Quais as áreas que ainda estão em guerra durante a pandemia?
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Quais as áreas que ainda estão em guerra durante a pandemia?

Quais as áreas que ainda estão em guerra durante a pandemia?

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A pandemia do coronavírus não conseguiu reduzir a maioria dos conflitos armados ao redor do mundo. Mesmo com o apelo da ONU para que a crise fosse aproveitada para promover um cessar fogo global, na maior parte das nações, as hostilidades foram intensificadas, o número de incidentes violentos não diminuiu e, em muitos casos, chegou a aumentar.

Os Estados que concordaram em tomar medidas em direção a uma trégua, como a Líbia, não foram capazes de respeitar o acordo por muito tempo, pois a pandemia elevou as tensões. Confira abaixo as principais áreas que estão guerra durante a crise sanitária do coronavírus.

Áreas em guerra durante a pandemia

Norte da América do Sul

A guerra interna na Colômbia é considerada a mais antiga do Hemisfério Sul. Os conflitos colombianos têm raízes nos tempos coloniais, mas foram intensificados em 1964, quando foi oficialmente declarado guerra civil no país.

O combate ocorre entre as forças do governo e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). As causas têm origem na falta de emprego e de oportunidades, desigualdade, concentração de riqueza, injustiça social e corrupção.

Em mais de 50 anos de guerra, dezenas de milhares foram desaparecidos, cerca de 7 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas à força, ocorreram estupros, sequestros e mais de 260 mil mortes. A maioria da população acredita que uma paz duradoura na Colômbia apenas será alcançada quando as causas profundas do conflito forem solucionadas.

África Ocidental

A crise dos Camarões tem origem na tensão entre as áreas de língua inglesa e francesa do país. Os conflitos ocorrem desde 2016, quando a comunidade de língua inglesa começou a disseminar ideais separatistas e a realizar protestos depois que o governo aumentou o uso do francês nas escolas e tribunais. Segundo dados da ONU, estima-se que 3 mil pessoas morreram desde o início do combate. Além disso, há cerca de 680 mil deslocados internos nos Camarões e 60 mil refugiados na Nigéria.

Outro conflito na região encontra-se na República do Mali, que vive uma crise interna desde 2012. O grupo rebelde tuaregue Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA) tomou conta do norte do país, o que desencadeou um golpe militar. Houve um aumento de refugiados e a instabilidade na região escalou.

Em março daquele ano, o presidente Amado Toumani Touré foi deposto em um golpe de Estado realizado pelo MNLA, que contrariava seus ideais. Outros grupos radicais, incluindo islâmicos ligados à Al-Qaeda, se juntaram ao movimento. Além disso, a França, o Reino Unido, o Canadá e os Estados Unidos também envolveram-se no conflito, realizando intervenções aéreas.

Em junho de 2013, os rebeldes tuaregues concordaram com uma trégua, porém, um mês depois, anunciaram que não iriam mais respeitar o acordo de paz. Em 2015, um novo cessar fogo foi declarado, mas, até hoje, ainda ocorrem combates no país.

guerra Mali
Forças de segurança na República do Mali. | Foto: Reprodução.

Leste Africano

Somália vive em estado de guerra desde 1991, quando o ditador Mohamed Siad Barre foi derrubado, deixando o país sem um governo efetivo. O poder foi passado para as milícias radicais islâmicas, que respondem aos interesses de grupos armados, o que desencadeou conflitos envolvendo forças do Estado, da União Africana e o grupo extremista Al-Shabab.

Segundo a ONU, cerca de 6 milhões de somalis, equivalente a mais da metade da população, necessitam de ajuda urgente devido à desnutrição. Os jihadistas, grupo sunita militar islâmico, realizaram diversos ataques terroristas na Somália e impedem o acesso de grupos humanitários, o que agrava ainda mais a fome no país. Segundo dados do G1, estima-se que tenham ocorrido entre 450 mil e 1,5 milhão de mortes.

Norte Africano

Líbia encontra-se em guerra por mais de 5 anos, com cerca de 8 mil mortes. O conflito foi desencadeado a partir da onda de violência entre as milícias islamitas e tribais que derrubaram e executaram o ditador Muamar Gadafi durante a guerra civil de 2011.

