

Comix Book Shop, que fica na Alameda Jaú, 1998, é outra loja geek, dessa vez especializada na venda de gibis e revistas. Nas extensas prateleiras, mangás e gibis, todos empacotados, aos montes, desde o mais novo até o mais raro ou antigo. À venda, estão reunidos em boxes de vinte a cinquenta quadrinhos em formato (13 x 21 cm), que custam de 300 a 700 reais. “O pessoal tem preferência por box do Batman, do Thor, são esses que mais saem”  afirma Tiago Aurélio da Silva, vendedor da loja há três meses.

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Foto: Luciana Lira.

 

Sobre a popularização desse mercado geek em crescimento, Tiago defendeu a tese de que as adaptações dos quadrinhos no cinema estão gerando mais adeptos ao mundo nerd:

“Houve mais procura de quadrinhos principalmente devido aos filmes que estão saindo, como “Capitão América: Guerra Civil”. Todo mundo queria saber a origem dessa história. No filme foi mostrado um lado e no quadrinho, muitas vezes, é um outro lado”.

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Foto: Luciana Lira.

 

Nunca imaginariam que essa cultura, que começou a criar nicho nos anos 1940 com os quadrinhos em papel barato e com temática de guerra, chegaria a um patamar tão alto nos anos 2000, principalmente atingindo grande fama no mercado cinematográfico, concorrido desde seu início. Dos atuais cem filmes que mais arrecadaram em bilheteria mundialmente, 59 foram inspirados diretamente na cultura nerd (são derivados de quadrinhos ou livros infanto-juvenis) e a conta aumenta para 84 se contarmos os produzidos por produtoras como Disney e DreamWorks, cujos filmes e animações também são amplamente consumido pelos nerds.

Se acrescentarmos nessa lista a popularização dos serviços de streaming, liderados pela Netflix com seus 50 milhões de assinantes e U$6,2 bilhões anuais de faturamento, e a expansão do mercado de quadrinhos, que atingiu o mundo digital com o também serviço de streaming Social Comics, chegaremos à conclusão que o mercado nerd cresceu vertiginosamente e está longe de estagnar. Ser geek nunca foi ser tão popular.

Por: Lucas Sam – Fala!Cásper

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