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A Primeira Negra Doutora em Física do Brasil

Por Juliana Santoros – Fala!Anhembi

A número 1

Sônia Guimarães não é o tipo de mulher que abaixa a cabeça para as adversidades: foi assim que se tornou a primeira negra doutora em Física do Brasil

 

Sônia ainda enfrenta uma luta diária no mundo da ciência (Foto: Juliana Santoros)

 

De jeitinho simples e conversa leve, a professora do Instituto de Tecnologia e Aeronáutica (ITA) conta dos inúmeros obstáculos de sua vida como se narrasse a história de outra pessoa. Não deixa transparecer nem um pouco de desânimo, mesmo que a realidade sempre tenha lhe exigido muita resistência. Sônia é uma mulher negra no privilegiado mundo da ciência e tecnologia brasileira, no qual a predominância de homens brancos, da classe A, é marcante.  “Eu gosto muito do que eu faço. Tem que aguentar uns idiotas, mas o problema é deles. Eu tenho meu jeito de ser e eu sei que está correto. Se não estiver, eu corrijo. Eu quero é que eles se danem”, diz. A paixão pela Física é vista no brilho dos seus olhos, quando ela se refere ao campo de estudo. Ela é a segunda pessoa da família a entrar numa universidade. Não bastasse isso, é a primeira doutora negra em Física do Brasil.

Através da carreira, Sônia abriu ainda mais os horizontes da mãe, sua eterna parceira: “uma senhora que nem subia num elevador, já foi pra Paris 2 ou 3 vezes, Milão, Salt Lake City, Nova York, Chicago… Além da Disney, onde ela se emocionou e disse que nunca havia imaginado estar ali um dia”, conta orgulhosa sobre as oportunidades que proporcionou à mãe. Sua trajetória não se limita ao Brasil e envolve estudos na Itália e na Inglaterra (onde concluiu seu PhD em Materiais Eletrônicos). Sônia teria seu passaporte ainda mais carimbado por estudos e congressos, se não fossem as limitações que a comunidade acadêmica do ITA lhe impõe. Além de professora, a doutora dá aula de inglês, à noite, três vezes por semana, voluntariamente para a ONG Integra São José dos Campos. Com uma rotina tão cheia, Sônia prova que é tudo, menos incapaz, e que é uma mulher que faz as coisas acontecerem.

Histórico Escolar

Sônia Guimarães estudou a vida toda em escola estadual e sempre gostou de matemática. Desde esse período sofreu com episódios de racismo, como no momento em que entrou no ginásio, de manhã, turno em que estudavam os mais empenhados, e foi obrigada a mudar de horário: “A filha da faxineira, que era branca, queria estudar de manhã. Então tiraram eu, a única pretinha que era uma das primeiras da sala, e me colocaram à tarde”.     Isso resultou num primeiro ano muito ruim, em que ironicamente a professora de Física disse a Sônia que ela jamais aprenderia a matéria. Mesmo com esses fatores, ela passou em segundo lugar no vestibulinho para o colegial. Acabou cursando ensino técnico em Edificações no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, onde decidiu que seria engenheira civil. No seu terceiro ano de curso técnico, Sônia ainda arrumou um emprego e logo em seguida entrou no cursinho, lugar em que se apaixonou por Física e incluiu o curso em uma das opções para o vestibular, além das engenharias.

 

