Penitentes e a manifestação do catolicismo popular no Ceará
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Penitentes e a manifestação do catolicismo popular no Ceará

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“São as vozes do passado atualizadas no presente que presenteiam o futuro com a fonte essencial da vida: a memória.” (NEVES, 2000:49)

Observar os penitentes é como olhar para as estrelas, mesmo estando há milhares de anos luz de distância, emitindo uma luz que foi irradiada no passado, ainda brilham vivamente aos nossos olhos. 

Joaquim Mulato, em 2003, nos revela informações cruciais sobre a constituição e manutenção da irmandade. Relata a passagem de Padre Ibiapina pelo sertão cearense, os aspectos da oralidade incutidos na tradição, a origem dos benditos e sua preocupação com a continuidade da irmandade.

Frei Ibiapina veio naquela época, desde 1800.. pra 700.. por aí assim. Ele descobriu o Caldas, fez casa de caridade no Crato, fez casa de caridade na Barbalha. Fez o cemitério da Macaúba, fez o de São Raimundo, desceu, fez aquele ali. […] Aí ele deixou essa irmandade, essa religião. Foi estendida aqui e na Bahia. Foi Frei Ibiapina que deixou, tudo ele deixou, ensinou como é que o homem andava com a cruz, ensinou como fazia, trazia os cachos feitos de recife, Frei Ibiapina.

Em 2017, Antônio de Amélia reatualiza as histórias contadas por Joaquim, e atualiza-nos com outras informações que não foram transmitidas na primeira entrevista. 

Nós deixamos de se cortar faz tempo, faz tempo. Ah… evolução como é que diz, as coisas vão mudando né. O bispo disse que num era bom se cortar não, porque não.. Se cortar no cemitério né bom não, se fosse noutro canto.. Mas no cemitério ele disse que era contaminado, ora, no hospital, tem infeção hospitalar, e no cemitério. É certo, o doutor também disse que não. É bem verdade, esse negócio de se cortar é um pouco meio complicado. Hoje. Porque hoje tá tudo contaminado, porque assim, no passado se cortava e num tinha nada. […] Agora eu tenho pra mim que continua o grupo de penitentes entrando com pouco bendito. Se não se acabar é com pouco bendito.

Das transformações identificadas por Antônio de Amélia, a diferença na relação com o decurião é uma das mais significantes. No passado, mais do que hoje, havia um respeito e obediência ao líder da irmandade, como cita seu Antônio: “Naquele tempo o povo obedecia o chefe, o decurião, hoje não querem, a gente manda cantar, eles não cantam”. Situação que preocupa o novo líder, mais, até, que a falta de adesão de novos membros e o pouco engajamento dos atuais.

penitentes
A penitência era uma das práticas dirigidas aos pecadores. | Foto: Reprodução.

Antepassado e penitentes

Diferente da crença de Joaquim Mulato, a história da penitência no nordeste brasileiro vem de tempos anteriores à passagem de Padre Ibiapina pela região. De acordo com os estudos de Carvalho, A. (2011:27-28), “as Ordens de Penitentes no Cariri cearense remontam a pelo menos a 1850, portanto em época anterior ao Padre Ibiapina, que pregou e fundou Casas de Caridade no Nordeste a partir do final de 1855”. 

A presença dos missionários das Santas Missões pelo sertão — grupo de jesuítas, carmelitas, franciscanos, oratorianos, capuchinhos, dentre outros — está fortemente ligada ao início da prática penitencial no Nordeste. É com eles que é levado ao imaginário do sertanejo a ideia de salvação por meio da mortificação corporal e penitência, seja ela qual for, conforme diz Silva (2011).

Diferente das Missões Volantes e de Aldeamento, que foram marcantes nos primeiros séculos da colonização e atuaram com o propósito de catequizar as tribos indígenas do litoral e dos sertões, as Santas Missões, ou Missões Populares, do século XIX foram criadas no contexto histórico da romanização em que vivia a Igreja Católica e pretendiam, dentre os vários objetivos, transmitir a prática sacramental e fortalecer o vínculo entre os fiéis e a hierarquia eclesiástica.

