Por que os protestos antirracismo não têm tanta visibilidade no Brasil
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Por que os protestos antirracismo não têm tanta visibilidade no Brasil

Por que os protestos antirracismo não têm tanta visibilidade no Brasil

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O racismo no Brasil sempre foi um tabu, as pessoas se recusam a assumir que são racistas e/ou a admitir que sofrem com isto. Afinal, não pode existir preconceito racial em um país tão miscigenado quanto este, correto? Infelizmente, não é isso que vemos todos os dias, nas ruas, em nosso cotidiano, e até mesmo no noticiário, onde se tornou cada vez mais frequente encontrar reportagens envolvendo casos escancarados de discriminação racial. 

Nos últimos anos, apesar da recusa também estar presente, os protestos antirracismo têm tomado força no Brasil, principalmente na Internet. Casos como o de Maju Coutinho, jornalista negra ridicularizada por comentários racistas, geraram debates e discussões em diversas esferas sociais. Mas a questão é, por que estes protestos ainda não têm tanta visibilidade em território nacional?

racismo
Comentários racistas direcionados a Maju Coutinho. | Foto: Reprodução/Facebook.

A forma como nos enxergamos influencia

O principal motivo foi citado no início, o Brasil não se considera um país racista, portanto, movimentos protestantes desta ordem sempre foram minimizados. Para grande parte da população brasileira é inconcebível que exista preconceito racial em um país de tamanha miscigenação, pois seria praticamente impossível diferenciar as raízes do povo.

Mas a “teoria da mistura” apenas serve quando lhe é convencional, pois, quando se trata de discriminação, a sociedade sabe muito bem quem marginalizar, e isto se reflete em números. Segundo a ONU, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil e, de acordo com o IBGE, a expectativa de vida de homens brancos é até 4,6 anos maior que a de homens negros.

Outra forma de entender o porquê destes movimentos não terem tanta força em território nacional é fazendo uma comparação com outros países, Estados Unidos, por exemplo. Ambos têm histórias de abolição e jeitos de tratar o tema bastante diferentes.

Nos EUA, logo após a abolição, veio o sistema de segregação, onde os negros eram proibidos de frequentar escolas, estabelecimentos, e até bairros considerados brancos. Isso causou revolta e criou a necessidade de protestos, bem como formou uma consciência diferente da população estadunidense para com o racismo.

segregação racial dos EUA
Exemplo da antiga política de segregação racial dos EUA. | Foto: Wikilmages/Pixabay.

No Brasil, tudo aconteceu de forma mais sutil. Após diversas lutas e, consequentemente, a abolição, a antiga população escrava se viu desamparada. Os negros não eram mais escravizados, mas não tinham empregos, onde morar, condições decentes de vida e isso levou à marginalização destas pessoas. Assim, foram morar em favelas, ocupar subempregos e aguentar discriminações. Tudo isso enquanto os faziam engolir a ideia de democracia racial. 

A gente vive num país que foi fundado sob esse mito da democracia racial, de que, aqui, não existiria racismo, e isso dificultou a construção de uma identidade negra, o fato de a gente não ter acesso aos nossos ancestrais, no sentido de que documentos referentes à escravidão foram destruídos. Então, eu não sei, por exemplo, se meus ancestrais vieram da Nigéria ou de Guiné Bissau. Isso gera um abismo, uma lacuna na construção da nossa identidade.

Djamila Ribeiro, filósofa, escritora, feminista negra e acadêmica brasileira, em entrevista à BBC.

Papel da ditadura na inibição dos protestos antirracismo

Ainda, é importante não descartar o fato de que o movimento negro no Brasil surgiu na época da ditadura, sendo assim, foi criminalizado da mesma forma que outros movimentos sociais surgidos na época. Deste modo, os protestos voltaram depois de forma mais branda, adotando uma política anti-violenta, diferente do que aconteceu nos EUA.

Por fim, é fácil enxergar o abismo na publicidade dos casos. Uma semana anterior ao assassinato de George Floyd, que chocou o mundo, João Pedro, adolescente negro de 14 anos, foi morto dentro da própria casa durante uma operação conjunta da polícia federal e civil, no Rio de Janeiro. População marginalizada, racismo, violência policial, os temas são os mesmos.

Protestos antirracistas no Brasil
Protestos antirracistas no Brasil. | Foto: Reprodução.

Porém, no Brasil, um lugar onde negros representam 56% da população, segundo dados do IBGE, mas só ocupam 30% dos cargos de liderança do país, também, onde a maioria encarcerada é jovem, preta e pobre, ainda insistem em naturalizar as mortes e reforçar o mito da democracia racial.

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Por Bianca Sousa – Fala! Faculdade Paulista de Comunicação

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