Trajetória Acadêmica

Sônia passou no vestibular e foi estudar Física na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em período integral. Na graduação teve uma bolsa de iniciação científica recusada porque a professora responsável pela pesquisa disse que ela nunca usaria Física na vida. Sônia parece indignada com a situação até hoje e desabafa: “Eu queria tanto que ela visse o que eu ‘não fiz com Física’, porque realmente ela se negou a me dar a bolsa. Será que ela ficou sabendo do que aconteceu comigo depois? Eu mesma gostaria de ir lá e contar pra ela!”. Mesmo com empecilhos (de novo), Sônia já saiu da licenciatura com uma bolsa encaminhada para o mestrado, e durante o curso veio uma pessoa da Itália para ajudá-la na montagem do equipamento que era necessário para o estudo, o elipsômetro. Logo após o mestrado, Sônia ainda foi para a Itália cursar o chamado “Doutorado Sanduíche”, porém, o curso não lhe conferia o PhD que equivalia a um doutorado no Brasil. Então, surgiu uma oportunidade: uma conhecida da área morava na Inglaterra e telefonou para Sônia (enquanto ela estava na Itália) e sugeriu que ela fosse para a Inglaterra, pois havia a possibilidade dela seguir com a pesquisa lá e obter o título de PhD. Dito e feito, Sônia agarrou a chance, e após defender a tese de doutorado, retornou ao Brasil. Chegando aqui, começou a prestar concursos para lecionar: passou para a Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), onde deu aula por dois meses e logo passou no Instituto de Tecnologia e Aeronáutica (ITA), onde leciona até hoje. Tudo isso já faz 24 anos.

 

A Física e o investimento em pesquisa

Sônia conta que é malvista na Física, porque em toda sua vida trabalhou no lado prático, além de explicar o panorama da área: “O pessoal teórico acha que quem é físico aplicado não sabe Física direito”. A pesquisa é muito mais incentivada na esfera teórica, de forma a dominar os sistemas de distribuição de bolsa e ganho financeiro. Já os cientistas experimentais (que trabalham com Física Aplicada) têm muito mais dificuldade, porque, o que quer que tentem, o projeto precisa dar certo sempre. A doutora esclarece sobre o funcionamento de uma pesquisa e os dilemas pelos quais os pesquisadores brasileiros sofrem, devido às deficiências governamentais: “Não necessariamente uma pesquisa dá certo logo de cara. E ninguém gosta de investir em pesquisa que leve muito tempo. Quem deveria fazer esses investimentos todos é o governo! Mas ninguém investe em desenvolvimento, ao menos se estiver pertinho de dar certo e retornar rápido financeiramente. O governo não se interessa pelo futuro, porque só vale o que está dentro do tempo de mandato”.

 

Negra e Mulher no ITA

Primeiramente, Sônia reforça que é negra dos dois lados da família, independentemente do seu tom de pele ou textura do cabelo. E então, toca no assunto “interseccionalidade”: “A minha interseccionalidade é terrível, eu sou interseccional em tudo quanto é lugar, e não aceita de todos os lados. Um grupo fala ‘ah, mas ela não é preta o suficiente’, o outro grupo ‘ah, mas ela não é branca o suficiente, quer dizer, o que eu faço? Se eu me incomodar com tudo isso, eu enlouqueço”. Ela conta sobre o que é ser mulher num instituto tecnológico militar, onde majoritariamente a comunidade é masculina, branca e homofóbica, por mais que os preconceitos não sejam declarados da parte deles. Porém, como no ITA “não existe raça ou gênero”, Sônia sempre foi julgada como “incapaz”, afinal, é como ela diz: “Eles dizem que não sou inteligente o suficiente, porque se fizerem um comentário sobre eu ser mulher, posso processá-los. Se falarem que é porque sou negra, racismo é crime. Mas se o problema é eu ser burra, não dá pra fazer nada. A todo momento eu tenho que provar que sou o bastante”. Sônia também cita o contexto social que envolve sua condição: “Dou aula num lugar em que o vestibular tem de 13 a 15 mil candidatos para 120 vagas. Não foi fácil para esses 120 meninos. Aí eles entram na sala do ITA e vêem uma pessoa desse jeitinho, que eles só viram limpando a casa deles ou cuidando deles pequenos, ou limpando a rua e, agora, professora do ITA?”.

 

Família

A doutora sempre teve incentivo dos pais com os estudos, mesmo que eles não tivessem recursos financeiros em abundância, porque Sônia seria a segunda pessoa da família a cursar uma universidade. No primário, o pai fazia questão de olhar a lição toda noite, ver se a letra estava bonita e se a nota estava boa. Ele dizia: “você não trabalha, só estuda, então sua obrigação é ir bem na escola”. No ginásio Sônia já estava por conta própria, pois o pai já não tinha mais nível para ela. Ainda assim, eles ajudavam com as questões básicas ao longo da fase escolar e depois mantinham Sônia em São Carlos, já que o curso era integral. O pai era contrário a ter a filha longe, mas a mãe ajudava a convencê-lo com a ideia de que “se der errado, ela volta”. A mesma coisa ocorreu quando Sônia foi para a Itália, época em que ele desencorajava a filha lembrando: “lá é frio, você não gosta de frio e não vai gostar da comida”. Depois de tudo que Sônia conquistou, inclusive no exterior, o pai passou a ter orgulho. E a mãe tornou-se sua eterna companheira de viagens.

