'Parasita': confira uma análise social do filme sul-coreano
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‘Parasita’: confira uma análise social do filme sul-coreano

‘Parasita’: confira uma análise social do filme sul-coreano

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O vencedor do Oscar 2020 da categoria de melhor filme, Parasita, do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho, entrou desde já para a história do cinema. Não fosse por sua direção impecável ou seu roteiro único, o longa ainda deixou sua marca ao se tornar o primeiro filme estrangeiro a vencer tal categoria na cerimônia de premiação estadunidense. Contudo, é importante destacar ainda que esta obra vai além, trazendo à tona importantes pautas sociais que devem ser discutidas.

Parasita
Cena do filme Parasita. | Foto: Divulgação.

Parasita: análise social do filme sul-coreano

Inicialmente, vê-se o retrato de uma família pobre da Coreia do Sul, que não busca nada além de se manter, frente ao desemprego vigente e à falta de oportunidades que assolam sua classe. A partir daí, pode-se abrir um parêntese e concluir que indubitavelmente tal retrato está presente não apenas na localidade em que o filme se passa, mas na sociedade como um todo, em todos os países, com maior ou menor intensidade, dependendo tão somente do nível de desigualdade desses.

No Brasil por exemplo, segundo relatório recente da ONU, em 2019, éramos o país com a segunda maior concentração de renda do mundo, onde o 1% mais rico concentrava 28,3% da renda total do país. Portanto, o que deve ser notado a princípio é que a realidade da família do Sr. Kim está mais próxima do que se pode imaginar.

Após receber uma proposta de um amigo para dar aulas particulares de inglês para Da-hye, filha de uma família rica, devido ao seu enorme talento e conhecimento no que diz respeito à língua, Ki-woo (o filho da família protagonista) abraça a ideia e, com a ajuda de sua irmã (que o faz um diploma falso), consegue o emprego. Nesse momento do filme, há uma fala em particular que merece ênfase: ao sair de casa para a entrevista, Ki-woo diz ao pai que não quer que ele pense naquilo como falsificação, pois ele pretende ir para a faculdade no ano seguinte, o que deixa clara sua vontade de conquistar para si e sua família um futuro melhor.

Após conseguir o trabalho, assim que enxerga uma chance, indica sua irmã para que também trabalhe na casa, entretanto, como se não fossem parentes e nem se conhecessem previamente, usando para ela o nome Jessica. Ela é contratada para realizar tratamento artístico com o filho caçula da casa, que aos olhos da mãe é um artista nato.

filme Parasita
Filme Parasita. | Foto: Copyright The Jokers/ Les Bookmakers.

 A corrente se segue até que, por fim, todos os 4 integrantes da família estão trabalhando para o Sr. Park (patriarca da família rica), de modo que a ligação entre eles é completo segredo. À luz de tais eventos, surge outra reflexão: será que as pessoas não só no contexto do filme, mas em todo o contexto social, são desempregadas por opção ou “preguiça” como muitos denominam, ou trata-se principalmente por falta de oportunidades?

O falso ideal da meritocracia é evidenciado com clareza no filme, uma vez que se observa que todos os que trabalham são extremamente talentosos; Ki-woo com o inglês e a forma de lecionar; Kim-jeong (sua irmã) com sua habilidade para falsificar, ao utilizar de programas de computadores além de atuar, entre outras; Sr. Kim (o pai) que desempenha sua atividade de motorista; e por fim Chung-sook (a mãe), que realiza todas as atividades de uma governanta com perfeição. Sendo assim, o que faltava para eles, senão oportunidades para poderem trabalhar e consequentemente terem uma vida melhor? Não se trata de mérito apenas, mas de ter as condições necessárias para agir, ter as ferramentas e, principalmente, as oportunidades.

Ocorrida a revelação, ao se descobrir o Bunker secreto e a existência de uma vida abaixo da casa, sendo esta a do marido da antiga governanta, o filme abre brecha também para a discussão da consciência de classes. Percebe-se que, apesar de se encontrarem em condições distintas, a ex- governanta reconhece que ela, assim como aquela que assumiu seu posto, são meras trabalhadoras para pessoas que estão “acima” delas socialmente falando.