Desde então, essas milícias enfrentaram-se pela rivalidade econômica e pela luta por poder. Em 2014, os partidos islamistas dominaram o Congresso Geral Nacional e foram derrotados, o que causou uma revolta e desencadeou o estopim da guerra.

As forças armadas do Egito e dos Emirados Árabes Unidos realizaram ataques aéreos contra o Estado Islâmico e os partidos islamitas, que contavam com ajuda do Catar e da Turquia.

No início desse ano, foi realizada uma conferência da ONU em Berlim com o objetivo encerrar a guerra civil, mas não foi capaz de estabelecer um cessar fogo.

Outro conflito recorrente é o tráfico de escravos, que foi apenas agravado devido à guerra. A Líbia é um ponto de transição para refugiados em rumo à Europa, os quais acabam se tornando alvo da escravidão. Desde abril de 2019, cerca de 200 mil habitantes fugiram do país.

Fronteira Centro-Asiática

Em Xinjiang, na China, milhões de uigures, minoria muçulmana habitante da região, estão sendo mantidos cativos em campos de concentração. Essa perseguição é justificada pela “guerra ao terrorismo” e os uigures estão sendo tratados como ‘inimigos do Estado”.

Desde 2017, os uigures são arbitrariamente aprisionados e levados aos campos, onde são torturados, usados para experimentos humanos, mulheres são estupradas e obrigadas a se casarem com um chinês Han. A guerra ao terror que a China está empreendendo em Xinjiang trata-se de uma das maiores e menos divulgadas crises humanitárias da atualidade.

Sudeste Asiático

Em 2016, o presidente das Filipinas Rodrigo Duterte lançou a campanha “guerra à droga”, com o objetivo que acabar com o tráfico na sociedade, mas sua abordagem foi extremamente violenta. Por meio da força policial, buscava silenciar toda voz crítica, corroendo o sistema democrático do país.

Até hoje, há muitos assassinatos extrajudiciais, homicídios impunes e violências pelas ruas. Grupos dos direitos humanos das Filipinas estimam que existam mais de 25 mil vítimas de homicídios perpetrados por operações policiais. 

Além desse conflito, o Mianmar também encontra-se em uma crise interna. O grupo muçulmano Rohingya, que é uma minoria no país onde a cultura é predominantemente budista, fugiu para as fronteiras de Bangladesh no verão de 2017 devido aos ataques do exército de Mianmar. Os militares começaram a queimar os vilarejos, matar a população e estuprar mulheres. Segundo BBC, pelo menos 288 vilarejos no norte do estado de Rakhine foram destruídos pelos incêndios em agosto de 2017.

O exército demonstrou uma característica de limpeza étnica, com intenção de genocídio em direção a essa população, de acordo com investigações da ONU. O governo de Bangladesh aceitou receber 1500 pessoas por semana, estima-se 10 anos para repatriar todos os refugiados. Muitas famílias ainda se sentem inseguras de serem repatriadas, pois seus direitos à cidadania continuam a ser negados e só poderão retornar à Mianmar quando o exército for contido.

guerra Mianmar
Refugiados Rohingya em rumo a Bangladesh. | Foto: Reprodução.

Leste Europeu

As tensões entre Ucrânia e Rússia começaram logo depois da queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O governo ucraniano se posicionou como um país disposto a se distanciar do passado soviético, assumindo protagonismo próprio. Desde 2014, ocorreram conflitos armados entre as forças separatistas do movimento pró-russo e o governo ucraniano.

Em 2015, o exército russo atacou tropas no leste da Ucrânia, o que agravou a guerra. O país declarou que não cessaria o combate até recuperar o controle da fronteira com a Rússia. Nesse mesmo ano, dia 15 de fevereiro, foi assinado o acordo de paz Minsk II, porém, não foi respeitado. A guerra na Ucrânia deveria ter acabado 5 anos atrás, mas, até hoje, ainda há combates e, segundo a ONU, ocorreram mais de 10 mil mortes.

