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A paixão do cartunista

A paixão do cartunista


Beatriz Issler – Fala! Cásper

 

Ele vivia sentado no banco da praça, à espera de um rosto interessado em ser estampado no papel. Todos querem saber como são vistos pelos outros, e a habilidade de um desenhista pode funcionar muito bem como um espelho – só que mais simpático. Por R$15,00 um retrato próprio, detalhado e enquadrado. Por que não?

Os clientes eram poucos… mas ele esperava, permanecia ali, no banco da praça. O rapaz era desenhista. Cartunista, para falar a verdade, mas perdeu o emprego e decidiu fazer arte na rua. As vezes saiam tirinhas das coisas que via dali.

Bela praça, observava todos os detalhes. Os canteiros de flores bem cuidados pelos moradores da região, um balanço de criança que rangia o dia todo como um mantra, as pombas que no frio estufavam o peito e ficavam distribuídas pelos galhos da grande e central árvore da praça, ou as pedrinhas no chão que faziam um som agradável quando passavam de lá pra cá, de cá pra lá.

– Quanto tempo demora pra fazer o desenho? – disse uma voz doce e certeira cortando o silêncio.

– Quanto tempo você tem? – ele respondeu ainda de costas. Ela riu. Antes que o desenhista pudesse se virar, puxou um banquinho à sua frente, sentou-se e começou a arrumar o cabelo. Cabelos volumosos – até demais – que não cabiam no quadro. Parou, e como quem assiste em câmera lenta, ela levantou o olhar ao desenhista e sussurrou:

– Comece…

Sem tirar os olhos do feitiço de duas retinas, puxou o lápis com uma mão e pegou um lenço branco com a outra. Costumava pôr em baixo da mão para não borrar o desenho conforme os movimentos. Era cauteloso.

– Não se mexa, moça – respondeu encarando agora o papel em branco. E ela permaneceu ali. De frente para ele, ombro malicioso, o sorriso então nem se fala. Olhos amendoados, traços tão fluidos quanto a correnteza de um riacho . Às vezes ela piscava, relaxava os braços, subia de volta. Molhava os lábios quando secavam. Deixava-os entreabertos. Conhecia seus charmes.

Ele riscou, riscou, riscou. Quando começou a revelar seus belos traços, a visão do cartunista escorreu sobre a moça com um profundo ar de ternura. Ele não sabia se mantinha os olhos nela ou no papel, que crescia mais a cada risco. Ela ria baixinho. Riscou o contorno do rosto, como quem a acariciava, como se pudesse sentir sua pele de veludo. Cada cílio traçado, um suspiro. A sobrancelha transmitia a expressão que ela impunha, por meio dos gestos, maneiras, meio sorrisos.

– Está ficando bom? – perguntou ela olhando como quem quisesse enxergar por cima do cavalete.

Ele afirmou com a cabeça. Sua mão tremia, a testa umedecia em vapores frios. O lápis riscava seus lábios transformados em cinza pelo cinza do grafite.

Cada curva do cabelo era como se fosse um afago nas ondas dos fios despenteados. Linda como o céu num começo de manhã. Iluminou, sombreou, ajustou, soprou, corrigiu, terminou… Mas a ponta do lápis não obedecia sair do papel e ele não conseguia parar. Embalou, olhou para o pacote e esticou o braço para entregar. Ela esticou a mão, segurou e puxou em falso. Ele não tinha coragem de soltar. Ela forçou, soltou a fita e a o embrulho se desfez.

Os dois riram de nervoso.

Ela puxou para si, tirou o quadro e devolveu para o rapaz junto com 15 reais entre os dedos.

– Presente, disse ela. Ele pegou rapidamente o quadro e as pessoas que começaram a passar próximo ao tal banco da praça, pararam para observar o desenho. Minutos depois, após voltar do delírio deslumbrado causado pelo retrato, o cartunista se deu conta da triste notícia: ela havia partido. Enquanto todos observavam a reprodução da beleza da moça no papel, a ignoraram em carne.

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