Por outro lado, o residente do porão do Sr. Park, o vê como um salvador. Sente por ele gratidão e respeito, pois este “o alimenta”, segundo o próprio. Aceitando assim um lugar hierarquicamente inferior e, novamente, contribuindo para a segregação social e consolidação da divergência de classes.

A chuva que se iniciara quando a família ainda estava na sala de estar a degustar as finas bebidas da casa havia se tornado mais forte. E após fugirem com sucesso (apesar da tensão causada, que é forte nesse momento do filme), vão para casa e encontram tudo alagado devido à água torrencial que atingiu a cidade.

Naquele instante, enquanto Jessica fuma um cigarro sem perspectiva de que as coisas melhorem, seu irmão recupera a pedra, presente de seu amigo, que simboliza a riqueza para a família; já o Sr. Kim, chora, vendo todos os seus bens sendo perdidos, aquilo que, juntos, a família levara uma vida inteira para conquistar. Posteriormente, se alojam em um ginásio onde passam a noite, com centenas de outras famílias na mesma situação.

Talvez o ponto do filme que mostra melhor a disparidade entre as classes seja a fala dita pela matriarca que os contratou no dia seguinte. Enquanto Sr. Kim dirige após ajudá-la a fazer suas compras, ela diz para uma amiga ao telefone: “a chuva de ontem foi uma benção’’. É fácil trazer isso para a nossa realidade, uma vez que a mesma chuva que refresca os moradores dos condomínios fechados e dos prédios de zonas ricas da cidade, alaga e destrói frutos de uma vida inteira de trabalho e esforço de famílias pobres e carentes que vivem em lugares sem a devida infraestrutura.

Por fim, o ponto sinestésico que resume o filme e também o conclui: o cheiro. Diversas vezes durante o longa nota-se comentários do Sr. Park no que diz respeito ao cheiro do Sr. Kim. Ele chega a comparar o cheiro do motorista ao cheiro de “rabanete velho” e diz que ele tem cheiro de quem anda de metrô: “Quem anda de metrô tem um cheiro especial” nas palavras dele.

E, ao final, quando ele tampa o nariz ao levantar o cadáver do marido da antiga governanta que residia em seu porão secreto, fica ainda mais claro: o cheiro que o incomoda é o cheiro dos pobres, das classes inferiores a qual ele está habituado. Em um momento de clareza, o Sr. Kim o mata, e devido a isso, é obrigado a se esconder, no local em que sabia que estaria seguro.

Após a recuperação de Ki-woo (dados os eventos), o julgamento seu e de sua mãe, seu reestabelecimento em casa e após deixarem de serem seguidos por detetives que acreditavam que eles sabiam do paradeiro de seu pai, ele volta à montanha que o permite ter vista da casa que, por um momento, pôde ser de sua família. Em seguida, recebe e decifra uma mensagem que seu pai, do Bunker da casa, o enviara. E o filme termina com a carta de resposta, a promessa de Ki- woo a seu pai de que um dia ele irá ganhar muito dinheiro, um dia comprará aquela casa e seu pai só precisará subir as escadas. Indubitavelmente trata-se de uma visão, uma utopia impossível de se confirmar, e após voltar para a triste e miserável realidade na qual está inserido, coberto por nada além de sonhos inalcançáveis, fim.

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Pôster do filme. | Foto: Reprodução.

Mais do que um simples drama ou um suspense bem elaborado, Parasita retrata a realidade de forma intensa, exatamente como é e não como gostaria que fosse. Não aborda apenas temas como meritocracia, desigualdade social, segregação e preconceito; mas evidencia a consciência de classe, que destrói o sonho de ascensão social das camadas mais pobres da sociedade, que conforme fica bem claro, não passa de um sonho. Todavia, há uma pergunta que surge no início e, ao final, é facilmente respondida: quem são os verdadeiros parasitas?

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Por Milson Cardoso – Fala! UFG

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