Por que a brutalidade policial no Brasil não gera tanta repercussão?
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Por que a brutalidade policial no Brasil não gera tanta repercussão?

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No último mês (junho de 2020), os protestos que começaram nos Estados Unidos se alastraram por várias partes do mundo. O asfixiamento de George Floyd – um homem negro, assassinado nas vias públicas de Minneapolis por um policial – mobilizou milhões de pessoas, que, em plena pandemia, levantaram nas ruas a bandeira #BlackLivesMatter.

black lives matter
Ativistas protestam no centro de Londres, no dia 20 de junho de 2020, pela causa Black Lives Matter. | Foto: Daniel Leal-Olivas/AFP/Getty Images.

Esse é apenas um dos casos que escancaram o direcionamento da violência policial norte-americana, que é fundamentalmente um mecanismo de opressão racial. Nessa perspectiva, ainda que em diferente contexto, a sociedade brasileira compartilha essa característica. Casos como o de Ágatha e João Pedro, crianças negras e periféricas assassinadas pela polícia, se acumulam diariamente no Brasil.

Contudo, enquanto nos EUA essas ocorrências geram mobilização e são amplamente repercutidas, no Brasil, em contrapartida, elas são naturalizadas. E qual é a causa dessa diferença crucial?

Por que a violência policial no Brasil não gera tanta repercussão quanto nos EUA?

A resposta reside na discrepância, de caráter estrutural, entre o racismo dessas duas localidades. De um lado, um país essencialmente segregado, e do outro, um país ainda à sombra da falaciosa democracia racial. Isso explica diversos aspectos de cada uma dessas sociedades e, portanto, as diferenças entre elas.

As pessoas acham que o que aconteceu com o João Pedro ou com a Ágatha foi um mero acidente. O mito da democracia racial gerou uma cegueira na população brasileira, principalmente branca, que nos faz naturalizar essas mortes.

Aponta Luciana Brito, doutora pela USP e especialista em história da escravidão e abolição nos Estados Unidos e no Brasil.

Já em contrapartida, na sociedade norte-americana, o movimento por direitos civis culminou em forte consciência política. Assim, ainda segundo Luciana Brito, nesse país o assassinato de negros é considerado uma “ruptura do estado democrático”, o que resulta em revolta e mobilização.

Nesse sentido, como aponta o professor da Universidade de Pittsburgh, George Andrews, “O caráter substancialmente mais relaxado da hierarquia racial brasileira trabalha para minar a mobilização política afro-brasileira de múltiplas formas”. Ou seja, a invisibilidade histórica do racismo dificultou a organização de oposição política a esse sistema, no Brasil.

Desse modo, os afro-brasileiros, diferente dos afro-americanos, não desenvolveram instituições próprias. Portanto, o Brasil não conta com um instrumento fundamental para a mobilização da política negra, como também indica o professor. 

O Brasil não compartilha com os Estados Unidos a tradição de igrejas e faculdades independentes, que favoreceram sensivelmente a formação da base ideológica e institucional e de liderança, para o movimento dos direitos civis.  

Escreve George.

Além disso, os protestos norte-americanos e brasileiros também são diferentes. Enquanto, nos EUA, os protestos – denominados ‘riots’, envolvem violência e vandalismo, já, no Brasil, são de cunho pacífico.

protestos George Floyd
Incêndio em protesto ocasionado pela morte de George Floyd, 30/05/2020, em Los Angeles. | Foto: Ringo H.W. Chiu/AP.

Embora essa diferença possa ser interpretada como inércia do povo brasileiro, na verdade, trata-se de uma questão histórica, uma vez que, após o período ditatorial, as manifestações adotaram um caráter antiviolento no país. 

Resistência contra o racismo no Brasil

Apesar dos empecilhos supracitados, o Brasil tem, sim, uma tradição de resistência contra o racismo. O movimento negro brasileiro segue lutando pelo seu espaço na política e confrontando os seus opositores. 

No dia 7 de junho de 2020, ao menos 20 capitais brasileiras também romperam a quarentena e saíram às ruas. Levantavam as bandeiras ‘todos pela democracia’, ‘favela resiste’ e ‘vida negras importam’. A crise sanitária no Brasil não é a única, e a luta é árdua, mas contínua.

vidas negras importam
Ato na cidade do Rio de Janeiro. | Foto: Amanda Montenegro/UFRJ.

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Por Sophia Lyrio – Fala! UFRJ

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