Oriente Médio

Esta região é palco para grande parte dos conflitos mundiais. Desde de 2015, o Iêmen tem encarado a maior crise humanitária do mundo, segundo as Nações Unidas. O conflito tem raízes na Primavera Árabe, em 2011, mas intensificou-se quatro anos depois, quando a Arábia Saudita e outros 8 países árabes, apoiados pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, realizaram ataques aéreos contra os hutis, movimento iemenita.

O objetivo era restaurar o governo de Abdrabbuh Mansor Hadi que, com uma revolta popular durante a Primavera Árabe, forçou o então presidente Ali Abdullah Saleh a deixar o poder nas suas mãos, já que era seu vice na época. De acordo com dados da ONU, aproximadamente 24 milhões de habitantes do Iêmen foram afetados pela fome e 85 mil crianças já morreram por desnutrição.

A chegada do coronavírus no país apenas piorou a situação e tornou a condição de vida ainda mais extrema. Apesar da gravidade, a crise no Iêmen não tem recebido atenção mundial, sendo descrita como “guerra esquecida”. 

Civis atingidos por ataques aéreos no Iêmen
Civis atingidos por ataques aéreos no Iêmen. | Foto: Reprodução.

Outra guerra civil da região encontra-se na Síria. O conflito começou em março de 2011, quando protestos pró-democracia inspirados pelas manifestações da Primavera Árabe dominaram a cidade de Deraa. O governo do presidente Bashar al-Assad demonstrava altos índices de desemprego, corrupção e falta de liberdade política, o que incitou as revoltas.

Com o passar do tempo, os protestos se transformaram numa guerra complexa dividida entre aqueles a favor e contra Assad. Além do Estado Islâmico e a Al-Qaeda, forças estrangeiras também se envolveram. Rússia e Irã apoiam o governo e Estados Unidos, Turquia e Arábia Saudita estão ao lado dos rebeldes.

Durante esses 9 anos de guerra, mais de 400 mil pessoas morreram ou estão desaparecidas. Há 6,1 milhões de sírios desabrigados e 5,6 milhões de refugiados. Desde 2014, a ONU tem promovido conversas de paz, mas obteve poucos progressos. Por isso, não há sinal de que o conflito chegará ao fim em breve.

Além dessas, também há a guerra civil no Afeganistão, que tem raízes no ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, liderado por Osama Bin Laden nos Estados Unidos, que resultou a morte de quase 3 mil pessoas. O Talibã, grupo islâmico radical que governava o Afeganistão, decidiu proteger Bin Laden e não o entregou aos americanos. Com isso, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra o país. O Talibã continua exercendo pressões por meio de atentados e controla muitos territórios afegãs.

A guerra se estende por quase 20 anos devido à resistência dos talibãs e à relutância dos EUA e de países europeus em manter tropas no país. Os números de mortes não são mais divulgados, mas, no início de 2019, o presidente afegão declarou que 45 mil membros das forças de segurança morreram desde 2014 e um relatório da ONU indica que 32 mil civis foram mortos desde o início da guerra. Durante a maior crise sanitária do século, o Afeganistão continua lidando com esse longo e sangrento combate.

Outro combate a ser destacado é o israelo-palestino. Desde 1948, Israel e Palestina têm sido palco para um dos maiores e mais longos conflitos mundiais. As duas nações lutam pelo estabelecimento de fronteiras e pela posse de Jerusalém. Porém, durante a pandemia do coronavírus foi declarado uma trégua e uma cooperação entre israelenses e palestinos. Israel tem muito mais recursos que a Palestina, por isso, está fazendo doações à Cisjordânia, incluindo kits para testes, produtos de higiene pessoal e itens de proteção para as forças militares e profissionais da saúde.

Com uma das uniões mais improváveis da geopolítica, esses dois rivais perceberam que era necessário coordenar ações de solidariedade para o bem comum da população. Durante essa crise global, foram as poucas nações em período bélico que colocaram a humanidade em primeiro lugar, e não o poder.

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Por Amanda Moraes – Fala! Cásper

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