 

“Ex-filha”

Quando Sônia é questionada sobre ter filhos, de cara dá a entender que faleceram. “Eu tinha, não tenho mais”, ela responde. Por um momento, um silêncio reflexivo paira no ar, até que a doutora diz, sem completar a frase: “ela e o pai dela decidiram que eu não era…”. Então Sônia conta que morou com a filha até os seus 13 anos, e que nas férias ela ficava na casa do pai. Um dia, em mais um período de férias, a menina levou o violão junto. Sônia diz que a avó da menina já desconfiava. Mas ela entendeu a situação quando o pai de Natália disse: “ela não quer mais voltar pra aí”. Sônia descobriu posteriormente que o único período relapso de Natália nos estudos (algo que Sônia exigia que a filha exercesse bem) foi causado por uma ação judicial que a menina movia contra ela, junto com o pai: “Os dois já estavam com um processo contra mim para eu perder a guarda dela há tempos. Ela escreveu de mão própria uma carta ao juiz, morando na minha casa. Foi um período ruim de escola esse, mas eu nem imaginava que era por isso, só depois fiquei sabendo”. Mesmo depois de Sônia detalhar histórias sobre Natália e sua criação, não parece haver motivos para a menina adotar tal comportamento. A primeira doutora negra em Física do Brasil assemelha-se a uma muralha ao relatar sua trajetória: nem a questão com a “filha” foi um obstáculo grande o suficiente para impedir sua caminhada.

 

O futuro a Deus pertence

A professora conta que nunca imaginou que chegaria onde chegou. “Nunca houve um plano exato disso ou daquilo, se você percebeu as coisas foram acontecendo e eu nunca disse não”, afirma. Ela dá a dica para as mulheres que querem superar os obstáculos pelos quais passou: “Faça o melhor que você puder. Prove. Mostre. Estude sempre. Não dê chance para que a injustiça se engaje e fique presa em você. Esteja preparada. Se for necessário, processe. Para as pessoas saberem que você tem direitos!

Sônia está perto de se aposentar e não sabe de que forma aproveitará o tempo livre. “Não sei o que eu quero ser quando crescer, definitivamente uma coisa que eu viaje bastante”, diz, sorrindo. A doutora comenta que tem dado muitas palestras, mas que não precisa ganhar dinheiro para isso, desde que não tenha despesas. Quando questionada sobre o que gosta de fazer, não há dúvida: “O que eu poderia fazer pra ganhar dinheiro? Eu adoro Física! Gostaria de continuar dando aula de alguma coisa em algum horário, isso é fato”. Sônia fica confusa ao imaginar suas futuras atividades e até cogita morar no litoral, onde até as dez da manhã estaria indisponível para o mundo, mas completa: “eu não sei, na verdade já estou fazendo o que eu gosto”. Parece que o lugar dela é e sempre será na Física.

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5 Coment.

  1. Luiz Antonio

    Loira??

    • PAULO SÉRGIO DE OLIVEIRA

      Ela, assim como 90% da população brasileira, é uma mistura de raças! o povo brasileiro está farto desse tipo de artigo MIMIMI…

  2. Isaias Alves

    Parabéns pela sua conduta em Univ. Publica, pois, lá é o caminho! Custa tempo e dedicação, porém o retorno é garantido.
    Não só quem tem dinheiro estuda,quem é INTELIGENTE e POBRE consegue!!!

  3. Agnaldo S Silvério

    Eu queria saber o que significa o título “DOUTORA NEGRA EM FÍSICA”?

    • Olá, Agnaldo. Quer dizer que ela é a primeira mulher negra do Brasil a obter o título de doutora em Física. Mais alguma dúvida?

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