Quando cita-se 'Mulheres merecem equiparidade', para quem é válido?
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Quando cita-se ‘Mulheres merecem equiparidade’, para quem é válido?

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Será mesmo que dentro do movimento feminista existe igualdade racial? Muitas vezes, as mulheres brancas têm muito mais voz ativa do que as mulheres negras, até mesmo no movimento que tem por objetivo a busca por igualdade

Dentro do livro Lugar de Fala, da filósofa Djamila Ribeiro, existem dois conceitos que se encaixam no retrospecto do Feminismo. Simone de Beauvouir, filósofa, feminista e escritora francesa, aborda a concepção do Outro, onde a mulher se encaixa como submissa ao homem e não sendo definida em si mesma, mas em relação ao homem e ao olhar do mesmo. Aperfeiçoando esse mesmo conceito, aparece Grada Kilomba, escritora e teórica portuguesa, quando produz uma nova convicção, trazendo o Outro do Outro.

Grada Kilomba
Grada Kilomba, autora do conceito Outro do Outro, em que analisa a herança colonial e patriarcal em busca de uma definição para o racismo contemporâneo. | Foto: Reprodução.

Para introduzir o conteúdo que irá ser abordado, são necessários números e contextos passados para o entendimento até o cenário atual. O estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE, divulgado em novembro de 2019, espelha obstáculos sobre os demais grupos populacionais. O levantamento aponta uma maior distância entre os rendimentos dos homens brancos, quando comparados aos das mulheres pretas ou pardas, que recebem 44,4% menos do que eles.

Além de inúmeras vertentes que podem ser trazidas de dados, a contextualização é de extrema importância quando se trata de questões raciais, pois, enquanto mulheres brancas e de classe social privilegiada, no início do Feminismo, lutavam por igualdade, as negras lutavam por sobrevivência, cuidavam de suas casas e apenas recebiam o tratamento de um olhar comerciante e objetificado. A visão da negra de um movimento feminista foi tardia, não foi na mesma época e nem no mesmo momento.

Partindo do Outro do Outro

Neste novo retrato que surge abordado por Kilomba, insere-se a mulher negra diante do homem e da mulher branca, ou seja, a negra não é só comparada à figura do homem, mas também à mulher branca. A partir desse tópico é que começa a reflexão de como a representatividade negra é inserida dentro do Feminismo, e quais causalidades existem para ter uma separação entre o Feminismo Branco e o Feminismo Negro

feminismo negro
 No Brasil, o Feminismo Negro teve início propriamente na década de 1970, com o Movimento de Mulheres Negras (MMN), a partir da percepção de que faltava uma abordagem conjunta das pautas de gênero e raça pelos movimentos sociais da época. | Foto: Reprodução.

De acordo com a feminista negra Carla Xavier, a falta de visibilidade e de credibilidade da mulher negra é um ponto muito forte, pois é preciso estar em um ambiente branco para obter os dois aspectos. A mulher branca consegue ter mais privilégios, é aceita pela sociedade em questões de emprego, padrões de beleza e diversas oportunidades.

Eu sempre ponderei demais e sempre me isentei de participar de movimentos extremistas negros, porque eu não concordo com a segregação de mulheres brancas. Sempre tentei ver o lado positivo das coisas. Até acontecer comigo. De realmente ter a comprovação que mulher branca, por mais que seja feminista, ela não tem sororidade comigo.

Eu milito no Instagram tem quase dois anos, mas eu vou e volto, e eu desisto muito. É muito cansativo. Eu ainda opto muito pela dinâmica, pela didática, por conversar e por explicar, só que é difícil você ficar falando, parece que as pessoas veem aquilo como desnecessário. E eu sei que não é.

O padrão da sociedade

O discurso genérico da população causa o que gira em torno do vitimismo do negro e da subalternidade. Existe uma barreira para abrir a mente e se aprofundar em outros recortes. Quando surge um comentário sobre o Feminismo, poucas pessoas param para pensar o que realmente existe e o que está “escondido” dentro do movimento, apenas é destacado um movimento hegemônico e a universalização da categoria mulher.

Para Ana Claudia Sanches Baptista, graduada em Turismo, mestra na Faculdade da Saúde Pública da USP e atualmente fazendo doutorado na EACH, é um tema realmente muito importante, mas que pouquíssimas pessoas têm acesso, porque existe um conhecimento vindo com um recorte de raça, gênero e classe, que é muito negado.

 Na questão da mulher negra, existe também uma culpabilização. O corpo negro já é visto como subalterno: você pode tocar, aproveitar e satisfazer suas fantasias.

Como é olhar a partir de uma visão descolonizada?

Emergindo no processo de autodefinição da mulher negra, Carla e Ana Claudia retratam o aspecto de ser negro como um ponto alto para se apresentar na sociedade como uma mulher que pode ter seus direitos, espaços e oportunidades como qualquer outra mulher.

Como dito anteriormente, a sociedade ainda está com os olhos vendados para a discussão e reflexão sobre o racismo, já que o panorama da sociedade é patriarcal e há a supremacia branca. Uma sentença dita por Ana Claudia retrata a dificuldade da mulher negra se manter dentro de um cargo alcançado na sociedade.

 A mulher branca vai ter muitas dificuldades para acessar determinados espaços. E a mulher negra, vai ter muito mais dificuldades para alcançar e se permanecer naquele espaço.

mulheres negras
Muita expressividade existe nas quatro representações descritas na foto, sendo todas interligadas e tendo como base a raiz. E essa raiz é assimilada desde os ensinamentos e ciclos cotidianos, até as culturas e os hábitos. | Foto: Reprodução.

Aquilo que está ligado ao majoritário é dado como a verdadeira vertente e o verdadeiro conhecimento que devem ser seguidos e nunca questionados. E é nesse quesito que é alertado, ou deveria ser, toda a hierarquização existente no quadro contemporâneo.

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Por Ana Lúcia Bertolino Muneratti – Fala! Cásper

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