Quadrinhos: Como contribuíram para a propaganda americana na 2ª GM
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Quadrinhos: Como contribuíram para a propaganda americana na 2ª GM

Quadrinhos: Como contribuíram para a propaganda americana na 2ª GM

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Antes mesmo dos Estados Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial, os americanos já triunfavam nas populares HQs, conhecidos também como quadrinhos

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Capitão América em ação contra Hitler. | Foto: Capa da primeira edição de Capitão América.

O Eixo, aliança formada pela Alemanha Nazista, Japão e a Itália fascista, não teve problemas somente nos embates que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial, mas também enfrentou grandes desafios no universo dos quadrinhos.

O ataque a Pearl Harbour foi o estopim para a entrada dos americanos na guerra. Entretanto, heróis que expressavam os valores e ideias americanos já estavam lá para conquistar a soberania frente aos nazistas.

Waldomiro de Castro, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos, explica a motivação dos autores das HQs em produzir um conteúdo que inserisse super-heróis estadunidenses na luta contra vilões nazistas.

Os escritores elaboravam histórias em quadrinhos com temas de guerra tanto porque viam o tema com simpatia, como por pressão de seus editores, que logo notaram o interesse do público por ele. Ajudava a vender jornais e revistas e colaborava para fortalecer a autoestima dos leitores.

Além disso, Waldomiro afirma que muitos desenhistas e roteiristas eram judeus e tinham interesse direto no desenvolvimento dos acontecimentos, procurando produzir material que pudesse influenciar o governo norte-americano a entrar na Guerra.

A criação dos heróis e vilões que se tornaram tão populares

Em 2019, Vingadores: Ultimato conquistou o feito de ser o filme com a maior bilheteria de todos os tempos. O Capitão América, que tem grande destaque nesse sucesso mundial, surgiu propositalmente para elucidar o conflito contra o Eixo. As edições com histórias do protagonista mostravam os líderes da aliança apanhando para Steve Rogers (verdadeiro nome do Capitão América).

Como todo bom herói, Jack Kirby e Joe Simon, desenhistas do herói com ideal norte-americano da Marvel Comics, também criaram um supervilão para ele, o Caveira Vermelha.

O professor da ECA-USP, Waldomiro de Castro, fala sobre o processo de criação de heróis contra vilões. “Basicamente, os heróis destacavam as virtudes da cultura norte-americana e os vilões representavam tudo o que de mau podia vir dos inimigos, enfatizando a falta de liberdade, de democracia e o autoritarismo de seus líderes”. Isso era extremamente usado pelos estadunidenses para difundir e espalhar seus valores como uma propaganda, conforme explica Waldomiro.

Os norte-americanos eram destacados por suas virtudes morais, sendo, normalmente, retratados como fortes, belos e caridosos, em contraste com seus inimigos, que eram desenhados de forma grotesca e estereotipada, tendo destacados seus atributos de maldade e seus variados defeitos. Evidentemente, o mesmo era realizado nos países contrários aos norte-americanos, que também utilizavam os quadrinhos para divulgar sua visão de mundo e atacar a visão do inimigo.

O próprio Capitão América era extremamente estereotipado, retratado como alto, forte, loiro e de olhos claros, mas o Coordenador do Observatório de Histórias em quadrinhos nega que seja uma referência ao ideal da raça ariana.

Não havia relação com a proposta do Der Übermensch, de Nietzsche, modelo seguido por Hitler. O fato dos autores do herói norte-americano terem ascendência judaica, inclusive, torna difícil acreditar que quisessem enfatizar o mito da raça ariana.

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Joe Simon e Jack Kirby foram grandes expoentes dos quadrinhos. | Foto: Reprodução.

O herói da Marvel não foi o único presente em histórias que retratavam o conflito bélico. Os grandes magnatas da imprensa, bem como os cabeças da indústria editorial, tinham raízes judaicas e, por isso, pressionavam o governo norte-americano para intervir no confronto.

Uma das formas de forçar essa intervenção ocorreu por meio das HQs, fazendo com que os heróis das histórias publicadas nos suplementos participassem da Guerra, defendendo a ideologia norte-americana. Assim, em suas histórias, heróis como Terry, de Milton Caniff, o Fantasma, de Lee Falk, e Flash Gordon, de Alex Raymond, participaram da Guerra antes que seu país formalizasse sua entrada no conflito.

Nessa mesma época, estavam surgindo os primeiros super-heróis dos quadrinhos, como o Super-Homem, em 1938, o Batman, em 1939, e a Mulher-Maravilha, em 1941. Os autores desses personagens viram o palco da Segunda Guerra Mundial como uma espaço privilegiado para suas aventuras. Logo, começaram a produzir heróis com a finalidade específica de participar da Guerra.

Discriminação contra Judeus

quadrinhos Stan Lee
Stan Lee foi um dos autores que conseguiu grande destaque no período. | Foto: Reprodução.

Waldomiro de Castro conta ainda sobre a discriminação que os judeus enfrentavam por uma parcela da sociedade e conta também sobre a alternativa encontrada por eles para não sofrer com isso.

Jacob Kurtzberg assumiu o nome artístico de Jack Kirby, Stanley Martin Lieber tornou-se Stan Lee e Robert Kahn se transformou em Bob Kane, disfarçando suas origens. Pelas memórias de alguns deles, caso de Will Eisner, sabe-se que sofreram discriminação e bullying de vários tipos durante a infância e a adolescência, devido a sua etnia.

A chegada das populares histórias em quadrinhos no Brasil

Waldomiro encerra falando sobre como as histórias em quadrinhos derivadas da Segunda Guerra Mundial se beneficiaram do ambiente dominante na época, que dividia o mundo em duas grandes forças que ficavam em oposição. Uma que defendia a liberdade e as regras do mercado, personificada nos Aliados, e outra que defendia o modelo totalitário e centralizador, representada pelos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Como a indústria das histórias em quadrinhos tinha seu principal centro nos Estados Unidos, era natural que as histórias envolvendo os soldados aliados como defensores da liberdade tivessem grande popularidade no Brasil, grande consumidor da produção norte-americana de quadrinhos.

Essas histórias conquistaram grande clamor e popularidade no país ao sair nas principais publicações, hoje em dia, não existem muitos exemplares dessas obras, tornando-as um item extremamente valioso.

Os heróis americanos da vida real conquistaram o triunfo somente em 1945. Por outro lado, os heróis, nos quadrinhos ou nos cinemas, ainda enfrentam supervilões e novas guerras.  

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Por Gabriel Teles – Fala! Cásper

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