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A palavra como arma dos povos indígenas: conversa sobre educação indígena e resistência no Festival Path

A palavra como arma dos povos indígenas: conversa sobre educação indígena e resistência no Festival Path


            No final de semana passado aconteceu a edição de 2019 do Festival Path, um grande encontro de profissionais do mercado para desvendar os paradigmas do papel de um comunicador na nossa sociedade. Neste ano, o alvo da maioria das discussões pousava em temas como empreendedorismo, liderança e a relação entre comunicação e o mundo empresarial.

 Ali, dentre dezenas de atividades sobre mindset, economia comportamental, think ahead, e empreendedorismo de base, em uma pequena sala com capacidade máxima de 50 pessoas, aconteceu uma roda de conversa com um tema que contrastava tanto com o restante do que foi abordado no festival quanto os convidados contrastavam com os demais palestrantes do evento: Educação indígena para resistir.

Artesanatos da aldeia Guarani Krukutu, exibidos na roda de conversa.
Artesanatos da aldeia Guarani Krukutu, exibidos na roda de conversa.

Olívio Jekupé, um dos convidados para a roda de conversa, trouxe seus dois filhos para participarem da discussão. Jekupé Mirim, seu filho mais novo, não é falante de português, e se comunicava melhor através do guarani. Por isso, se apresentou por essa língua, enquanto seu irmão mais velho, Werá Jeguaká Mirim, traduzia simultaneamente: “Desde pequeno, eu vejo meu pai e meus irmãos escrevendo as histórias, e aí decidi escrever também. Eu espero que seja lançado o meu livro em breve”.

Jekupé Mirim, ao lado do pai, Olívio Jekupé.
Jekupé Mirim, ao lado do pai, Olívio Jekupé.

Olívio, o pai dos meninos, é escritor, e na palavra encontrou uma forma de expor a cultura indígena para a sociedade branca, que, como ele diz, não consegue entender o contexto dos povos indígenas e seu modo de vida no século XXI. A princípio, Olívio tentou publicar livros com um viés político, denunciando o preconceito do branco e desmistificando estereótipos. Infelizmente, nenhuma editora se interessou por publicar esse tipo de conteúdo, e em uma reunião, um empresário chegou a sugerir que Jekupé deixasse o tema de lado e passasse a escrever sobre mitos, que era um “assunto mais normal para um índio escrever”.

Assim, Olívio passou a direcionar suas obras de forma a narrar o cotidiano, a cultura e um pouco das dores que sua aldeia passa, e dessa maneira conseguiu que editoras passassem a vender seus livros.

Histórias de sua aldeia, que antes perduraram pela tradição oral, foram apresentadas para o mundo branco através da literatura, e Olívio Jekupé se tornou um importante difusor da tradição indígena, com mais de vinte livros publicados. Além disso, educou e inspirou seus filhos a seguirem seus próprios caminhos na luta pela resistência dos povos indígenas.

Olívio Jekupé na palestra “Educação Indígena para Resistir”.
Olívio Jekupé na palestra “Educação Indígena para Resistir”.

Além de Jekupé Mirim, que escreveu seu primeiro livro seguindo os passos do pai, Werá Jeguaká Mirim também fez da palavra uma arma para resistir. Participou da abertura da Copa do Mundo no Brasil, onde apareceu representando os povos indígenas. Trouxe, escondida dentro de sua roupa, uma faixa, que estendeu em frente a câmeras do mundo inteiro, exigindo a demarcação das terras indígenas.

Um dos responsáveis pela difusão do mote “Demarcação Já!”, Jeguaká adota o nome Kunumi MC, e faz letras de rap para contar a história de luta de seu povo e dos indígenas brasileiros. Kunumi canta, em uma de suas letras:

Poesia

É um esporte corretivo, poderá mudar o mundo
Sem briga, e com democracia
Raciocínio consciente, do "meu sangue é diferente"
Rimando, um índio consciente
Rap indígena e o meu povo me inspira
[...] Nego, o Kunumi chegou
Tentando demarcar e é zika para lutar
Nego, o Kunumi chegou
Tentando demarcar e salvar o nosso estar
Festival Path: Werá Jeguaká Mirim cantou um de seus raps no Festival Path.
Werá Jeguaká Mirim cantou um de seus raps no Festival Path.

Levo a conversa com Jeguaká, Jekupé e Olívio como uma das experiências mais marcantes desta edição do Festival Path, e como comunicadora, passo a dar mais valor ainda à necessidade da nossa sociedade de ouvir a História contada pelo olhar daqueles que foram oprimidos por ela.

Qualquer profissional que se considere um comunicador tem o papel de propulsionar a voz daqueles que tem algo a dizer sobre violências que sofrem, dores que passam, preconceitos e estereótipos estagnados sobre seu povo.

Gostaria que todos que participaram ou não do Festival pudessem ter tido a experiência de ouvir a voz da família guarani que expôs sua realidade naquele dia, e que ouçam cada vez mais às vozes daqueles que, geralmente, são sufocados por todos aqueles que detêm o poder da palavra.

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Por Júlia Nagle – Fala! USP

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