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Por que adultos se vacinam tão pouco?

Por que adultos se vacinam tão pouco?

Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas a vacina contra a febre amarela tem uma taxa de cobertura em adultos maior de 50%.


É sabido que os pais têm uma grande preocupação com o cartão de vacina dos filhos pequenos, mantendo-o atualizado e bem guardado. No entanto, com o passar dos anos, e principalmente ao chegar à fase adulta, este cartão acaba sendo abandonado, e só é lembrado novamente quando há uma campanha de vacinação ou em casos de epidemia. Até mesmo o cartão de vacina dos animais de estimação costuma estar mais atualizado que o dos membros adultos da família.

vacinação em crianças
Vacinação em adultos: cobertura vacinal está abaixo do ideal. — Foto: Rádio Gazeta/Divulgação.

     Após o surto de febre amarela no ano passado, vários brasileiros se depararam com as seguintes dúvidas: ‘Será que eu já tomei essa vacina?’ e ‘Onde foi parar o meu cartão de vacina?’. A grande maioria não sabia a resposta. Sendo assim, tiveram que tomar todas as vacinas recomendadas para a fase adulta, mesmo que já tivessem sido tomadas.

Quais vacinas o adulto deve tomar?

     Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda 4 vacinas para adultos entre 20 e 59 anos:

  • Hepatite B – Três doses, de acordo com a situação vacinal
  • Febre Amarela – Uma dose se nunca tiver sido vacinado
  • Tríplice Viral – Se nunca vacinado, são duas doses para quem tem 20 a 29 anos e uma dose para 30 a 49
  • Dupla adulto (DT) – Reforço a cada 10 anos
vacinas no posto de saúde
Cartão de vacina é muito usado na infância, mas negligenciado na vida adulta.

Todas as vacinas listadas acima estão disponíveis na rede pública de saúde. Além dessas, a Pneumo 10 (pneumonia) e a Influenza A (gripe) também são encontradas na rede pública; a primeira é aplicada para adultos acima dos 50 anos e a segunda é aplicada somente mediante alguns critérios, como fator de risco e idade. Outras vacinas recomendadas para adultos, como a de Herpes Zóster só são encontradas na rede privada, e podem custar até R$500.

     Em caso de perca do cartão de vacina, o profissional aplicará as quatro vacinas recomendadas, mesmo se a pessoa já as tiver tomado. É o que confirma a auxiliar de enfermagem Monique Zafalon Moreira, que trabalha há 16 anos na área da saúde, dos quais 3 são em UBS (Unidade Básica de Saúde): “A maioria dos adultos infelizmente não procura se vacinar. As mulheres tendem a procurar o serviço quando engravidam. Outros casos de procura também são quando as empresas solicitam a carteira de vacina do funcionário, ou quando a pessoa quer tirar um passaporte para viajar. Mesmo assim, essas pessoas quase nunca tem o cartão de vacina. Assim, é necessário fazer um cartão novo e aplicar todas as 4 vacinas de uma vez só. Alguns reclamam, mas mesmo assim acabam aceitando. ”

Resultados ruins

     De acordo com o Ministério da Saúde, as quatro vacinas principais recomendadas para pessoas de 20 a 59 anos estão abaixo do considerado ideal de cobertura vacinal. No tríplice viral, por exemplo, a taxa de cobertura é baixíssima (4,7%, quando o esperado era de 95%). A situação se mantém na hepatite B e na dupla dT (dupla- difteria e tétano) e dTpa (dupla- difteria, tétano e coqueluche).

     Das vacinas do calendário adulto, a única que passa dos 50% de cobertura acumulada entre 1994 e 2018 é a da febre amarela, com 78,8%. Mesmo assim é um número baixo se for considerado o recente surto da doença em 2018. A expectativa do Ministério era de 100% de cobertura. Desde 2004, o Ministério da Saúde passou a definir calendários de vacinação por ciclos de vida.

     O Ministério da Saúde não estabelece metas de cobertura vacinal anual em adultos como faz com as vacinas infantis e também não faz balanços anuais. Porém, mesmo não estabelecendo metas, no relatório de 2013 o Ministério da Saúde estabeleceu o ideal de cobertura vacinal para cada vacina dos calendários. Todas as vacinas recomendadas para adultos estão abaixo do que o PNI considera uma cobertura adequada.

Algumas causas

     O problema também é cultural. Diversos países, incluindo o Brasil, se concentraram na vacinação infantil nas últimas décadas, quando o objetivo era diminuir taxas de mortalidade infantil para doenças como sarampo, poliomielite e paralisia. Nos EUA, por exemplo, mais adultos morrem de doenças passíveis de prevenção por vacinas do que crianças, diz Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

     Ele acredita que exista uma cultura da desinformação sobre a vacina para adultos, inclusive entre os profissionais de saúde: “Nós médicos não aprendemos desde a faculdade a vacinar outras faixas etárias. Não é só a população que é impactada negativamente, o próprio profissional da saúde não tem também essa cultura. Então ele não recomenda, não prescreve.”

     O calendário adulto é relativamente recente na saúde pública mundial e por isso uma mudança de cultura ainda leva tempo.

Taxa de abandono

     Outro grande problema é a taxa de abandono. Ou seja, quando uma vacina necessita de mais de uma dose para ter sua eficácia completa, mas os pacientes só tomam a primeira e não voltam para completar a prevenção. Há também os casos em que a vacina precisa ser tomada novamente após alguns anos, como a do tétano.

     A primeira dose da vacina contra o tétano é tomada aos 2 meses e um reforço acontece aos 4 anos. Depois disso, um reforço deve ser feito a cada 10 anos, mas a partir da adolescência é comum que o cartão de vacinação seja deixado de lado.

Há também os surtos de doenças, em que as pessoas se apressam para tomar a vacina. Porém, se não conseguem se vacinar no momento estabelecido, passado o surto também não voltam.

Anti-vaxxers

     O movimento antivacina, ou Anti-Vaxxers, como o grupo ficou conhecido nos Estados Unidos, é contra a imunização e reúne pessoas com diversas motivações para repeli-las. Para alguns, a vacinação pode causar autismo e outras doenças. Outros rejeitam a vacinação por motivos religiosos. Também existem aqueles que acham que os ingredientes das injeções não são “naturais” o suficiente.

     Ainda que de forma tímida, os Anti-Vaxxers vão deixando sua marca no Brasil. De acordo com o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, a vacinação de crianças menores de um ano teve seu menor índice de cobertura nos últimos 16 anos, em 2018.

Controle

     A carteira de vacinação em papel ainda é uma realidade no Brasil. A tendência, de acordo com o Ministério de Saúde, é que as salas de vacinação do país sejam equipadas com um novo sistema de registro informatizado.

     Com o sistema, a ideia é que todos os brasileiros consigam acessar seus dados de vacinação e que eles não estejam centralizados somente na caderneta de papel, com a possibilidade de recuperação dos dados.

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Rafaele Rocha – Fala!PUC

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