(SILVA, 2011, p. 2)

Além dessas missões existiam missionários que percorriam o sertão pregando sob o auxílio de textos de catequese como Missão Abreviada. Texto que traz passagens de antigas escrituras e instruções aos fiéis de como se remir de suas culpas e livrar-se do pecado por meio da mortificação corporal.

Esses “missionários”, ao contrário da maioria dos fiéis, detinham um conhecimento básico das Sagradas Escrituras, uma vez que dispunham de obras voltadas para a compreensão simples da Bíblia, como é o caso da já citada Missão Abreviada, além d’As Horas Marianas e a Imitatio Christi (Imitação de Cristo) – manuais muito comuns entre os sertanejos e que serviam como livros de orientação para a vida cotidiana.

(SILVA, 2011:18)

“Por praticarem uma vida simples e nômade, esses missionários apresentavam semelhanças ao povo sertanejo. Característica que facilitava o contato entre esses dois grupos, propiciando uma admiração por parte do povo do sertão para com esses homens”. (SILVA, 2011)

Os penitentes ainda guardam em suas relações à confiança depositada na fala de missionários, assim como nos membros da Igreja Católica. Algo que foi possível concluir por meio da fala de Antônio de Amélia sobre o fim da autoflagelação, “o bispo disse que num era bom se cortar não”. Foi possível chegar a essa conclusão, também, por meio de relatos do vigário de Barbalha, Padre Alencar. O pároco contou-me existir um grande respeito por parte dos penitentes para com os conselhos de seus membros e os preceitos da Igreja.

“A forte relação com a Igreja Católica vem desde a fundação dessas irmandades. Nos é possível inferir que a organização das irmandades penitentes faz alusão às ordens franciscanas, iniciadas no século XI” (ZUMTHOR, 1993). Há em comum nessas duas ordens além da prática da penitência, o canto de benditos — histórias sagradas ou biográficas cantadas em versos ritmados. 

Remontam ainda a outras práticas medievais. Trazem-nos à memória os flagelantes públicos, indivíduos que se açoitavam em praça pública na Europa do século XIII, com ápice da prática no século XIV, em decorrência da peste negra. Os flagelantes acreditavam serem aplacados pela ira Divina com a prática da penitência e martírio, como foi observado no texto de Carvalho, A. (2011).

“A salvação é garantida pelas práticas penitenciais onde cânticos, orações e sofrimento físico fazem parte do ritual desses grupos” (CARVALHO, A. 2011:21). A penitência também é meio de reatualizar a vida de Cristo. Segundo Joaquim Mulato, “Ele foi o maior penitente que existiu, morreu sem nenhum pecado para salvar a humanidade”.

Pergaminhos vivos 

Os penitentes são como uma obra secular. Daqueles livros ao qual a página onde consta a data da primeira impressão de tão amarelada e seca se desfez. Enxergamos os penitentes como pergaminhos vivos. Homens que inscreveram em seus corpos parte da história da penitência no Brasil e são, hoje, os documentos mais importantes a serem consultados para compartilhá-la. 

A História Oral como metodologia é “capaz de dar voz a segmentos sociais sem acesso à produção de documentos escritos e cuja cultura e cotidiano se desenvolvem, preferencialmente, através da oralidade” (ATAIDE, 2000:70). Por meio dessa técnica aproximamos pesquisador e pesquisado, criando uma conscientização em ambas as partes do entendimento do objeto como parte crucial à pesquisa. 

Percebemos hoje uma mudança no quadro do arquivamento dessa história, antes preservada apenas na memória dos membros da irmandade. Com o interesse partindo da academia, da mídia, da fotografia e do cinema, tem sido feita a transferência dessa memória para monografias, dissertações e teses, ensaios e filmes, programas de TV e editoriais.

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Por David Damasceno – Fala! Universidades Federal do Ceará

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