PSG X Istanbul: confronto simples, partida histórica
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PSG X Istanbul: confronto simples, partida histórica

PSG X Istanbul: confronto simples, partida histórica

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Revolta, descrença, esperança, união e olho no olho. A partida entre PSG e Istanbul entrou para a história como o dia em que equipes adversárias se uniram e deixaram o campo, aos vinte minutos do primeiro tempo, para protestar contra atitude racista

jogo PSG x Istanbul
“Não vamos jogar”, disse Neymar após episódio racista no jogo PSG x Istanbul. | Foto: Reprodução/Tá Bonito.

PSG e Istanbul protestam contra racismo no futebol

Terça-feira (08/12), às 17h, Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir se enfrentavam no estádio Parc des Princes, pela Champions League. A partida seguia normal, com o placar de 0x0, até os treze minutos do primeiro tempo, quando começou a confusão. Pierre Webó, ex-jogador e membro da comissão técnica do time turco, sofreu injúria racial e foi expulso, após questionar um cartão amarelo dado a Rafael, lateral do Basaksehir.

O quarto árbitro, Sebastian Soltescu, foi quem solicitou o cartão. Ele teria dito ao juiz principal: “O negro lá, vai checar quem é, o negro lá”. Então, Webó interrogou o membro da comissão técnica, “Por que você disse ‘o negro’?”. Logo, Demba Ba, jogador do Istanbul, também se aproximou para questionar a atitude do árbitro, “Você nunca diz ‘esse cara branco’, você diz ‘esse cara’, por que você está dizendo então ‘esse cara negro’?”. 

Protestamos contra uma falta. Estávamos quatro ou cinco no banco e o 4º árbitro disse para ‘retirar esse negro’. É incrível.

Pierre Webó, em entrevista à rádio espanhola Onda Cero.

Após perceber o ocorrido, Neymar e Mbappé, principais nomes do PSG, também se aproximaram para cobrar a comissão. Neymar foi quem começou, “Nós não vamos jogar”. E logo Mbappé reforçou a posição, pedindo a saída do árbitro, “Não vamos jogar com esse cara aqui. Se esse cara não sair daqui, não vamos jogar!”. Então, após, aproximadamente, quinze minutos de indefinição, as duas equipes deixaram o campo. 

Jogadores e imprensa se recusaram a retomar o jogo no mesmo dia

A UEFA planejava retomar o jogo pouco tempo depois, mas os jogadores e a própria imprensa se recusaram a voltar. O comentarista Mauro Beting, do Esporte Interativo, e o narrador Jorge Iggor se mostraram indignados e deixaram claro que o jogo não deveria continuar naquele dia.

(…) uma autoridade, o quarto árbitro, ele está ali para aplicar regras, ofender racialmente um jogador é de dar nojo. Olha o nível que nós estamos. E ainda vai ter gente dizendo que não existe racismo, que não existe intolerância. Tem gente que tem a capacidade, o cinismo, a petulância de negar o óbvio, a realidade que a gente vê todos os dias, que está nos estádios, que a gente vê no shopping, no farol, em qualquer lugar (…) esse jogo não pode ser retomado!

Jorge Iggor, em desabafo após suspensão da partida.

Beting também deixou clara a sua posição, “Eu sou um cumpridor de escalas, mas não comento o jogo. Vou estar aqui, mas não comento o jogo. Não é para ter jogo”. Ainda, finalizou, “Eu não torço para ninguém na Liga dos Campeões, mas torço agora para que não tenhamos jogo hoje”. 

Os protestos continuaram e a descrença também

Após o caso ter ganho repercussão, ocorreram diversas manifestações nas redes sociais de atletas e não atletas. Inclusive, o presidente da Turquia, Recep Erdogan, condenou o episódio em seu Twitter. A figura se posicionou fortemente contra a discriminação racial e fez questão de citar a UEFA, que, segundo ele, deverá tomar as ações necessárias.

A partida recomeçou na tarde desta quarta-feira (9/12), com os jogadores ajoelhados durante o hino da Champions. Antes da bola rolar, os atletas formaram um círculo e se ajoelharam. Alguns estenderam o braço direito com o punho fechado, como mais uma forma de protesto contra o racismo. Também, faixas com os dizeres “Não ao racismo”, em inglês e francês, foram colocadas na arquibancada do estádio.

racismo
Jogadores protestam contra o racismo em retomada de jogo. | Foto: Globo Esporte.

A UEFA, que já anulou o cartão vermelho dado a Webó, se manifestou e disse que irá investigar o ocorrido. Em sua conta no Twitter escreveu, “A UEFA está ciente de um incidente ocorrido durante o jogo desta noite da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Istanbul Basaksehir e vai conduzir uma investigação aprofundada”. Ainda, completou dizendo que, “O racismo e a discriminação em todas as suas formas não têm lugar no futebol”.

Sebastian Soltescu também veio a público, para se defender das acusações. Soltescu se disse não racista, em declarações ao jornal ProSport, da Romênia. “Só tento ser uma boa pessoa. Não vou ler nada do que sair na imprensa nos próximos dias. Qualquer um que me conhece sabe que não sou racista. É o que eu espero, pelo menos”.

Além dele, outras pessoas, algumas de grande notoriedade, como o ex-técnico do Flamengo Jorge Jesus, minimizaram o ocorrido. O atual comandante do Benfica, em coletiva realizada na véspera do jogo entre Benfica e Standard Liège, alegou que não sabia o que havia sido falado, mas chegou a dizer que, “Está muito na moda isso do racismo”. 

racismo estrutural
Comentários minimizam atitude racista. | Foto: Reprodução.

Visando o entendimento geral, é importante esclarecer que, quando são feitos comentários que atribuem características raciais apenas a indivíduos negros, conclui-se que indivíduos brancos são o padrão e, por este motivo, todos que são diferentes necessitam ter suas características especificadas. 

Ainda, é relevante destacar que a expressão “aquele cara branco” não pode ser comparada com “aquele cara negro”. Pois a segunda carrega consigo um grande peso de atitudes racistas, entre elas, ofensas verbais, casos de homicídio e marginalização, recorrentes até os dias de hoje.  

PSG e Istanbul protesto
PSG e Istanbul se ajoelham antes da bola rolar em protesto contra o racismo. | Foto: Franck Fife/AFP.

A partida desta quarta-feira (09/12) terminou com o placar de 5X1, para o PSG. Mas o jogo vai muito além disso. O posicionamento do PSG e Istanbul deixou muitas pessoas emocionadas e se tornou um marco importante na luta contra o preconceito racial. Além disso, comentários acerca do ocorrido mostraram que grande parte da sociedade, mesmo após incansáveis explicações didáticas, ainda não entende, ou não quer entender, o que é racismo.

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Por Bianca Sousa – Fala! Faculdade Paulista de Comunicação

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